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Dúvidas e interrogações

E agora, Euro?

Terça-Feira, 10 Janeiro 2012
Com a crise financeira instalada, para onde caminha o Euro? As opiniões dividem-se e se há quem defenda a continuidade da moeda única europeia, também há quem profetize o seu fim. A única coisa em que todos concordam é que não é possível continuar como até aqui, com uma moeda única europeia e políticas financeiras descentralizadas que, sem fiscalização, se tornam verdadeiros atentados à estabilidade do Euro.

Passados dez anos sobre a entrada em vigor do Euro, a Europa encontra-se mergulhada numa profunda crise económica sem fim à vista no curto prazo. Efeitos da utilização de uma moeda única? «Eu estou convencido que estaríamos em pior situação se não estivéssemos no Euro quando rebentou esta crise», considera o professor Fernando Branco, da Universidade Católica Portuguesa (UCP) em Lisboa.

«Sendo um país pequeno, temos muito menos capacidade de influenciar, perceber, antecipar, ser protagonista das grandes mudanças internacionais, e apanhamos com tudo isso sem nos podermos mexer. Além disso, o esforço de termos de dialogar, convencer, estar presente e ouvir opiniões dos outros, ajuda-nos a não cometermos, com tanta facilidade, disparates grandes, que os nossos governantes poderiam cometer se estivessem sozinhos e não tivessem de estar sempre a explicar a terceiros porque é que querem fazer isto ou aquilo. Há aqui apesar de tudo alguma disciplina que se coloca a nível das políticas do governo», defende o professor catedrático.

Uma pequena parte da Europa

A professora Leonor Modesto, também da UCP, acrescenta que é preciso perceber que, se tivéssemos optado por ficar de fora, a realidade não seria igual à que tínhamos. «Nós não podemos pensar se estaríamos melhor como estávamos, porque como estávamos não era como iriamos ficar, porque os outros países entravam. Nós somos uma pequena parte da Europa, e para mim é mais vantajoso estarmos dentro do que fora», diz a professora, que adianta que a entrada no Euro trouxe também várias vantagens financeiras com os fundos comunitários que vieram e que foram, na sua opinião, «mal aproveitados».

«Na altura houve transferência de fundos para que os países mais suscetíveis a sofrer crises pudessem transformar as suas estruturas e transformá-las em estruturas mais competitivas. Mas nós não gastámos o nosso dinheiro aí. Com o dinheiro fizeram-se autoestradas, investiu-se na educação, mas acho que as coisas não foram bem planeadas. Acho que as primeiras redes de autoestradas que surgiram fizeram sentido, eram necessárias, mas depois não. Houve uma série de cursos de formação que foram feitos dentro das empresas, mas parece-me que essa formação não resultou numa alteração das estruturas produtivas, que era o necessário. É preciso uma força de trabalho mais educada, mas essa educação tem de ser na escola. No local de trabalho, são as empresas que têm de mudar as suas estruturas e organização, e não tanto os trabalhadores», defende a professora.

Este é um ponto, aliás, em que Leonor Modesto critica duramente a organização do país. «Se as tarefas são as mesmas, não vale a pena estarmos a ter trabalhadores mais formados a fazer o mesmo que os outros estavam a fazer. Se pedirmos a uma força de trabalho mais qualificada que faça o mesmo tipo de tarefas, não vale a pena qualificar as pessoas», aponta.

Em virtude de não se terem preparado convenientemente, a estrutura empresarial em Portugal sofreu muito com a entrada em cenas das economias emergentes, onde a mão de obra é muito mais barata e os produtos de massa muitos mais baratos. «Não podemos concorrer com os mercados emergentes, mas nada fizemos para modificar isso. A Itália passou pelo mesmo problema que nós, mas modernizou as suas indústrias e passaram a produzir material especializado. Portugal podia ter feito o mesmo, mas não o fez. Temos uma mão de obra qualificada, e podemos pedir que invistam em design. Em lugar de vendermos sapatos baratos, podemos vender produtos mais caros, de melhor qualidade, com outra estratégia, dirigida a outros públicos.»

Vale a pena?

Chegados aqui, muitos perguntam: Vale a pena ficarmos no Euro? «Pessoalmente, entendo que seria mau que isso acontecesse. Seria um retrocesso para o país, e eu teria pena. Ficaríamos mais uma vez "orgulhosamente sós", com a possibilidade de gerir tudo, mas um tudo muito pequenino e muito mais sujeito às perturbações externas sem mecanismos tão fáceis de acomodar esses choques externos», defende Fernando Branco.

A saída do Euro conduziria, portanto, a uma desvalorização da moeda e a um aumento significativo de todos os bens que pretendêssemos importar. Falamos de gasolina, carros, bens de consumo como máquinas fotográficas, televisões ou frigoríficos. Tudo ficaria a um preço muito alto em virtude de necessitarmos de desvalorizar a nossa moeda para fazer face à crise. Além disso, sair do Euro implicaria a assunção de que não iríamos pagar a nossa dívida.

