Sexta-Feira, 28 de Novembro de 2014
 
   
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O mundo

Como estamos e para onde vamos

Terça-Feira, 26 Junho 2012
O Mundo enfrenta hoje o maior reequilíbrio de poder político e económico do último século. Da última vez que um fenómeno semelhante aconteceu, a Humanidade mergulhou em duas guerras mundiais. Agora, temos conhecimentos e mecanismos de segurança coletiva que nos permitem evitar uma nova tragédia, mas o facto essencial permanece: a competição internacional por mercados e recursos ameaça a paz mundial.

 

A crise financeira que está a afetar a Europa, e já afetou os Estados Unidos, é apenas um sintoma de uma situação muito mais ampla que vem decorrendo nas últimas duas décadas, pelo menos: o enfraquecimento absoluto e relativo das economias desses países. Absoluto, porque as taxas de crescimento, outrora muito robustas (acima dos 3% ao ano), caíram para valores anémicos, ou mesmo negativos; relativo porque, mesmo quando elas sobem a bom ritmo, estão sempre atrás do crescimento registado nas chamadas economias emergentes (China, Índia, Brasil, etc.).

Um dos sinais mais fortes do enfraquecimento europeu e norte-americano é a perda de capacidade produtiva e exportadora, que leva a que a grande maioria dos países do espaço atlântico compre ao exterior muito mais do que aquilo que vende e gaste bastante mais do que aquilo que ganha. Os Estados Unidos, por exemplo, tiveram um défice comercial superior a 550 mil milhões de euros em 2011.

Esta realidade resulta em grande medida da liberalização do comércio mundial, ocorrida nos anos 90 do século passado. Sem as barreiras alfandegárias que existiam antes, e apoiando-se numa enorme melhoria dos transportes e comunicações, muitos países asiáticos (e não só) passaram a colocar os seus produtos industriais no resto do mundo a preços imbatíveis. Com produtividades altas, salários muito baixos e trabalhadores quase sem direitos a Oriente, tornou-se impossível a muitas indústrias do Ocidente competir. A solução foi simples: fechar as portas.

É desse desequilíbrio que nasce a crise atual, e é por causa dele que os governos europeus têm recorrido à austeridade com tanto vigor. Durante cinco séculos, os recursos naturais e os capitais fluíram na direção do Ocidente, em prejuízo do resto do mundo. Graças a isso, europeus e norte-americanos alcançaram uma prosperidade sem paralelo e criaram as sociedades mais desenvolvidas da história da Humanidade, com grandes níveis de proteção social para os seus cidadãos.

Agora, o fluxo está a inverter-se. Graças à sua capacidade exportadora, a China, os países árabes produtores de petróleo e outros estados acumularam quantias gigantescas, que são aplicadas no seu próprio desenvolvimento e na concessão de crédito aos países desenvolvidos. Por causa desse fluxo de capital e dos truques de multiplicação dos bancos e das empresas financeiras, foi-se mantendo uma falsa prosperidade, que tem vindo a ser desmantelada nos últimos quatro anos. Pelo menos três países – Grécia, Irlanda e Portugal – já não conseguiram manter a ficção por mais tempo. Os outros têm de arrepiar caminho muito depressa, se não quiserem sofrer como eles sofrem agora.

A crise é mais aguda deste lado do Atlântico, mas, do lado de lá, a situação não é muito melhor. O sistema político norte-americano, cada vez mais disfuncional, não tem conseguido travar o endividamento galopante dos Estados Unidos, que agora é não só a primeira economia mundial, como também a mais dependente do crédito estrangeiro, especialmente o chinês.

A situação atingiu um ponto tal que já não permite aos EUA manterem os mesmos níveis de capacidade militar. As suas saídas do Iraque do Afeganistão devem-se tanto ou mais a imperativos económicos como a políticos e estratégicos. Nos próximos anos, haverá menos soldados, menos aviões de combate, menos navios de guerra e menos capacidade – já para não falar de vontade – de intervir noutros pontos do globo.

Bem mais a sul, o Brasil parece finalmente ser capaz de assumir o estatuto que o seu tamanho e as suas riquezas naturais há tanto lhe prometiam. Espera-se que, no final deste ano, a sua economia se torne a quinta maior do mundo.
Todavia, é preciso não esquecer que o seu rápido crescimento dos últimos anos se tem devido muito à alta dos preços de produtos agrícolas e matérias-primas. Caso eles baixem – e mais tarde ou mais cedo isso acontecerá – não é certo que a indústria e os serviços consigam compensar inteiramente essa perda de rendimentos.

