A vontade de se superarem é tão grande que alguns já falam nos Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.
Faltam alguns minutos para começar uma aula especial na Federação Portuguesa de Judo, em Lisboa. O Ulisses é o primeiro a chegar. Orgulhosamente vestido a rigor com o "judogui" e o seu cinto verde, que conquistou com empenho, aguarda ansiosamente a chegada dos parceiros, que se tornaram «uma família». Mexe-se de um lado para o outro enquanto vai aquecendo os pés descalços no tapete amarelo, vermelho e azul. A sala ganha ainda mais cor à medida que vão chegando «os amigos». A cegueira de alguns não impede ninguém de ver a verdadeira vida que ali acontece. O encontro entre aqueles judocas com deficiência visual é vibrante. O essencial da vida é invisível aos olhos – e eles sabem-no bem, até porque veem tudo com os olhos do coração.
Mal colocam os pés no tapete, cumprimentam o espaço onde treinam – em sinal de respeito. Os ponteiros do relógio no Dojo (sala de judo, em português) marcam as sete da tarde e está na hora da saudação inicial de joelhos aos parceiros e ao mestre – faz parte da etiqueta da modalidade japonesa.
A etiqueta é das primeiras coisas que aprendem, em nome da consideração pelo adversário. O parceiro é saudado quando se começa a trabalhar e sempre que há trocas durante os treinos.
Superar os desafios
Começa o aquecimento. Ver aquelas pessoas a correr aos pares, os cegos com os membros da equipa técnica e outros judocas que fazem parte do projeto, lembra uma analogia da vida: os obstáculos da vida, ali dentro e cá fora, podem sempre ser superados com a ajuda de outros.
Excecionalmente, o Marcelo chega mais tarde neste final de tarde chuvoso e frio. Vem de longe, bem perto da Ericeira, e às terças-feiras a mãe trá-lo para fazer judo adaptado. O Marcelo, de 16 anos, sofre de paralisia cerebral e, ao contrário dos colegas, vê perfeitamente. Não fala – mas percebe tudo o que lhe dizem, até mesmo quando um dos mestres lhe conta, em jeito de provocação, que a jornalista é do Benfica. Sportinguista ferrenho, o jovem, ainda assim, não perde a boa disposição e o sorriso aberto.
A nível cognitivo, o Marcelo é igual a qualquer pessoa da mesma idade. Frequenta o 11.º ano, no ensino normal, e quando ali chega a festa acontece. Sai num ápice da cadeira de rodas e, entre saltos e rastejos, vai veloz para o tapete. Pratica judo sentado, pelas dificuldades motoras associadas à paralisia cerebral, e até a mãe já está rendida à modalidade «por amor ao filho». Começou também a praticar judo – mas o Marcelo não acha tanta graça ter a mãe como parceira. «Marcelo, hoje está ser uma seca?», pergunta um dos seus parceiros favoritos, Manuel Costa e Oliveira, 62 anos, secretário-geral da Federação Portuguesa de Judo e iniciador responsável por este projeto, que está a fazer as honras da casa a receber a visita.
Para contento do jovem, o Manuel Costa e Oliveira vai fazer alguns exercícios com ele. A alegria estampada no rosto dos dois que "combatem" no chão, quase como avô e neto, deixa aquela mãe perdida de riso. Ana Almeida, 35 anos, conta que, quando não pode vir ao judo, o filho «fica logo aborrecido». A mãe do Marcelo sente-se feliz por ter sido dada a oportunidade ao filho para ali fazer desporto, quando tantas outras portas se fecharam: «Tem sido muito bom para ele; há exercícios que se fazem aqui semelhantes aos da fisioterapia, com a diferença que não os faz por obrigação mas com prazer.» O deleite é tão grande que o Marcelo não sente uma ponta de cansaço, mesmo depois de vir de um dia inteiro passado na escola, em Mafra. Vir para Lisboa fazer judo ao final do dia só pode ser fruto de uma grande força de vontade. «Ele não desiste, é muito persistente, é muito agarrado à vida», elogia a mãe.
«Eu sou apologista da ideia de que quem não caça com cão, caça com gato. Se ele não consegue fazer tudo no judo, faz até onde consegue», afirma num tom de voz descontraído. «O Marcelo vai conseguir como os outros pois», garante Costa e Oliveira, «cá estaremos para o ver cinto negro de judo, como qualquer outro.»
«É bom demonstrar que ele não é de vidro, é como nós. Vai para o chão, cai. Há a ideia de superprotegermos estas pessoas, mas elas não gostam», garante Ana Almeida.
