Segunda-Feira, 22 de Dezembro de 2014
 
   
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Comunidade Vida e Paz

«Embaixadores da Esperança»

Sexta-Feira, 29 Julho 2011
Numa casa de porta aberta, num bairro tranquilo de Lisboa há uma azáfama constante de gente a entrar e a sair. Trabalha-se em equipa na preparação das ceias para aqueles que têm como tecto o céu da nossa cidade. E energia não falta aos voluntários que colaboram com a Comunidade Vida e Paz.

Há números que impõem respeito e os desta Comunidade são de peso. Cerca de 620 voluntários colaboram regularmente com esta casa, 520 dos quais nas «equipas de rua», como nos explica a coordenadora do voluntariado Isabel Oliveira. Mais de cinco centenas de pessoas, na cidade de Lisboa que «roubam» algumas horas do seu sono para, durante a noite, levar comida, disponibilidade, afecto a quem muitas vezes está despido de si. Equipas que, além da comida necessária para manter o corpo de pé, levam também o "ombro amigo", as palavras, a escuta e o sorriso que amparam a alma. Para estas equipas, há uma lista de espera de pelo menos 50 pessoas.

Durante alguns dias, para a festa de Natal, reúnem-se 1100 voluntários à volta desta comunidade. Os restantes colaboram nas «equipas das sandes», que preparam as refeições que são distribuídas durante a noite e também, em menor número, num leque variado de áreas.

Voluntários de todas as áreas profissionais

São números que ilustram a importância que o voluntariado tem para esta instituição. «A base da instituição é o voluntariado, a nossa direcção é toda voluntária; são 620 pessoas que colaboram. O apoio aos sem-abrigo é feito unicamente por voluntários. Somos uma instituição mesmo muito aberta para voluntários que querem apresentar projectos ou acham que podem contribuir de alguma maneira. Eu não imagino, tendo em conta o nosso funcionamento, a Comunidade Vida e Paz sem voluntariado. Porque nós, para além de voluntários das equipas de rua ou das equipas das ceias temos muitos advogados, médicos, pessoas que sentem que podem dar de alguma forma o seu contributo para o crescimento desta causa. Temos voluntários na área da enfermagem, arquitectura, que por vezes ajudam em alguns projectos pontuais, na área administrativa, motoristas, rouparia... E é com o contributo destas pessoas também que temos vindo a crescer» sublinha Isabel Oliveira.

Nascida do trabalho da Irmã Maria pelas ruas de Lisboa a instituição conta hoje com vários locais de apoio aos sem-abrigo, como a unidade aberta ao diálogo, centros de recuperação terapêutica, duas comunidades de inserção, apartamentos transitórios de auxílio à reintegração de sem-abrigo, etc.

É este o resultado do trabalho de 22 anos apoiado nos valores cristãos, de amor ao próximo, de preocupação com as necessidades de quem está ao redor. «A irmã começou com um grupo de voluntários esta aproximação, começaram também num apartamento a fazer algumas sandes, porque as pessoas tinham fome e a irmã na conversa com eles foi perguntando do que é que eles precisavam para saírem daquela situação, porque ela apercebeu-se que a comida não era suficiente. E eles diziam: «ah, se tivéssemos algum sítio para ir, alguém que nos acolhesse, [onde] nos pudéssemos reabilitar. E foi assim que a irmã acabou por criar a comunidade. Nós dependemos do patriarcado, porque a ela, como irmã católica, fazia-lhe todo o sentido que a instituição fosse católica», explica a coordenadora.

Amor que move montanhas

E se o amor pelos outros move montanhas, os voluntários acreditam em milagres e, por isso se consegue ir longe. Funcionária da instituição, a coordenadora do voluntariado explica por que motivo os voluntários são tão importantes para as instituições, recorrendo a um episódio de provação pelo qual esta comunidade passou. «Há três anos nós tivemos um assalto no armazém, roubaram-nos tudo dois dias antes da festa do Natal e nós achámos: "pronto, já não vamos fazer festa este ano; vai ser impossível". E lá está, os voluntários aí [disseram]: "não, vamos para a televisão, vamos conseguir, não vamos desistir. E realmente foi o que aconteceu: fomos para a televisão, fez-se uma campanha e conseguimos recuperar três vezes mais; ainda ajudámos outras instituições. Lá está; acho que os voluntários trazem sempre essa força e esse dinamismo às instituições. São pessoas também muitas vezes que têm motivações para nos ajudar muito grandes e que também muitas vezes, a nós funcionários que estamos aqui o dia todo, não nos deixam desanimar com uma ou outra adversidade.»

É por esta força e por todo o trabalho que desenvolvem que os voluntários da Comunidade Vida e Paz são apelidados de "embaixadores da esperança". «O trabalho dos voluntários na rua é mesmo um trabalho muito afectivo, de relação com as pessoas, de apresentar a comunidade. O meu Presidente costuma chamar aos voluntários "embaixadores da esperança", porque são eles que levam esperança às pessoas que estão numa situação de desamparo e esta relação que os sem-abrigo criam com um ou outro voluntario é que lhes permite criar confiança e vir até nós», descreve a coordenadora.

Não quer dizer que para os próprios voluntários não existam também alturas de maior desânimo, ou o sentimento de impotência quando simplesmente não se pode fazer mais, ou alguma tristeza quando se vê que alguém que está a percorrer o caminho da reabilitação não consegue e volta a cair. Mas nessas alturas, há que olhar para tudo o que corre bem e não desistir.

