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Assunção Cristas

«Ser agricultor é ser empreendedor»

Terça-Feira, 10 Julho 2012

A ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, em entrevista à FAMÍLIA CRISTÃ, realça a mensagem da necessidade de haver mais jovens no sector agrícola. A mais nova governante deste executivo de coligação PSD/CDS-PP acredita que o futuro do país também passa pelo desenvolvimento do meio rural, das pescas e do incremento das exportações. A superministra garante que se vai bater, em especial, pelos interesses dos jovens agricultores.

 

Do gabinete da ministra da Agricultura avista-se o emblemático Arco da Rua Augusta e todo o esplendor da Praça do Comércio. Da varanda vê-se o cosmopolitismo de uma cidade efervescente que recebe turistas que se sentam nas escadas junto à estátua equestre de D. José I, enquanto contemplam o rio. Assunção Cristas assume que o seu lema é tornar Portugal mais verde e azul. A terra e o mar são um desígnio para esta governante, de 38 anos, que diz querer atrair juventude para a agricultura e dar também uma nova frescura ao que se pesca na costa portuguesa.

FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – Muitos jovens consideram que ser agricultor não é prestigiante. Como é que a ministra da Agricultura vai contribuir para dignificar esta profissão?
Assunção Cristas (A.C.) –
Eu tenho andado pelo país todo, falando com agricultores, mais novos e mais velhos, sinalizando que a agricultura é um sector importante para o país. O país não pode ser só para serviços, não pode ser só para turismo, a agricultura também tem um papel relevante a desempenhar. Os agricultores são quem cuida da paisagem. E se nós não tivermos paisagem para atrair turistas, se não tivermos campos cuidados, se não tivermos os olivais, as vinhas, os pomares, os campos de milho, o que é que as pessoas vão ver? Com certeza que há áreas de floresta, áreas que são só da natureza onde não dá para cultivar nada, mas o agricultor tem aqui um grande trabalho na valorização do próprio território. Eu penso que este é um ponto muito importante: são agentes de dinamização do território, de dinamização do nosso mundo rural e de atração do país. O país será melhor se for mais verde – nas preocupações com o ambiente e com uma agricultura cada vez mais sustentável que ordene a paisagem – e mais azul, o que tem a ver com a ligação ao mar. São os meus dois lemas: um Portugal mais verde e mais azul. É importante esta visão de cuidadores do território. Quando nós tivermos esta visão de valorização da agricultura ligada ao nosso maior ativo, ao nosso maior recurso que é o território, penso que a profissão será mais prestigiada.

FC – O que está a ser feito de concreto para atrair mais gente nova?
A.C. –
Posso dizer que estamos a trabalhar num conjunto de políticas públicas para que a atividade agrícola possa ser mais atrativa, não só apoiando a instalação de jovens agricultores, mas também apoiando a modernização das explorações para dar melhores condições de competitividade. Por exemplo, nas questões das maquinarias, dos regadios, nos métodos de cultura, na disponibilização de terra...

FC – Na disponibilização de terra, estamos a falar de quantos hectares?
A.C. –
É um processo gradativo a incrementar. Já disponibilizámos algumas terras que estavam livres das direções regionais de agricultura que são cerca de 600 hectares. De seguida, teremos mais, inclusivamente de outros ministérios, para podermos disponibilizar mais terras do próprio Estado. E depois vai depender daquilo que for a ação dos particulares e, no limite, da nossa ligação à questão do cadastro. Porque a lei da bolsa de terras pressupõe que haja uma atividade perfeitamente voluntária dos privados em colocarem as suas terras na bolsa para arrendar, para vender, mas sinalizando que há ali uma disponibilidade de terra que pode ser aproveitada para a agricultura. E depois eu diria que podemos ter um bom número de terras, nomeadamente também para a floresta. Como sabemos, temos mais terra propícia para a floresta até do que para a agricultura. Quando fizermos a ligação ao cadastro predial, que é outro grande objetivo do Governo, aí podemos identificar as terras que não têm dono. Se não têm dono, são do Estado e imediatamente disponibilizadas na bolsa.

FC – Acredita mesmo que a bolsa de terras vai trazer, efetivamente, um grande benefício?
A.C. –
Eu não posso garantir qual vai ser o benefício. O que eu posso dizer é que faz parte de uma estratégia que vai ao encontro de uma opinião generalizada e de queixas que nós ouvimos, de muitas atividades ligadas ao sector agrícola, que há terras que estão a ser desperdiçadas. E o nosso objetivo é identificá-las para automaticamente as disponibilizar para quem tenha interesse em trabalhar essas terras, nomeadamente os jovens que não tenham terras de família e estejam interessados em começar uma atividade agrícola.

