A pesada estrutura e os inúmeros pedidos de ajuda que todos os dias chegam à Cáritas em Setúbal fazem com que seja necessária uma estrutura profissional que dê uma resposta cabaz às solicitações. No entanto, não seria possível à instituição sobreviver sem o apoio voluntário de dezenas de pessoas. «Neste momento cerca de 1/3 do trabalho na Cáritas de Setúbal é assegurado por voluntários», diz-nos Madalena Cruz, até aqui responsável pela área do voluntariado, que se prepara para passar a pasta. «O trabalho voluntário permite complementar o trabalho que é realizado por profissionais, não vem substituí-lo, como alguns parecem por vezes pensar», afirma.
Quanto às valências que acolhem voluntários, Madalena tem pena que a falta de disponibilidade das pessoas não permita realizar todo o trabalho que seria necessário. «Temos bastantes voluntários, mas temos ainda áreas que precisam de ser desenvolvidas, e que precisam de voluntários para as desenvolver», afirma a antiga responsável pelo voluntariado. «Temos um clube de jovens no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, que poderia crescer muito com a presença de voluntários, assim como a valência que temos no apoio domiciliário, onde há outras instituições que fazem um trabalho fantástico», sustenta.
Onde já têm muitos voluntários a trabalhar é nas áreas dos sem-abrigo e das crianças em risco. «São as áreas para onde recebemos mais pedidos, ao contrário por exemplo dos idosos do Centro de Dia, onde poderíamos ter mais gente a trabalhar com eles, mas não temos porque não está na preferência das pessoas», lamenta Madalena Cruz.
Caminho de Formação longo, mas necessário
Querer ser voluntário na Cáritas não é, no entanto, um caminho fácil. «O voluntário tem de ser um profissional naquilo que faz, e nós lidamos com situações muito delicadas, com os sem-abrigo e as crianças em risco», diz. Por isso, existe uma entrevista inicial ao voluntário e depois um tempo de espera, «de amadurecimento», até que surja a possibilidade de iniciarem a formação, composta por 8 ou 9 sessões de 1h30. «Normalmente, temos dois cursos por ano, e só depois de terminado o curso e o período de estágio na valência que escolheu é que pode ficar. Queremos que haja certezas sobre a tarefa que nos traz aqui, e todo este caminho é essencial para isso», refere Madalena Cruz, que indica que, por norma, começam 20 a formação mas só a terminam 5 ou 6. «Há desmotivação por parte do voluntário e ele desiste, mas também as instituições precisam de acompanhar melhor os seus voluntários em formação», avisa.
As motivações de quem quer fazer voluntariado são muito importantes. «Muitas pessoas vêm para aqui fazer uma cura psiquiátrica, aconselhados pelos seus médicos, e isso pode não ser positivo nem para o voluntário, nem para as pessoas com quem ele vai lidar. Já tive aqui uma senhora que aparecia nas formações completamente drogada dos medicamentos que tomava. No final da formação, sugerimos que fosse dar apoio na lavandaria da roupa dos sem-abrigo, e ela nunca mais apareceu», conta Madalena Cruz. Por isso, é preciso saber percorrer todos os passos desta caminhada voluntária.
Em Setúbal, quem termina a sua caminhada formativa tem muitos caminhos à escolha. «Temos valências desde o nascimento até à morte, com gabinetes de apoio a mães adolescentes, centro para crianças em risco, centro de jovens, trabalho com os sem-abrigo e com doentes com HIV e centro de dia para os mais idosos, pelo que há muito trabalho e muita escolha para todos os interessados», refere Madalena Cruz, que adianta que não são feitos juízos de valor nem selecções com base em critérios de fé. Nem nos voluntários, nem nos utentes. «Jesus Cristo, que foi quem foi, nunca descriminou ninguém, pelo que nem nós o devemos fazer», refere. Por isso, existem vários agnósticos e membros de outras religiões tanto no corpo de voluntários como nos utentes.
Voluntariado é enriquecimento pessoal
Para Madalena Cruz, ser voluntário é uma questão pessoal, que pode conduzir, além do apoio e ajuda que é dado a alguém que precisa, a um maior «reconhecimento pessoal, lamentando que a comunidade nem sempre esteja preparada para «reconhecer e louvar o trabalho feito pelos voluntários». «As empresas, por exemplo, deviam reconhecer que uma pessoa que pratica voluntariado tem um certo sinal de qualidade humana, porque é uma pessoa que está a desenvolver a sociedade», considera.
Para já, a Cáritas de Setúbal tem muitas necessidades de voluntários, pelo que Madalena Cruz apela a que os interessados «telefonem, escrevam e-mails, preencham a ficha de inscrição, e aguardem, com paciência, a nossa chamada para a entrevista e posteriormente para a formação». Trabalho, esse, não faltará, como já foi explicado acima. A somar a esse, um desejo que vê «difícil» de concretizar. «Quando recebemos os sem-abrigo, temos imenso trabalho em conseguir recuperar esse indivíduo para a sociedade. Quando ele ganha autonomia, seria bom haver empregadores que pudessem dar trabalho a estas pessoas, compreendendo a realidade delas, e a possibilidade de por vezes o trabalho não ficar perfeito, ou de os horários ficarem por cumprir. Seria óptimo se alguém se voluntariasse para receber estas pessoas, mas até agora não temos tido sorte», revela a antiga responsável.