A Rússia é uma democracia oca. Há um parlamento e eleições, mas toda a gente sabe que o presidente Vladimir Putin e a sua corte põem e dispõem. Por enquanto, a vida não lhes corre mal: a subida do preço do petróleo e do gás natural, as duas grandes fontes de receitas do país, permitem ao governo manter a população minimamente satisfeita em termos económicos.

O Kremlin tem tentado recuperar a sua velha grandeza imperial soviética, mas os meios materiais e humanos não lhe parecem permitir ir muito longe nesse caminho. A população, já manifestamente pequena para o seu enorme território, está a cair e as receitas do petróleo e do gás não esticam infinitamente.

Que futuro?

Desde que a Rússia não sinta que o seu "quintal" está ameaçado, como aconteceu em 2008, com a Geórgia, não é previsível que ela cause grandes perturbações na cena mundial.

O foco das atenções e preocupações mundiais estará cada vez mais a Oriente. Em primeiro lugar, porque a China, pela primeira vez na sua história, se está a integrar plenamente na economia mundial. O peso de 1300 milhões de pessoas na produção e no consumo do planeta é assombroso e está a gerar uma mudança muito rápida na balança do poder.

Europeus, norte-americanos e muitos outros povos estão a perder com isso – mercados, rendimentos e bem-estar. Assim, as tensões aumentam, e daí até ao conflito pode ser um pequeno passo – político, diplomático ou económico, com mais probabilidade; mas o militar também não será de excluir.

Mesmo internamente, a situação tem um potencial explosivo catastrófico. O regime comunista chinês reprime com mão de ferro todos os focos de dissensão, mas nem por isso o número de incidentes violentos relacionados com a insatisfação popular deixa de diminuir. Todos os anos há centenas de milhares de levantamentos devido à corrupção, autoritarismo e incompetência das autoridades. Por enquanto, o regime parece manter uma base de apoio bastante grande, na medida em que vai conseguindo aumentar o nível de vida das populações. Estas vão desenvolvendo cada vez mais as suas aspirações e dificilmente aceitarão pacificamente que elas sejam limitadas por imperativos políticos ou económicos.

A China materializa agora a suprema contradição: tem um regime político comunista, mas a economia é capitalista. Assim sendo, está sujeita aos ciclos de crescimento e depressão dessas economias. Quando a primeira grande depressão vier – e ela virá – como é que o governo será capaz de justificar que os trabalhadores sofram e os capitalistas não, contrariando assim a própria base fundadora do regime?

Essa explicação já é muito complexa numa democracia ocidental; fará num país supostamente comunista...

A China e o resto da Ásia foram os grandes beneficiários da globalização e da liberalização comercial das últimas décadas. Os seus padrões de vida melhoraram de forma dramática, algo que, aliás, vinha sendo reclamado por todas as pessoas bem formadas do Ocidente há décadas.

O problema é que esse processo implica que esses mesmos ocidentais percam algo – ou muito – daquilo a que estavam habituados. Os recursos são finitos e, se há alguém que se assenhora de uma parte maior do bolo, outro alguém fica com menos.

Em tese, esta redistribuirão é positiva para a Humanidade, mas a História ensina-nos que ela normalmente não é bem acolhida por quem se sente prejudicado. Agora mesmo já se começam a levantar vozes que apelam a uma política protecionista da Europa em relação à China e aos outros países que, graças aos ínfimos salários e direitos dos seus trabalhadores, põem fora de combate os seus competidores europeus. Isso significaria impor taxas e outras barreiras alfandegárias aos produtos vindos desses países, o que lhes causaria graves dificuldades económicas e mais instabilidade interna. As retaliações certamente não demorariam e, no longo prazo, poderiam levar a algo ainda mais grave, quem sabe uma guerra.

Este ajustamento económico e político é muito complexo e difícil, tanto mais que está a ser muito rápido. Nós, ocidentais, certamente vamos ter de prescindir de alguns confortos para que outros possam viver melhor, mas é essencial que Este e Oeste se entendam sobre a maneira de minorar as dificuldades para todos. Caso contrário, o futuro será negro para todos.

Rolando Santos
Publicado em Sociedade

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