«Só uma vez é que se diz "eu não pago". Portugal já fez default [declarar que não paga a dívida] uma vez, nos primeiros anos da República. Houve um consórcio que fez um empréstimo a Portugal, cuja última tranche foi paga há cerca de dez anos, já estava o PS no poder. A penalização de estarmos em default é que deixámos de poder pedir dinheiro no mercado internacional. Quando dizem que o Salazar não foi pedir dinheiro emprestado, ele não foi porque não podia, estava proibido. Então ficámos orgulhosamente sós, e foi uma pasmaceira durante anos, o país não se desenvolveu. As pessoas têm de pensar que a nossa família é o país. De repente, devemos muito dinheiro a muitas famílias à nossa volta. De cada vez que lhes vamos pedir dinheiro emprestado, as pessoas pensam "bom, estes querem mais dinheiro, é porque ainda não vão pagar", e emprestam com taxas de juro mais altas, e a nossa cotação cada vez desce mais. Uma família que faça isto num banco nunca mais tem crédito de ninguém. Não lhe dão cheques ou cartões de crédito, é chapa ganha, chapa gasta. Se o país fizer a mesma coisa, é igual. Quem não paga uma vez, nunca mais recebe dinheiro», avisa a professora Leonor Modesto.

Assumindo que ficamos então dentro do Euro, é preciso compreender os desafios que a moeda única nos coloca. «Criámos uma moeda única, mas não replicámos ao nível federal o que os EUA têm federalmente. O que acontece atualmente com o Euro é que o Banco Central Europeu (BCE) não tem os poderes que um Banco de Portugal tinha. O BCE não é um lender of last resort, porque não tem competência para isso», afirma Leonor Modesto.

Fernando Branco avisa que, mais cedo ou mais tarde, a solução vai passar por centralizar as políticas orçamentais dos países, o que pode conduzir a perda de soberania em algumas áreas, nomeadamente financeiras ou diretamente ligadas a ela. «Temos de ter um orçamento europeu e passar para a Europa alguma da autonomia orçamental que os governos têm, temos de nos sujeitar a isso. Áreas que são só decididas em termos europeus ou nas quais temos uma participação menor. Só assim poderíamos evitar problemas como o da Grécia... ou da Madeira», refere o professor da UCP, que considera que o caminho das grandes mudanças é mais fácil de percorrer em período de crise.

«Algumas das transformações que este governo está a procurar fazer, e que a todos nós doem em muitas dimensões, no geral são positivas e o país precisava delas. Conseguem-se fazer em tempos de crise, mas num tempo em que a crise não estivesse clara, um governo que viesse anunciar estas coisas não ganhava as eleições!», sustenta Fernando Branco, que não quer fazer futurologia, mas quer que as pessoas estejam preparadas para o debate que se avizinha. «Eu não estou a defender a centralização, mas é importante que, quando formos chamados a decidir, saibamos bem o que está em causa», avisa o professor, que alerta os mais distraídos para o facto de «o nosso nível de vida ter subido de forma exponencial» nos últimos dez anos, facto a que não está alheia a entrada no Euro.

Leonor Modesto concorda que a solução passa por centralizar as decisões económicas, mas considera que falta avançar porque «os alemães não querem pagar mais impostos só porque outros não os estão a pagar». No caso de se avançar para políticas económicas europeias, seria ainda necessário cobrir as dívidas dos países que já estão em incumprimento, e isso significaria que todos os cidadãos europeus teriam de suportar essas despesas, o que não agrada aos países que não têm esse tipo de dívidas e virtude da sua capacidade de produção e exportação de bens.

O futuro

Para a professora universitária, o caminho é claro. «O grande problema de Portugal é o Estado e a despesa excessiva do seu funcionamento. Por isso, é preciso que as pessoas percebam que o setor público não deve produzir, mas sim proporcionar. Acho que deve haver saúde e educação públicas, por exemplo, mas isso não significa hospitais públicos e escolas públicas. Quando a escola é pública, ninguém olha para os custos. Há uns anos atrás, quando fizeram a primeira avaliação das universidades públicas, pediram-nos também a nós na Católica que apresentássemos os nossos relatórios. Depois de os lerem, devolveram a dizer que afinal não era preciso, porque não éramos públicos. Mas a verdade é que eles sabiam que a nossa avaliação financeira era muito melhor que o resto das universidades públicas, e por isso não o quiseram mostrar», relembra Leonor Modesto.

Por tudo isto, a professora da Católica considera que o futuro será positivo. «Acho que temos de pagar isto, e os portugueses portam-se muito bem dentro das adversidades. Quando dizem "agora é para pagar isto", eles cumprem», defende. Só esperamos é que quem governa também cumpra com a sua parte e traga o país de volta da crise em que mergulhou.

Ricardo Perna
Publicado em Sociedade

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