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Voluntariado empresarial

Querer é poder

Segunda-Feira, 05 Dezembro 2011
Durante o AEV, as empresas, socialmente responsáveis, também deram o seu contributo, dispensando os seus funcionários em dias dedicados ao voluntariado, até porque trabalhadores motivados produzem mais.

Imagine que a sua entidade patronal lhe daria alguns dias por ano para fazer voluntariado. Que o cinzentismo do escritório daria lugar a outras pinturas na vida de outras pessoas. Que a produtividade no local de trabalho não baixaria, apesar dessas ausências. E que a relação com os colegas iria melhorar. É o que acontece com as 86 empresas portuguesas que estão, até à data, associadas ao Grace – Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial. Micro, pequenas, médias e grandes empresas, todo o tecido empresarial português pode estar ligado a iniciativas de voluntariado.

Conceição Zagalo, presidente do Grace, explica o conceito: «Quando falamos em voluntariado empresarial, falamos em atitudes de empresas/agrupamentos de pessoas que acreditam que a sua actividade essencial é excessivamente preciosa para ficar limitada às paredes onde actuam no dia-a-dia.»

Pode parecer estranho a algumas empresas deixar que os seus colaboradores sejam dispensados uns dias para acções voluntárias, mas quando «as empresas têm uma atitude de querer, disponibilizam o tempo para os seus colaboradores fazerem voluntariado nas comunidades, até porque está provado que, quanto mais as empresas dão e quanto mais os colaboradores dão em termos de voluntariado, mais empenhados se sentem, mais produtivos se tornam, mais espírito de equipa desenvolvem».

Ao longo de 11 anos do Grace foram feitas 66 acções de voluntariado, que envolveram mais de 2500 colaboradores das empresas e chegaram a mais de 12 mil beneficiários. Foi uma prestação de mais de 42 mil horas de voluntariado doadas pelas empresas associadas. Numa tabela de conversão com base na remuneração média praticada em Portugal significaria 390 mil euros. «É obra! Se juntarmos os valores deste ano vai ao meio milhão», diz Conceição Zagal, que realça ainda: «Temos país, temos sociedade.»

Uma nova mentalidade

«As empresas começam a estar cada vez mais dispostas e mentalizadas que querer é poder»; porém, ainda há muito for fazer: «Falta "escavar" mentalidades. Falta às empresas perceberem que têm de dedicar à responsabilidade social e ao voluntariado a mesma importância estratégica que dão a outras áreas operacionais.»

Eis um caso de voluntariado empresarial: a Servilusa, uma empresa do ramo funerário, com responsabilidade social. No início de cada ano é adjudicada uma verba destinada às acções voluntárias. Em 2011, a Servilusa disponibilizou 3000 euros para o serviço associado ao voluntariado. Ser voluntário é um item valorizado na empresa. No momento da contratação, questiona-se ao candidato se exerce alguma actividade no campo do voluntariado: «Pode ser um factor de diferenciação entre a escolha de um candidato e de outro», garante Madalena Nunes, directora da Qualidade, Ambiente e Responsabilidade Social.

No total, a empresa tem 303 colaboradores e 25 já entraram em acções de voluntariado. O número ainda não satisfaz aquela responsável: «Queremos mais!» Os funcionários inscrevem-se na bolsa de voluntariado e canalizam também a produtividade para outro objectivo um ou dois dias por ano.

A Servilusa durante o AEV reparou uma casa de uma pessoa idosa em colaboração com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Grace (através do GIRO – Grace, Intervir, Recuperar, Organizar), fez também melhoramentos numa casa no Algarve e na associação Soltar os Sentidos, de Coimbra. «Começámos a descentralizar para dar a oportunidade a outras pessoas de participarem em acções de voluntariado», conta Madalena Nunes.

Mais iniciativas

Aquela responsável da Servilusa, que também já pôs as mãos na massa não só para dar o exemplo aos funcionários, mas também pela vontade de dar de si, garante que «o voluntariado empresarial gera um espírito de equipa e as pessoas sentem que estão todas unidas com o mesmo fim». E como fica a produtividade na empresa em dias de voluntariado? «Também achamos que isto é produtivo. As pessoas sentem-se mais motivadas, mais descontraídas. Nesse dia há um almoço-convívio, conhecem-se outras empresas, trocam-se experiências...», responde Madalena Nunes, que já foi com mais 14 colegas da empesa pintar as paredes do Centro Social da Musgueira, na Alta de Lisboa. Para dar continuidade aos laços que se criaram a partir dali, a Servilusa ofereceu àquelas crianças uma ida ao Jardim Zoológico no ano passado.

Para lá destas iniciativas, a Servilusa apadrinha duas crianças com deficiência e contribui com 1500 euros anuais para o acompanhamento das mesmas. «Para além do apoio financeiro, estamos agora a reunir, dentro do leque de voluntariado, a nossa inserção nas actividades diárias dessas mesmas crianças: uma brincadeira no escorrega, ajudar na alimentação, fazer o transporte da residência ao centro social...», informa Alexandra Calado, relações institucionais da empresa, que não tem dúvidas ao afirmar que «o voluntariado humaniza a profissão».

«Temos de desmistificar a área funerária», continua, «torná-la mais humana, dar-lhe um rosto; indo pela responsabilidade social, tornamo-nos mais abertos para a sociedade».

Madalena Nunes considera que pelo facto de as empresas estarem, de alguma forma, a substituir-se ao Estado poderiam ter «benefícios fiscais». Conceição Zagalo do Grace discorda: «Do meu ponto de vista não tem de haver benesses fiscais para se ser bom praticante. As boas práticas de responsabilidade social passam por tudo menos por venda de serviço, também não pode passar por venda de atitude – isso era subverter o mais genuíno princípio da boa prática da responsabilidade social ou do voluntariado.»

A directora da Qualidade, Ambiente e Responsabilidade Social da Servilusa avança à FAMÍLIA CRISTÃ que a empresa vai fazer um manual de voluntariado, para se fazer cada vez melhor esse trabalho. Um desafio para o futuro porque, diz, «queremos internamente desenvolver mecanismos que nos possam ajudar a chamar mais pessoas para o voluntariado». Nos próximos tempos haverá mais acções.

Para Alexandra Calado, só «o céu é o limite» no que concerne às iniciativas ligadas ao voluntariado empresarial. «Muitas vezes só depende do lado de lá querer a nossa ajuda. Temos essa disponibilidade para o fazer, temos de saber rastrear essa ajuda por forma a não cair numa situação de abuso de confiança», remata.

Sílvia Júlio
Publicado em Sociedade

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