FC – O que deveria mudar na Política Agrícola Comum (PAC) para benefício dos nossos agricultores?
A.C. –
Muitos pontos. Alguns estão sinalizados, outros ficam aquém daquilo que seria o nosso desejo. Portugal recebe por hectare no pagamento direto um valor inferior àquele que é recebido pela generalidade dos agricultores europeus. Agora uma das linhas da reforma PAC é a convergência destes valores – e esse princípio é bom. Acontece que, depois quando vamos ver a convergência, vai ser mais pequena do que aquilo que seria desejável... Portanto, é um caminho que seria bom que se pudesse intensificar.

FC – Vai bater-se por isso, portanto...
A.C. –
Vamos bater-nos para que a convergência seja o máximo possível. Vamos bater-nos para que a convergência interna siga ao mesmo ritmo que a convergência entre os vários países, sob pena de obrigar aqui a decisões que poderiam ser penalizadoras de vários sectores. Vamo-nos bater para termos apoio específico para os jovens agricultores, para os pequenos agricultores. Vamos bater-nos para termos apoio ao investimento produtivo, como o regadio. Vamos bater-nos ainda no campo das ajudas diretas. Fala-se muito do chamado greening, que é o esverdeamento da PAC, em que só se dá 100% de ajudas se houver culturas que favoreçam o ambiente, que sequestram carbono e são importantes no nosso contexto agrícola, como o montado, as culturas permanentes na área da fruticultura – pomares, olivais, vinhas. Tudo isso são culturas permanentes amigas do ambiente e que nós entendemos que devem automaticamente ser contabilizadas para o efeito do dito greening ou esverdeamente. Este é o género de pontos que estamos a colocar em cima da agenda das negociações e que gostávamos de ter apoio.

FC – Uma das principais preocupações dos jovens agricultores é o próximo Quadro Comunitário. Eles têm razões para estar apreensivos?
A.C. –
Os jovens têm razões para estar otimistas, porque há a preocupação clara na Europa de favorecer o apoio aos jovens agricultores. Nós temos uma população de agricultores envelhecida – mais envelhecida que na generalidade da Europa – e nos outros estados também se sente a necessidade de cativar e de trazer jovens agricultores. Nas propostas da Comissão Europeia está o apoio aos jovens agricultores com muita clareza. Isso vai favorecer também os nossos jovens.

FC – Quais as dificuldades que eles manifestam à ministra da Agricultura?
A.C. –
Dificuldades de acesso ao mercado, em geral. Dificuldades em vender os seus produtos. A resposta passa por uma maior organização dos sectores, uma produção mais concentrada com relevância para as organizações de produtores. Nós sabemos que há cooperativas no país que funcionam muito bem, há outras que, infelizmente, funcionam muito mal. Por aí passa uma boa parte do caminho. Nós estamos a trabalhar também no âmbito da Plataforma do Acompanhamento das Relações da Cadeia Agroalimentar (PARCA) para termos mais distribuição do valor ao longo de toda a cadeia. Isso é um ponto importante, porque nós só conseguimos atrair gente se lhe pudermos dizer que há mercado para os produtos. Queremos trabalhar ao nível do mercado interno e do mercado internacional com uma estratégia de internacionalização do sector.

FC – Afirmou recentemente que «todos sentimos que uma parte dos problemas do país pode encontrar resposta na agricultura». O que a leva a acreditar tão convictamente nisto?
A.C. –
Olhamos para o país e sabemos que temos uma dependência na nossa balança agroalimentar de cerca de 30%. Olhamos, por exemplo, para produtos como o azeite e sabemos que ainda não somos autossuficientes, quando já o fomos no passado, mas vamos atingir essa autossuficiência rapidamente porque há muito olival a arrancar. Não conseguimos ser competitivos em tudo, mas há áreas onde somos bons e podemos fazer bom caminho – e temos feito na horticultura, fruticultura, olival, vinha, frutos secos e em alguns cereais. Por um lado, precisamos de lhes dar força para esbater este défice da nossa balança agroalimentar, o que corresponde a cerca de três mil milhões de euros que vão para o estrangeiro. Por outro lado, o mundo hoje tem 7 mil milhões de pessoas, em 2050 vai ter 9 mil milhões, o que significa que os alimentos vão ser necessários. Vai ser necessário produzir melhor e ter o cuidado do não desperdício dos alimentos. Portanto, nós temos aqui uma ambição de crescer na nossa produção e chegar a um equilíbrio na nossa balança agroalimentar.

