Pedimos que nos contasse um pouco da sua história e o testemunho desenrolou-se por mais de uma hora simples, lúcido, forte e... sem dramatismos nem tabus. Esta mãe, esposa, trabalhadora, voluntária da Liga falou-nos da sua experiência com a força de uma sobrevivente que não desiste, mas sem vaidades de heroína que derrota o dragão. Rita Teles Branco vive com a sua doença há cerca de 25 anos; já passou por três cancros, dois deles potencialmente mortais (um na tiroide aos 24 anos e um melanoma há um ano), mas, usando uma expressão sua, «resolveu-os», um de cada vez, um dia de cada vez, simplificando as contas do seu futuro a dois dias, o de hoje e o de amanhã. Decidiu que a melhor estratégia era vencer batalhas e chamou a si a missão de desmistificar uma doença que tem de ser vista como isso mesmo... uma doença. Há pessoas que a têm, há outras que não. E tem o seu lugar próprio para ficar, na gaveta. Ela existe, tem de ser tratada, tem de se estar consciente, mas não deve condicionar de modo nenhum a vida. Rita é uma pessoa com a doença e não a «doença com braços, pernas e cabeça».
Voluntária da Liga envolvida «até aos cabelos», defende com convicção toda a importância que esta instituição tem no combate ao cancro, na investigação sobre a doença, na prevenção e no apoio ao doente... uma presença silenciosa, mas fundamental.
FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – Como foi a sua reação quando soube que tinha a doença?
Rita Teles Branco (R.T.B.) – Tive duas diferentes. A primeira vez que me disseram que tinha um cancro, há 25 anos, eu achei que não era possível, que deveria haver algum engano, porque era muito nova, tinha muita vontade de viver. Depois vi que não era engano nenhum. Tive algumas alturas de dizer: «Pronto a minha vida acabou e o que fiz?» Aquela história de ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro? Eu não tinha feito nada! Depois passou-me essa fase e pensei: «O que é que vou fazer? Vou resolver.»
Agora, desta vez foi mais complicado pelo facto de eu ter três filhos. Pensei: «Será que volto a vencer isto? Três vezes e eu safo-me outra vez? Não é demais para a mesma pessoa?» São coisas que nos passam pela cabeça, mas depois também deixam de passar.
FC – Há 25 anos a ciência estava menos evoluída, era mais complicado...
R.T.B. – Eu digo isto muitas vezes no meu trabalho da Liga, ter um cancro, para mim, foi muito mais uma questão de sortes do que de azares, porque eu tive, mas tive a sorte de ir ao médico certo, de o apanhar a tempo, de fazer os tratamentos corretos, a opção do meu médico foi a mais certa, foi um conjunto de sortes que me faz estar aqui. E depois de ter tido, fiquei noiva, casei, tive filhos, que era uma coisa muito complicada também porque o meu cancro era hormonal, da tiroide, por isso mexe-me com toda a parte hormonal. Tudo me aconteceu depois disso. Acho que também é uma questão de atitude porque há muita gente quando ouve a doença, ouve a palavra, desiste imediatamente, morre antes do tempo.
FC – Ainda há muitos tabus? Quais? O associar sempre o cancro à morte?
R.T.B. – Esse é o mais evidente não é? É uma pessoa que descobre que tem um cancro e acha que aquilo é igual a «vou morrer». Morrer vamos todos. Todos nós sabemos disso, mas ninguém quer. O primeiro tabu é esse, «afinal a minha morte já está anunciada» e ninguém gosta de enfrentar isso. Em relação aos centros que estão mais afastados de onde tudo acontece há um tabu acrescido, porque uma mulher que tem um cancro na mama é uma mulher que é olhada como uma mulher que não tem mama; um homem que tem cancro na próstata é um homem que não é um homem, é meio homem. Por isso, as pessoas fecham-se e não dizem nada e isso piora.
FC – É importante falar sobre a doença...
R.T.B. – Eu costumo dizer isso. Se uma pessoa não falar daquilo, aquilo em vez de diminuir, em vez de ser uma coisa que vai desaparecendo da nossa cabeça, é uma coisa que vai cada vez pesando mais. Se nós continuarmos cheios de medos na nossa cabeça, não resolvemos nada. Há uma série de coisas, que se não forem faladas são vinte vezes mais difíceis de resolver. Já é mau ter um cancro, agora não poder falar nele, nem ter apoio, em primeiro lugar da família, depois dos amigos, da nossa comunidade... há um conjunto de coisas que têm de funcionar para que as coisas se resolvam com menos dor e menos penas não é? Não vencemos um cancro sozinhos.
FC – Diz que não se vence sozinho... Qual foi o papel da sua família?
R.T.B. – Tive o privilégio de nunca estar sozinha nos momentos todos em que tive de resolver a minha doença. Eu sabia que por trás daquela porta onde eu estava a fazer o tratamento ou a consulta, a operação, ia ter sempre alguém à minha espera. Agora, eu como voluntária dentro daquele instituto vejo muita gente a ir sozinha, tratar uma doença destas, gravíssima, de transportes públicos e sem ninguém. Acho que o pior problema da nossa sociedade não é o cancro, é a família que está desestruturada. Isto é a doença deste século, a solidão das pessoas. Como é que é possível alguém vencer, passar por isto tudo sem apoio? Eu não conseguiria.
