Sábado, 25 de Outubro de 2014
 
   
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Bastidores da marcha de Alfama

A tradição ainda é o que era

Segunda-Feira, 11 Junho 2012

Lisboa, gaiata, travessa e ladina, vem para a rua no mês de junho. O Santo António é da cidade, de chinela no pé, que nasceu pertinho do céu. As músicas misturam-se, tal como o povo se mescla, rua abaixo e rua acima, na Lisboa antiga, para torcer pela marcha do seu bairro. Mas não se julgue que a mais importante festa de Lisboa é só brincadeira, é coisa para levar muito a sério, até porque as marchas populares estão entre os 20 principais espetáculos culturais de toda a Europa.

 

«Lá vai Lisboa com a saia cor de mar/ Cada bairro é um noivo que com ela vai casar!/Lá vai Lisboa com seu arquinho e balão,/Com cantiguinhas na boca e amor no coração!» Quem não sabe trautear, pelo menos, o refrão das músicas populares mais antigas? Lisboa, gaiata, que está pertinho do céu, cheira a flores e a mar por estes dias... Misturam-se as letras das marchas antigas e há quem grite alto e em bom som, já inebriado com o cheiro da sardinha assada: «Mas que linda que ela é!»

Junho é o mês das festas da cidade e as marchas estão à cabeça de um cartaz turístico, que é uma janela de oportunidade para Lisboa se abrir ao mundo. É uma altura em que os turistas procuram a cidade para melhor entenderem o mosaico da cultura alfacinha.

O olisipógrafo Appio Sottomayor, em entrevista à FAMÍLIA CRISTÃ, sublinha que as marchas deveriam ser mais divulgadas além-fronteiras – um trabalho que poderia também estar ligado às embaixadas e delegações portuguesas, espalhadas pelo mundo, para publicitarem o evento. Há muito por explorar, «chamando a atenção em revistas e jornais estrangeiros para as marchas, sobre o que elas representam, para atrair assim mais pessoas que se interessem e constituam o núcleo turístico desta época».

Apesar de Lisboa ser uma cidade cosmopolita, os bairros antigos conservam ainda, em alguns aspetos, traços rurais. O bairrismo, que se enleva nesta altura do ano, é quase caricato. Ninguém concebe que o seu próprio bairro não seja o mais bonito, o mais bem vestido e o que dança melhor. «A minha marcha é liiinda», é o que mais se ouve pelas ruas de Lisboa antiga. Os turistas talvez não entendam os pregões nem a vibração dos bairros com as suas marchas, mas conseguem ver e sentir ali um pedaço da alma desta gente, as raízes de um povo que ainda estende a roupa à janela e come sardinha no pão. As tradições e os costumes podem ser vistos e sentidos de um modo especial através das marchas de Lisboa. Pelo menos, naquelas que ainda fazem questão de manter o espírito tradicional.

«Temo que [as marchas] mudem demasiado. As coisas, sejam elas quais forem, não devem parar no tempo, tem de haver sempre uma transformação, mas, na minha opinião, nunca se deve perder a ligação entre a marcha e aquilo que representa. Nós temos um bocado a mania de copiar as coisas que vêm de fora e, assim como no Carnaval passámos a ter escolas de samba que não lembram a ninguém e não têm nada a ver com a gente, também tenho algum receio de que algumas marchas, a pouco e pouco, se transformem também numa espécie de "escolas de samba", com ritmos, danças e coreografias que têm já pouco a ver com a verdadeira natureza das marchas populares», afirma Appio Sottomayor. E será essa a tendência a que se assiste no presente? «Nalguns casos, sim. Há dois ou três anos já fiquei um bocado desgostoso com duas ou três marchas que me pareceram fugir completamente àquilo para que foram criadas.»

«Eu não quero o imobilismo, mas que [as marchas] nunca saiam das origens. Quando deixarem de representar o próprio bairro, as tradições, então não vale a pena», acrescenta o olisipógrafo, que também já foi membro do júri das marchas por três vezes.