FC – Nesta legislatura, esse défice vai ser diminuído em quantos pontos percentuais para se equilibrar a balança comercial?
A.C. – O que está inscrito no programa do Governo é que caminharemos para anular o défice da balança agroalimentar a médio prazo. Eu diria que médio prazo serão sete, oito anos. Numa legislatura, o nosso trabalho é para esbater esse défice. Posso dizer-lhe que em algumas fileiras isso vai acontecer, o azeite é talvez o exemplo mais claro em que isso vai acontecer a breve trecho. Precisamos de trabalhar não só na parte agrícola, mas também na parte da pesca. Um dos grandes desequilíbrios da nossa balança agroalimentar tem a ver com a importação de peixe. Importamos 66% do peixe que consumimos e isto tem muito a ver com o bacalhau. O bacalhau não é pescado em Portugal e nunca será pescado no país, o que significa que temos de compensar com outros produtos, pescando melhor aquilo que há na nossa costa e valorizando o peixe que temos. Por exemplo, a cavala não é muito considerada e tem propriedades riquíssimas. Podemos também produzir peixe em Portugal, temos algumas experiências de aquacultura, precisamos de muito mais e da aqualcultura offshore, nomeadamente. Com isto conseguiremos produzir peixe para consumir internamente e também para exportar e ajudar a equilibrar a nossa balança.

FC – A senhora ministra disse que na agricultura não há falta de trabalho. Porque os jovens hão de querer trabalhar a terra? Que oportunidades têm?
A.C. – Têm uma oportunidade de uma vida muito diferente, mas não pode ser diferente porque é pior. É diferente porque tem outras caraterísticas. É uma vida numa empresa ao ar livre, com tudo o que isso tem de bom e de mau, do ponto de vista do quotidiano e dos riscos associados à agricultura, como, por exemplo, os riscos climáticos. Eu diria que, em primeiro lugar, é uma vida diferente, é uma vida de empreendedorismo. Nós podemos entusiasmar gente que tenha esta vocação para aceitar desenvolver atividades estimulantes, mas que também têm risco e paciência para o tempo que as coisas demoram a crescer e a ser visíveis. Isto pressupõe valorizarmos no mundo contemporâneo alguns pontos que vão estando esquecidos. Hoje planta-se um olival e só daqui a quatro ou cinco anos é que começamos a ter as azeitonas para produzir azeite. Um pomar também demora o seu tempo, mas isso pode ser compensador. Há aqui uma visão de médio/longo prazo que pressupõe oportunidades. Semear para depois colher.

FC – O que está a dizer é paradoxal com aquilo que se defende hoje na sociedade com coisas mais céleres e imediatas...
A.C. –
É. Mas temos de ter um olhar renovado para a agricultura. Essa visão mais célere, mais rápida, mais imediata também foi o que nos conduziu à situação em que estamos hoje. Eu diria que ser agricultor hoje em dia é ser empreendedor, é ter capacidade de arriscar e de aceitar viver uma vida com outro ritmo, outra exigência, mas que pode ser muita compensadora. A oportunidade é a de ter uma vida diferente, boa, que traz compensações, que, com rigor, trabalho, determinação e a possibilidade de aplicar conhecimentos – e hoje os jovens estão mais preparados – , podem ter aqui assim uma evolução completamente diferente daquela que se tinha há 30 ou 40 anos. Há modernização, há sofisticação, há mecanização, há computadores para gerir as regas. Portanto, isso hoje também pode ser apelativo para os jovens.

FC – Os jovens queixam-se que há falta de formação nesta área.
A.C. –
E com alguma razão. Tem sido feito um esforço grande, mas ainda há pouca... Estamos empenhados, nomeadamente com o Ministério da Educação, em reabilitar as nossas escolas profissionais, em dar mais valor ao ensino profissional na área agricultura que depois pode e deve conduzir ao ensino superior em muitos casos. Haverá um reforço da formação profissional na área da agricultura ligada quer às associações de agricultores – aos programas que têm e serão desenvolvidos – quer à própria formação profissional nas escolas. Foi uma área mais descurada nos últimos tempos.

FC – Onde é que o país falhou na agricultura?
A.C. –
Talvez onde nós tenhamos falhado mais tenha sido na incapacidade de fixar jovens na agricultura.

Sílvia Júlio
Publicado em Sociedade

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