FC – Portanto, a família também ajuda na cura...
R.T.B. – Ajuda. Já viu o que é termos de passar por um tratamento que nos queima, que não conseguimos comer porque estamos todos queimados e ter alguém que compreenda isso, que nos abrace, que vá comprar o gelado, que nos diga «amanhã já não vai ser tão difícil». Não podemos ir buscar forças sozinhos às unhas dos pés. Os primeiros que nos apoiam são a família, depois é a própria comunidade. Vamos à rua, vamos com um aspeto macilento e de lenço na cabeça e se toda a gente olhar e criticar ainda vimos mais enxofrados. Não é que se diga «está giríssima careca e com esse ar macilento». Não é isso que se quer, mas é alguém que não se importe, que mostre que isto é uma fase, que não faz mal, que há de passar.
FC – Tem uma visão muito prática da doença. Onde foi buscar essa maneira de a encarar, a sua força?
R.T.B. – Acho que é uma questão de gostar de viver. Da primeira vez que me disseram que eu tinha um cancro eu apanhei um grande susto. A minha força vem da vontade que tenho de viver. Depois é o facto de acreditar. Eu não tenho medo de morrer, tenho pena de morrer já, porque tenho três filhos e gostava imenso de ver o meu filho formado, as minhas duas filhas a irem casar com o pai a levá-las ao altar, de ser avó, há assim aquelas mariquices que eu gostava de poder viver, por isso teria pena. Agora, não tenho medo nenhum, é a coisa mais natural do ser humano. Até porque acredito em Deus e isso também ajuda. Há as tais pessoas que desistem logo e há as tais que teimam em não desistir. Eu sou das que teimam em não desistir.
FC – Como se aprende a lidar com a possibilidade mais real da morte?
R.T.B. – A gente desiste? Não. Luta até ao fim? Sim. Quando Deus Nosso Senhor quiser, chegou! Não quero morrer, tenho é de aceitar o que acontecer. Até agora tenho conseguido lutar e resolver. No dia que não conseguir dá-me ideia que também vou ter tempo de me adaptar ao facto de «olha, desta vez não há nada a fazer». Se não houver nada a fazer o que é que me resta? Viver plenamente. Há tanta gente que foi antes de mim e não tinha cancro nenhum. Não podemos viver em função do dia em que deixamos de viver, isso é uma estupidez, uma perda de tempo, não fazemos nada de útil, não prestamos para nada se nos entregamos só a essa espera.
FC – Vive a sua vida normalmente, portanto...
R.T.B. – Eu não passo a vida a lembrar-me de que sou uma pessoa que tem um cancro, ou dois ou três, percebe? Sou eu. Mãe, trabalhadora, coordenadora do "Dia pela Vida", voluntária hospitalar, tenho a minha vida e... tenho os meus cancros. Tenho de ir mais vezes ao médico, tenho de tomar os meus remédios, mas não é a parte principal da minha vida, a minha doença, não vivo em função disto, senão não estamos a viver, estamos a aguentar-nos. Eu acho que a vida não é aguentar cá andar, é fazer um bocadinho mais do que isso.
FC – Como se tornou voluntária da Liga Portuguesa Contra o Cancro?
R.T.B. – A primeira vez que eu vi a existência da Liga foi realmente quando passei pelo IPO (Instituto Português de Oncologia) há 26 anos. Na minha família toda a vida fizemos algum tipo de voluntariado, é uma coisa que fazia parte da educação. Depois de ter o meu cancro sempre me ficou a vontade de fazer alguma coisa por alguém que tivesse o mesmo que eu, porque eu graças a Deus continuava viva. Essa vontade sempre tive só que para se ser voluntário da Liga é preciso haver uma coisa muito importante que é disponibilidade porque quando a gente falha quem mais sofre é o doente e já não precisa de sofrer por mais nada. Por isso eu sempre tive vontade mas fui adiando, porque fui mãe, vivo em Coruche, de maneira que as coisas tinham de ter a sua altura. De repente apareceu e surgiu oportunidade para eu ser coordenadora do movimento "Um Dia Pela Vida" da LPCC; depois é que passei para o voluntariado hospitalar.
FC – Se tivesse de deixar uma mensagem às pessoas que estão a passar pela doença agora, o que lhes diria, o que é o mais importante?
R.T.B. – Nunca perder a esperança e tentar sempre ter apoio. A única coisa que eu acho que devo dizer é não se fechem na sua doença. As pessoas são pessoas que têm uma doença e que podem resolvê-la. Falem das coisas, resolvam-nas, lutem, vale a pena. Eu tenho uma vida perfeitamente normal, tenho que tomar remédios todos os dias, pois tenho e daí? Também lavo os dentes todos os dias e penteio-me e levo os meus filhos à escola e cozinho. A vida é boa, deve ser vivida e saboreada e não devemos desistir porque temos uma doença e não devemos andar com ela permanentemente às costas. Temos de deixá-la no seu sítio, resolver o que temos de resolver e seguir em frente.