Dedicação e disciplina

Na noite de Santo António, as marchas populares descem pela Avenida da Liberdade e são transmitidas em direto pela televisão. Durante muitos anos, as marchas lideraram as audiências. De Lisboa para o resto do país, de Lisboa para o mundo, é possível ver o epílogo de um trabalho de equipa que começou há muito tempo. Em Alfama, por exemplo, um dos bairros mais típicos e emblemáticos de Lisboa, tudo começa em janeiro – ou até antes.

João Ramos, 53 anos, procurador da República, é o coordenador da marcha de Alfama. É ele quem define, nos bastidores, a pessoa certa para o trabalho certo, desde o responsável dos figurinos até ao dos arcos alusivos ao tema da marcha. Depois há a seleção dos marchantes. Este ano candidataram-se 78 pessoas. Apenas 50 puderam ficar. «Tentamos dar preferências às pessoas do bairro, procuramos integrar pessoas que nos pareçam bonitas – porque a marcha é beleza –, que tenham corpos que nos deem garantias de flexibilidade por causa das coreografias de hoje. Quanto mais jovem se é, mais fácil se torna», explica.

Os marchantes de Alfama têm idades compreendidas entre os 15 e os 39 anos. Com a desertificação visível nos bairros antigos da cidade, há os que têm dificuldades em arranjar um número suficiente de marchantes – não é o caso de Alfama, onde os jovens vibram pelo bairro e querem «marchar por amor». Todos os marchantes com quem falámos demonstraram afeto pelo bairro onde muitos nasceram ou foram criados. Há até o caso de alguns marchantes que vêm de outros bairros concorrentes apenas para «terem a sensação de estar numa marcha vencedora». Cerca de 80% dos marchantes têm ligação a Alfama, o restante vem de bairros como a Graça, Mouraria e até Benfica.

A dedicação e a disciplina são notórias nos ensaios desta marcha. Talvez isso ajude a explicar a presença constante no pódio. No Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, os marchantes ensaiam com afinco, de segunda a sexta, das 21h30 às 23h30, desde finais de abril. É num salão velhinho, com paredes a precisar de pintura, um chão degradado com algumas tábuas que até já foram substituídas e um telhado a meter água, que todos marcham vaidosos e sem parar. Apesar de tudo ali ter remendos e precisar de obras valentes, ninguém quer sair daquele espaço. «É a nossa casa», diz Vanessa Rocha, 35 anos, ensaiadora da marcha de Alfama desde a saída do mítico Carlos Mendonça, conhecido pelo «Mourinho da Marchas». Nos 20 anos em que ele esteve a ensaiar Alfama, a marcha ganhou 12 vezes.

Não é tarefa fácil substituir uma pessoa que trouxe muitos títulos para o bairro, mas a ensaiadora, que foi 19 anos marchante, confia no seu trabalho e no da equipa, até porque logo no seu primeiro ano à frente da marcha, ganhou o prémio de melhor coreografia. Entretanto, a entrevista com a ensaiadora é interrompida por barulhos quase ensurdecedores. «Estão lá em cima a trabalhar nos arcos», informa Vanessa. O trabalho não para e sente-se no ar o brio e o brilho que todos querem deixar na sua marcha. É o peso da tradição e da responsabilidade.

«Aqui a disciplina é muito grande. Continuamos a ser uma marcha militar. Quem faltar a três ensaios, já não volta à marcha de Alfama», garante Vanessa, que tem pendurado ao pescoço um apito para pôr em marcha e em sentido todos os marchantes. Quando há desconcentração e mau-comportamento dos marchantes também se ouve um ou outro palavrão da ensaidora. Quando alguma marcação dos passos está a correr menos bem, ouve-se uma provocação da Vanessa: «Ai, que vou buscar o pessoal do Alto do Pina [marcha vencedora do ano anterior]!»

Amor à camisola

O espírito que se respira nos bastidores das marchas ajuda as pessoas que dela fazem parte a sentirem-se integradas na sua comunidade de pertença: «O nosso povo [de Alfama] anda o ano inteiro à espera que a marcha saia do Magalhães Lima e o pessoal novo das marchas vai tentando inovar com passos mais arrojados para não desiludir as suas gentes», constata a ensaiadora, que garante que vai continuar naquele bairro «até morrer». E por amor à camisola e à tradição da família tenta superar-se cada vez mais.