E é o que fazem Maria Clélia Flores e Maria Pais; continuam o seu trabalho por amor ao próximo.

«Eu quando pego nas coisas, posso desistir para pegar noutras. Só se não tiver saúde. Mas não sou muito de desistir; sou muito de levar as coisas até ao fim» afirma Maria Pais, reformada e voluntária na instituição há cerca de oito anos, todas as quintas-feiras.

Com uma energia que se vê na própria maneira de falar, esta voluntária vê no seu trabalho um compromisso, um dever e uma forma de estar inserida na sociedade. «Só venho uma vez por semana, a não ser que me peçam, porque tenho a vida um bocado cheia. Tenho uma vida mesmo muito activa, mas venho e não deixo de vir porque acho que é importante. Não é só importante nós ajudarmos e darmos como também é importante aquilo que nos dão, porque nós, ao virmos trabalhar e fazer qualquer coisa para os outros, obriga-nos a sair de casa, a estarmos activos, obriga-nos a vermos o mundo, porque as pessoas que não estão inseridas no mundo não sabem muitas das vezes o que se passa. E nós, ao estarmos inseridos sabemos o que se passa, sabemos que é necessário darmos e ao dar estamos a receber em todos os aspectos», acredita. E acrescenta que o voluntariado chega a ser uma questão de saúde. «O facto de estar a fazer um trabalho que é digno para outros ajuda-nos também a nós a sairmos do nosso eu, da nossa casa, a comunicarmos com os outros. E dá saúde.»

Maria Clélia Pais, contabilista reformada, está na instituição há cerca de ano e meio. Embora faça voluntariado nas campanhas do Banco Alimentar em Maio e em Dezembro há já muitos anos, esta é a sua primeira experiência regular. Num discurso com um tom emotivo, esta voluntária partilha as sensações e sentimentos que esta experiência lhe tem trazido. «Tenho recebido muito carinho. Sinto realmente aquele carinho, aquele agradecimento, aquelas palavras amigas que a gente também precisa. A gente dá, mas recebe muito deles e recebe algumas lições de vida... são pessoas que tinham situações muito boas e que a vida deles deu determinadas voltas e hoje em dia estão noutra situação. E essas lições de vida também fazem falta porque as pessoas julgam sempre que estão bem e a vida não é tudo bem nem um mar de rosas», adverte.

E também nem sempre o trabalho é fácil. Maria Clélia explica que por vezes é mesmo um desafio. «Há situações em que a pessoa diz assim: mas o que é que eu posso fazer para melhorar esta situação? Nem é desânimo, acaba por ser um desafio, mas há alturas em que a pessoa se sente impotente. Porque a gente puxa, puxa, puxa, mas muitas vezes eles não vêm, e a gente está a ver que eles se estão a afundar e é ai que a gente sente aquela coisa: mas o que é que eu posso fazer?»

A solução é continuar a trabalhar, seguir adiante e estar disponível e presente para quem percorre o caminho da reabilitação.

Episódios marcantes

A realidade com que esta instituição lida é dura e são muitos os episódios que marcam os voluntários. Maria Flores deixa-nos o seu: «Tenho um episódio que me marcou bastante há uns meses atrás. Custou-me muito, muito, muito. Um dos técnicos disse-me assim: chamaram-me, está uma pessoa, um velhote ali em santa Apolónia, no chão, já há dois dias, inconsciente, nem sabem se está vivo se está morto, eu vou lá agora. Estava num coma alcoólico; tinha umas barbas até aqui [aponta para a zona peitoral], cabelo todo eriçado até aqui [pelos ombros], sujo, a cheirar mal. Levaram-no ao hospital em coma alcoólico, deram-lhe uma qualquer medicação e ele trouxe-o. Demos-lhe uma sopa, mas conforme se lhe deu a sopa, todo ele tremia, por causa da medicação e do álcool, a sopa corria-lhe pelas barbas. Depois eu perguntei se podíamos fazer-lhe a barba. Ele disse que sim. Fez-se-lhe a barba e cortou-se-lhe um bocado o cabelo. Depois de barba feita, o cabelo cortado, vestido, perguntei a idade e ele disse 47 anos. Depois disse-lhe a ele: quer ver o seu aspecto? Vamos buscar o espelho! Na altura em que ele olhou para o espelho, as lágrimas corriam-lhe a quatro e quatro. Este foi um caso que me marcou muito, porque pensava que era uma pessoa de 60 anos e não. Era uma pessoa com 47 anos, ainda com uma vida inteira pela frente.»

Quem desejar colaborar com a Comunidade Vida e Paz deverá entrar em contacto e expressar a sua intenção. «O primeiro passo é a marcação de uma entrevista aqui comigo, para apresentar a instituição, as áreas de voluntariado que nós temos e depois a pessoa vai fazer uma experiência na área que escolheu. Imaginando que ela escolheu as equipas de rua, nós convidamos primeiro a pessoa antes de decidir se é mesmo aquilo que quer ou não, a ir uma vez, fazer uma experiencia, fazer a sua própria avaliação e depois, caso queira, continua. Nós também proporcionamos um módulo de formação inicial para os nossos voluntários quando estão a iniciar a sua actividade e depois os nossos voluntários vão tendo ao longo do ano formação contínua», informa Isabel Oliveira.

Rita Bruno
Publicado em Sociedade

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