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Agricultura

O que dizem os jovens

Quarta-Feira, 25 Julho 2012

Há vários casos de sucesso de jovens em atividades agrícolas. São pessoas que olham para o futuro com vontade de vencer e aspiram a uma qualidade de vida que a cidade não lhes oferece. A FAMÍLIA CRISTÃ conheceu três jovens que apostaram no mundo rural. Falaram-nos não só das rosas, mas também dos espinhos de uma vida ligada à agricultura.

 

Ricardo Brito Paes, 30 anos, estava no segundo ano do curso de Arquitetura em Lisboa quando percebeu que não era nada daquilo que queria para o futuro. Interrompeu a licenciatura, começou a trabalhar na área comercial, casou e teve um filho.

As raízes da família estão ligadas à agricultura no Alentejo. E o Ricardo olhou para o que estava a fazer na capital e decidiu, em conjunto com a esposa, mudar de vida e rumar ao Sul: «Chegámos à conclusão de que, o que fazíamos aqui, podíamos fazer noutro lado, e até dar muito mais condições de vida ao nosso filho e aos outros que viriam.»

Ricardo decidiu continuar o negócio de família, até porque perdeu o pai cedo e tem mais cinco irmãos: «O meu avô não tinha mais filhos, já tinham falecido os dois, apenas tinha os netos. Quando fui para baixo, fui ajudar no negócio que era de todos. Criámos uma empresa entre três dos netos, onde eu tinha funções de administração. Mas também estava no terreno. Em paralelo a isso, fui criando a minha própria empresa, dedicando-me à parte dos ovinos», começa por contar.

«Os ovinos estavam deixados mais à margem. Como eu vim de Lisboa, tinha as minhas ideias do que gostava de fazer e dediquei-me às ovelhas. Na empresa de família ainda apoio no que faz falta e tenho o meu próprio negócio», acrescenta.
Sozinho, cria 500 ovelhas para posterior comercialização. «Faço a criação dos animais e quando chega a idade de abate, vendo-os.» O negócio está a crescer, «graças a Deus», sublinha. Ricardo vê ali o seu futuro e considera que a agricultura pode oferecer oportunidades aos mais novos: «É preciso acreditar. É sempre uma oportunidade se tivermos esse espírito empreendedor e agarrarmo-nos a uma coisa nova. O mercado de trabalho não está fácil e com as nossas próprias ideias, podemos tentar fazer alguma coisa.»

Sentir-se-á realizado um rapaz de 30 anos a criar ovelhas e a vendê-las? «Claro que sim. Foi o que eu escolhi. Não é um mar de rosas. Não há horários, não há fins de semana, não há férias, mas quem corre por gosto não cansa», garante. O jovem empreendedor diz que aquilo que o cansou foi o tempo que esperou pelo prémio da instalação: «Além de ser escasso, torna-se ainda mais pequeno quando demora um ano ou dois a vir, porque até lá temos de meter do nosso bolso. E se não o tivermos, não podemos fazer nada.»

Outro aspeto que o desgasta é a burocracia: «Há muita e não se ajusta à realidade. Para eu ter animais não preciso de ter tantos papéis, tanta coisa obrigatória. Há muita coisa supérflua.»

O que considera não ser demais é a formação. Ricardo já fez módulos em gestão agrícola e vai continuar essa aposta: «Há necessidades de formação até porque as realidades e as políticas vão mudando. Quanto mais formação tivermos, melhores respostas conseguiremos dar aos problemas que vão surgindo. Passa por aí o sucesso da empresa agrícola, porque a agricultura tem de ser vista como uma empresa igual a outra qualquer. Ela tem de visar o lucro e nós temos de a gerir para vivermos dela.»

Mais formação é essencial

Manuela Marinho é uma jovem agricultora de 38 anos que também considera fundamental a formação. Esta mulher, cujas mãos não escondem o trabalho na terra, teve um percurso de vida singular. Fez a 4.ª classe e interrompeu os estudos, porque o pai entendia que no campo «todas as ajudas eram bem-vindas, mesmo que fossem de uma criança». Manuela era a mais nova de onze irmãos. Mais tarde fez o 6.º ano à noite, depois as Novas Oportunidades deixaram-na fazer o 9.º e quer agora concluir o 12.º ano. Mas a formação não pode ficar por aqui, é preciso aprender a gerir uma empresa agrícola: «Hoje em dia, ser agricultor é mais do que lidar com animais ou movimentar terrenos – eu e o meu marido somos gestores da nossa empresa e são necessárias outras aprendizagens. Para ser gestor é preciso ter atenção onde podemos minimizar as despesas para rentabilizar a empresa. Aprendi também a lidar com o computador, usar a Internet e hoje já faço a partir de casa as transferências, os pagamentos, pedidos de cheque, etc.»