O pior dia da vida de Vanessa está ligado, de forma muito intensa, à marcha, ao seu bairro e à sua família. O pai, que fez parte da história do Magalhães Lima e às marchas de Alfama (durante 20 anos foi o organizador), teve um AVC no dia em que o seu bairro se foi exibir ao Pavilhão Atlântico. Estávamos no ano de 2006. E a 12 de junho, no grande dia de as marchas desceram a avenida, o pai faleceu. Nesse ano, havia várias pessoas da família de Vanessa que iam desfilar e ela decidiu que não poderia deixar a marcha à última hora: «Eu consegui marchar, a minha irmã não. Havia muitas pessoas da minha família a marchar (primos, irmã) e era complicado desistirmos todos nessa noite. Foi a pior noite da minha vida e ganhámos esse ano», conta.

Ensaiar a marcha de Alfama é uma forma de homenagear o pai. Aliás, o salão onde os marchantes estão a vestir a camisola pelo bairro tem o nome do pai da atual ensaiadora: José Júlio Rocha.

O orgulho que todos ali sentem por viverem uma tradição ainda tão viva, diz Vanessa, pode ser estendido ao resto do país: «Portugal pode orgulhar-se das marchas. Por exemplo, Alfama foi ao Japão em 1993, a Itália em 2006 e ao Brasil em 2010.» A representação do bairro no estrangeiro é também uma forma de elevar o nome de Lisboa e até de Portugal.

A Câmara Municipal de Lisboa deu este ano a cada coletividade que organiza as marchas 27 mil euros (menos três mil que no ano passado). «A nossa marcha ultrapassa um bocadinho o orçamento, mas tem conseguido arranjar patrocinadores do bairro e fazemos saídas para angariarmos dinheiro. Somos convidados para ir a cidades e terrinhas pelo país fora», conta Vanessa com satisfação.

Laços de afeto que perduram

Este ano, o tema da marcha de Alfama bem poderia ser o tema de qualquer outro bairro antigo da capital: «Alfama dos mexericos». A ensaiadora explica esta escolha: «Continua a haver mexericos de porta a porta e, sem querer, fazemos mexericos daquele ou daquela senhora ou do cão do vizinho, da roupa mal estendida [risos]... Há sempre mexericos. Só não vale falar mal da marcha de Alfama.»

A fadista Raquel Tavares, madrinha da marcha pelo segundo ano consecutivo, diz ter a certeza que é a «madrinha da marcha mais linda de Lisboa». O discurso é, naturalmente, igual ao de qualquer madrinha e padrinho que se preze. Raquel Tavares, apesar de não ser de Alfama, defende o bairro com afinco por ser «aquele que ainda reúne as tradições mais antigas» e garante que, independentemente da classificação, «mais do que pensarmos numa vitória, nós pensamos em superar-nos, porque esse é sempre o objetivo quando trabalhamos em grupo e num projeto desta envergadura».

O coordenador da marcha também não faz da «vitória o objetivo principal». «O principal é a formação das pessoas que estão ao serviço da marcha de Alfama. O que interessa é o carácter das pessoas e formá-las. Nós temos este mês e meio de partilha, de sabermos que o nosso sucesso depende do vizinho e são esses laços de afeto que queremos que perdurem. Eu digo sempre aos marchantes: "No dia 13 de junho, as coisas boas e más da vossa vida são iguais às do dia 12. Ganhar a marcha não interessa, o que interessa é termos valores e sabermos transmiti-los. O que importa é fomentar o grupo."»

Esta forma de encarar a vitória ou a derrota leva-o a afirmar com convicção: «Quando ganhamos, felizmente é quase sempre a regra, gosto de ser o primeiro a sair do Magalhães [Lima], quando perdemos faço questão de ser o último para eles perceberem que é uma coisa que têm de aceitar, faz parte da vida. Eu costumo dizer: "Nós nunca perdemos, às vezes não ganhamos, o que é diferente."» Palavra de (bom) líder.

Sílvia Júlio
Publicado em Sociedade

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