Quinta-Feira, 23 de Fevereiro de 2012
 
   
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Isabel Antunes

«Idade da qualidade»

Quinta-Feira, 26 Janeiro 2012
Este será o Ano Europeu dedicado ao Envelhecimento Ativo. A FAMÍLIA CRISTÃ irá mostrar histórias de quem, na idade maior, dá um contributo válido à sociedade – exemplos de vida, iniciativas e projetos que fervilham na cabeça e no coração daqueles que ainda põem em prática os seus sonhos. Isabel Antunes, psicóloga clínica e autora de livros como A vida depois dos 50, inaugura esta rubrica precisamente na altura em que é considerada a escritora do mês na Biblioteca Municipal de Torres Vedras.

É numa pastelaria bem no centro de Torres Vedras, na zona oeste do país, que marcamos encontro para falar sobre a arte do envelhecimento. Em cima da mesa estão duas bebidas quentes de limão, projetos para mostrar e pinceladas de vida para partilhar. É naquele lugar onde se ouve música instrumental que não incomoda as conversas nem os pensamentos que a autora foca o seu espírito para a escrita. Umas vezes leva o computador, outras um bloco de notas onde aponta pensamentos, palavras, atos e emoções para transmitir aos seus leitores.

Mesmo ali ao nosso lado está um quadro com palavras que Isabel Antunes assina por baixo: «Estar com os amigos, saborear a vida, ter tempo, comemorar, rir, reunir a malta, petiscar.»

O envelhecimento como arte

«O envelhecimento é a arte da comunicação, de quem não se fecha e não tem pena de si próprio. Viver um pouco para os outros é uma arte. A expressão da arte do envelhecimento deve estar relacionada com todas as artes plásticas – e não só. Se uma pessoa pintar um quadro e depois o fechar num sótão, que arte é essa? Uma pessoa que escreva um poema ou um livro e os feche a sete chaves, que arte é essa? A arte é sempre um meio de comunicação com os outros. O outro é a condição sine qua non da arte, seja ela qual for. A arte do envelhecimento não é ficar só em casa a ver televisão», explica a forma como entende a passagem do tempo.

Para esta mulher, as rugas que lhe marcam o rosto e a idade (70 anos) são apenas um parêntesis na vida. Aliás, deve ser por isso que nem se olha muito ao espelho. Sente-se «fresca como uma alface» e o reflexo mostra-lhe algumas pregas na cara e no corpo que não correspondem inteiramente ao espírito de quem ainda tem algo para comunicar.

A idade em que o envelhecimento (físico) começa a pesar é por volta dos 50 anos – mais cinco menos cinco. «No caso das mulheres, o envelhecimento vem com a menopausa. É preciso ter uma grande força espiritual e muito bom senso para se ultrapassar esta fase. O espírito influencia o corpo e o corpo influencia o espírito.»

Segundo a especialista, «a pessoa que se descentra de si própria e pensa mais nos outros, ganha fisicamente».

«A inveja, o ódio, a raiva, os desejos de vingança são altamente tóxicos para o coração. Se escolher viver a ajudar os outros, entra na dimensão espiritual e já não pensa só no seu corpo. Fazendo os outros felizes, melhora o sistema imunitário, recebe de reflexo mais saúde – e mais saúde é mais felicidade», acrescenta.

No quadro de vida desta mulher existem mais cores na dimensão espiritual. Foi a vida que viveu – ou pintou – ao longo dos anos que a ajudou a saber centrar-se no essencial e agora sente-se mais grata por tudo. «O principal da nossa vida, sejamos novos ou velhos, é a gratidão, porque é uma das condições principais de uma inteligência emocional saudável. É um fator de felicidade e equilíbrio tanto físico como espiritual.»

A vida com gratidão

A psicoterapeuta faz questão de, ao final do dia, fazer uma questão de vida ou morte social a si própria. «O que aprendi hoje?» – esse tem sido o lema. «É uma posição de desafio que tenho para comigo – é como se fosse uma escada ou um puzzle que se vai formando na vida, é um mosaico. A nossa vida é feita de pequenas coisas, vamos adaptando-nos, vamos pisando e vamos avançando.»

Passo a passo, o caminho é longo. Porém, é mais fácil se se encontrar aprendizagens em cada pedra que se pisa e não ficar com a sabedoria guardada para si. A escrita é uma das suas formas de comunicação – mas não se fica por ali. Quando se lhe pergunta o que quer dizer às pessoas em 2012, Isabel Antunes não hesita na resposta: «O ano de 2012 representa projetos. Tenho um livro para sair... Tenho também projetos em Torres Vedras – inventei um poema para a pera rocha. Se eu puder ajudar a que as crianças se habituem a comer mais pera rocha, que é tão saudável e é a fruta da nossa região, ficarei feliz. Fiz uma peça de teatro, que ofereci à câmara e será representada, sobre os pastéis de feijão desta zona. Estou aqui para defender a minha dama...». Contributos que ficarão para a sua terra. Em janeiro é a escritora do mês da biblioteca municipal e outras iniciativas não hão de faltar.

Isabel Antunes «lamenta» que haja freguesias e autarquias que apenas se preocupem com «os lanchinhos, cantares e dançares» para o entretenimento dos idosos. «O envelhecimento ativo não é só fazer ginástica, cantar, dançar e lanchar. Este ano será importante para chamar a atenção também para isso, porque as pessoas andam tão distraídas...», diz.

A septuagenária insiste: «As pessoas deviam ir mais para os prazeres espirituais, para a leitura, teatro, poesia, pintura e outras artes». Pintar é o que menos tem feito nos últimos tempos, até «porque já não vê tão bem e a mão já treme mais», mas há muitas outras opções de vida no dia que tem 24 horas. «A gente só dorme 8 e tem 16 para fazer muita coisa», realça.

O voluntariado também a ajuda a preencher o dia com muito prazer. Aproveitando as suas competências na área da psicologia, vai uma vez por semana – ou mais – ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fazer as entrevistas aos candidatos a voluntários e prevenir o stresse daqueles que já exercem em pleno o seu trabalho: «O meu papel no hospital é ensiná-los a gerir o stresse em si próprios quando têm de encarar determinados problemas ao nível da sua função. A minha missão é melhorar-lhes a saúde mental.»

A partir deste ano, também fará voluntariado na Universidade da Terceira Idade de Torres Vedras. Irá dar aulas na área da psicoterapia. Uma oportunidade de vida que surgiu na idade maior ou na «idade da qualidade», como lhe chamou, «em que se fazem as coisas mais devagar, mas melhores e com mais qualidade». Continuará a frequentar workshops ligados a técnicas psicoterapêuticas para não parar no tempo. E, claro, vai continuar a escrever: poesia, contos, romances...

Quanto ao exercício físico tão recomendado pelos médicos, prefere «andar, andar, andar a pé». Para onde quer que vá, gosta de dar corda aos sapatos. E quando não é possível, faz-se à estrada... de transportes públicos, «para apreciar os campos cultivados, uns verdes clarinhos outros mais escurinhos».

Envelhecer é um verbo que conjuga sem medo, porque «envelhecemos para ficarmos sábios».

Sílvia Júlio
Publicado em Sociedade

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