Esta jovem agricultora representa a inovação e a modernidade no sector. Tem produção de bovinos de leite e fez grandes investimentos na exploração Agro-Mancelos, situada na região Entre Douro e Minho, concelho de Amarante. Naquela vacaria com três pavilhões, Manuela e o marido, José António Teixeira, foram pioneiros em Portugal na ordenha robotizada: «As ordenhas robotizadas são controladas por computador. No computador estão também os registos dos medicamentos que se dão aos animais, etc... As máquinas trabalham 24 horas por dia – e um sistema por modem liga-me para o telemóvel no caso de haver qualquer irregularidade.»

A empresa, além de empregar marido e mulher, dá também trabalho a mais duas pessoas. Daquela vacaria saem 7000 litros de leite de 48 em 48 horas para uma conhecida marca nacional. Há 117 vacas em produção, as restantes são gestantes ou estão para recria de novilhos. No total há 350 animais. Se Manuela não tivesse tido apoios financeiros no seu percurso, reconhece que seria muito difícil seguir em frente: «Sem eles a empresa não era viável, tinha parado pelo caminho.» O caminho foi sendo trilhado com crescimento e sofisticação. Em linha ascendente. Manuela Meirinho era considerada um caso de sucesso, de tal forma que a sua exploração recebeu a visita do Presidente da República em 2008 e, no ano seguinte, a do então ministro da Agricultura, Jaime Silva.

Volvidos estes anos, a FAMÍLIA CRISTÃ foi à freguesia de Mancelos, em Amarante, saber se o projeto desta mulher continua a ser bem-sucedido. Até porque os casos de sucesso são apenas mediatizados na época áurea, depois não se volta a falar deles. Como se o sucesso fosse eterno. Não é. E prova disso é o que nos diz Manuela Marinho que, perante as circunstâncias atuais de crise, apenas está preocupada com a sustentabilidade: «O nosso objetivo neste momento é segurar a empresa. É um dia de cada vez.» Não se vivem dias fáceis na agricultura e Manuela aconselha os jovens: «Se fosse no ano 2006/2007, eu dizia que valia a pena ser agricultor. Hoje tenho medo de dar um conselho e eles ficarem desiludidos, porque isto agora só está para a sustentabilidade, não dá para ilusões.»

Esta mulher duvida do sucesso dos jovens na agricultura se não tiverem um bom fundo maneio: «Para se construir uma empresa agrícola é preciso muito dinheiro e não estou a ver os jovens a conseguirem... O acesso ao crédito está quase bloqueado.» Mas estará Manuela arrependida por estar no sector agrícola? «Eu olho para o lado e estou a ver sectores que não estão melhores. E há uma coisa que me realiza bastante: os meus filhos gostam muito de ajudar. Há outras pessoas muito preocupadas quando os filhos entram de férias, porque não têm ocupação para eles e eu desse mal não sofro. A minha filha de 17 anos está no 12.º ano, quer ser médica, e nas férias alimenta os animais e o meu filho de 12 anos adora máquinas e acompanha sempre o pai.» Mãe e pai querem que os filhos tenham a máxima formação possível, mas, apesar das dificuldades do sector, dizem que «não se sentiriam tristes se os filhos escolhessem a agricultura».

Manuela está também ligada à horticultura. Aquilo que produz vende a retalhistas e particulares. E serve também para consumo próprio, claro. «A mais-valia de ser agricultor é esta: adoro deitar os olhos à mesa e ver que para as refeições só compro o arroz, a massa e o azeite.»

 «O futuro passa pelo regresso à terra»

Pedro Rei, 23 anos, está a tirar o curso de Engenharia Zootécnica na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douto (UTAD). Tem o estatuto de trabalhador-estudante desde que se instalou como jovem agricultor, em 2008, e considera que a formação superior lhe tem dado muitas ferramentas de trabalho: «O contacto com os professores e outros alunos que têm explorações é muito importante. Há troca de experiências. Na universidade aprendemos quais são, por exemplo, as outras viabilidades para o produto. Por vezes, estamos a produzir uma coisa, mas não tiramos o rendimento de tudo. Há ocasiões em que as pessoas estão a desperdiçar oportunidades.»

«Muitas vezes nota-se que há certas explorações em que as pessoas não têm capacidade de análise nem formação técnica para perceber que têm lá uma praga ou qualquer outra condicionante que não lhes permite tirar maior rentabilidade. Quando isso não é feito, não têm capacidade para aumentar o seu volume de negócio», acrescenta.

O Pedro quer seguir as pisadas dos avós, embora com um olhar atento à realidade dos dias de hoje. Numa aldeia perto de Alfândega da Fé, os avós têm um olival onde o Pedro faz produção biológica de azeite. O jovem anda sempre de um lado para o outro para empreender no seu futuro. Apesar de estudar em Vila Real, o Pedro reside em Lamego e quer continuar com a vida no campo. Acalenta o sonho de criar uma empresa ligada às mondegueiras, um projeto de pecuária. «Estou a fazer um estudo de mercado», conta.

Acredita que melhores dias virão para a agricultura – porque o país precisa que ela ganhe força – e diz com confiança: «Tendo em conta a situação atual do pais, penso que o futuro passa pelo regresso à terra.»

Sílvia Júlio
Publicado em Sociedade

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