Aumentar a destreza física
Graça Fonseca, 57 anos, é mãe de Luís, de 27, e sente que o filho está mais independente com o judo. O jovem, cego desde nascença, concorda que tem a autoestima mais elevada. «Desde que está no judo, consegue fazer coisas que não fazia até mesmo em casa. Ele até já foi ao Porto com o Clube de Judo e "desembrulhou-se" sozinho, sem a família», conta esta mãe. Outro aspeto positivo é «que o obriga a mexer os músculos que estão atrofiados». O Luís, que tem uma voz especial para o fado, passa os dias sentado a tocar ou a compor, para depois fazer voluntariado a cantar em lares de idosos. A imobilidade é ali compensada naquelas aulas praticadas religiosamente às terças e quintas.
O Sérgio Neves, 25 anos, sublinha que a atividade física para pessoas com deficiência visual é fundamental. «A pessoa que vê, salta, corre, faz isto e aquilo desde pequenina. Nós, pela nossa deficiência, por proteção dos pais, nunca conseguimos ter toda essa atividade – e isso vai trazer malefícios, pois ficamos mais gordos e com menos destreza. O judo vem colmatar essa falta de destreza.» Mas mais relevante do que tudo isso é «ter aqui pessoas que nos sabem ensinar, que têm paciência para repetir as vezes que forem necessárias para conseguirmos aprender as técnicas – e o espírito que se estabelece entre todos também é marcante. O fator social é ainda mais importante que o físico.» O Sérgio conta que hoje é uma pessoa mais aberta. «Aprendi a falar mais. Ainda continuo a ser tímido mas quando vim para aqui era mais parado e caladinho. Já me abri mais e até digo piadas», confessa este jovem que está a tirar o mestrado em Engenharia Informática e fica radiante quando qualquer colega lhe pede para resolver problemas desta área.
O Filipe Ramos, 20 anos, é estudante de Biologia e diz que o que mais gosta «é de estar com estas pessoas». «O meu amigo Sérgio, que conheci na faculdade, falou-me do Clube de Judo e disse-me para eu vir experimentar e gostei imenso.» Diz que ainda é «bastante tímido», mas ali sente-se solto com aqueles colegas, que são um «balão de oxigénio» na sua vida.
O Ulisses Silva, 35 anos, precisa do judo como o ar que respira. Este jovem é o judoca que vem desde o início do projeto e é dos mais faladores e brincalhões do grupo. Realça que aprecia particularmente «a ajuda e colaboração entre os mais e menos graduados». Gosta ainda de «pisar» os outros na brincadeira e dizer: «Desculpa, não "vi" que tinhas aí o pé.» O maior sonho deste judoca é estar nos jogos paraolímpicos. «Talvez no Rio de Janeiro-2016.»
Nem todos têm os mesmos objetivos de competição, mas nem por isso deixam de ter gosto por praticar a modalidade. «Saio daqui mais relaxado. Os dias melhores são estes que aqui venho. Chego a casa, janto e dá-me logo o sono porque tenho o corpo mais amassado», conta o Rui Perxeira, de 46 anos.
Conviver com amigos
António Pessoa, 50 anos, diz que para si é importante sair dali com o «organismo mais limpo e repousado» e aconselha as pessoas cegas a «tentarem praticar durante algum tempo algumas modalidades até acertarem numa que gostem, porque é ótimo para o corpo e mente». Vejo o António a sair da sala de judo bem-disposto e faz uma vénia ao espaço, a despedir-se do lugar onde passou hora e meia de pura satisfação.
«O principal objetivo é conviverem e divertirem-se», afirma Fernando Seabra, 46 anos, advogado e mestre, medalha de ouro em campeonatos nacionais de Katas (técnicas de judo).
«Estamos a conseguir que eles façam aqui amigos, convivam, que saiam daqui a rir-se e pratiquem atividade física.» Mais: é expectável que alguns destes judocas sejam um dia competidores em provas internacionais. «O objetivo final seriam os jogos paraolímpicos.» Será que isso vai acontecer já em 2016, no Rio de Janeiro? «Vamos tê-los num Rio de Janeiro qualquer um dia destes», responde.
O dirigente Manuel Costa e Oliveira, mais confiante, gosta de acreditar que isso será possível.
Quem vê estes judocas a treinar com tanto afinco também quer acreditar nisso. Aliás, há momentos no treino em que ninguém percebe quais são os que têm deficiência. «Nós muitas vezes tratamo-los como pessoas diferentes, mas eles são absolutamente iguais a nós. O nosso primeiro instinto é o da proteção, queremos abafar e depois percebemos que eles não precisam nada disso», constata Fernando Seabra.
O que estes judocas precisam é que os treinadores usem uma boa comunicação, para que percebam bem através da audição todos os exercícios. «É um desafio que me dá muito prazer», revela Fernando Seabra, que ao longo da aula dizia, num tom de voz bem alto e pujante, vocábulos em japonês para denominar os exercícios – e ninguém ali ficou às aranhas com a terminologia oriental. Aliás, estavam todos em pulgas para treinar mais. Porque têm em mente um objetivo maior.

