Sexta-Feira, 31 de Outubro de 2014
 
   
Texto

Exortação Apostólica

«A Alegria do Evangelho»

Quarta-Feira, 08 Janeiro 2014
A primeira exortação do Papa Francisco foi recebida por toda a sociedade com um misto de surpresa e agrado. As edições impressas em Portugal esgotaram nos primeiros dias e obrigaram a reedições logo na primeira semana, e todos os órgãos de comunicação social e comentadores abordaram os vários aspetos que o Papa Francisco referiu. Neste sentido, fomos procurar conhecer a opinião sobre este documento, e fizemos as mesmas perguntas a D. António Couto, bispo de Lamego, ao Cón. Carlos Paes, sacerdote de Lisboa, e a Susana Mateus e Rui Almeida, ambos leigos.

 

D. António Couto, bispo

Qual o primeiro sentimento que lhe surgiu ao terminar de ler a Exortação Evangelii gaudium?
Uma grande alegria por ver e sentir o retrato de uma Igreja inteira com rosto missionário, não de "discípulos e missionários", mas de "discípulos missionários", toda dedicada à missão, saindo de si mesma, do seu estatismo autorreferencial. A torrente do sínodo desembocou neste belíssimo estuário. A hora é de dar graças a Deus.

É um texto que faz um retrato correto da realidade pastoral da Igreja no mundo?
O Papa Francisco analisa a Igreja e a sociedade de hoje. Não cai, porém, naquele erro costumeiro de hoje, que é o "excesso de diagnóstico" ou o "excesso de meios, míngua de fins". As intenções do Papa são sobretudo programáticas. Traçar rumos fundos e fecundos que deem à Igreja inteira uma nova fisionomia, uma nova energia, uma nova alegria, uma nova ternura, uma nova paixão evangelizadora, uma nova comoção que a leve a sair de si mesma ao encontro dos homens e mulheres deste tempo. Sobretudo dos pobres e dos excluídos, dos «pobres de espírito» do Evangelho (MT 5,3), que são os que não têm espaço político, económico, social, educacional, cultural, humano: aqueles que não têm espaço nenhum, com quem ninguém conta, nem contam para ninguém. Muito para além do mero formalismo da administração, da frieza da indiferença, do medo que tolhe os movimentos e leva à estagnação e à autopreservação.

Qual foi a parte que o tocou mais?
Claramente a Introdução e o capítulo I, onde se encontram 64 das 97 menções da «alegria» que inundam a carta. E onde se sente o Evangelho como nomen actionis, não como nomen status. Como nomen status foi parar à estante. É preciso retirá-lo da estante, e pô-lo em movimento de vida e alegria fecundante.

As exortações contidas são realizáveis, ou o que o Papa propõe é desfasado da realidade?
O que o Papa Francisco propõe é o Evangelho sine glossa. Confluência do sermão da Montanha (MT 5-7), da cena inaugural de Jesus em Nazaré (LC 4,16-22) e daquela torrente salutar, sanadora e fonte de fecundidade e fertilidade que sai do Templo e inunda e fecunda a terra inteira (EZ 47,1-12), da Casa aberta, orante, feliz, comovida e acolhedora que é a Igreja unida e reunida em Jerusalém (AT 2,42 47; 4,32 35; 5,12 15).

É um texto apenas para católicos, ou dirigido a todo o mundo?
O Evangelho é para todos. E chega às pessoas e às culturas, muitas vezes antes de lá chegarmos nós. Além disso, a força do Evangelho reclama compromissos a todos os níveis da sociedade, desde a política à economia, à justiça, à educação, ao diálogo, à misericórdia. Embora dirigida ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos, a Evangelii gaudium é uma carta aberta a todos os corações, que quer desencadear em todos novas atitudes.

 

Susana Mateus, leiga

Qual o primeiro sentimento que lhe surgiu ao terminar de ler a Exortação Evangelii gaudium?
Senti-me acima de tudo desafiada a "arregaçar as mangas" nesta Igreja que professo. É um documento muito prático que impele a olhar para fora, olhar à volta. No entanto, fica também muito claro esta força evangelizadora que deve brotar sempre do centro, do essencial, centrado na cruz, mistério maior de Amor.

É um texto que faz um retrato correto da realidade pastoral da Igreja no mundo?
Creio que sim. Inclusivamente o Santo Padre toca em temas porventura incómodos para alguns dentro da Igreja. Neste ponto, sinto o Papa Francisco muito concreto, com ideias muito definidas e dirigidas à sua Igreja. Um exemplo tantas vezes referenciado nesta exortação é o excesso de clericalismo que por vezes existe. Outro exemplo é o pedido à conversão missionária das comunidades. Muitos outros exemplos existem ao longo de todo o texto. O Santo Padre mostra um olhar muito real neste documento, nunca se esquecendo de apontar caminhos, metas, rumos, sempre em direção à meta maior, Cristo.

Qual foi a parte que a tocou mais?
Existem vários pontos muito interessantes, mas mentiria se não nomeasse os que são relativos aos leigos . Em relação aos leigos, pois são palavras do Santo Padre dirigidas a mim diretamente, como leiga, e que me desafiam a uma entrega maior e mais consciente. O Santo Padre, de diversas formas, reflete no seu discurso, por várias vezes, a necessidade de descentralização da Igreja. No entanto, fala desta descentralização de uma forma estruturada e com funções e metas bem definidas. Vejo este discurso como uma forma, se bem estruturada como pede o Santo Padre, de reforçar as bases, os alicerces. Os leigos têm, na minha opinião, uma função importante, válida e que pode ser de extrema riqueza para a Igreja. Curiosas as definições que o Papa vai dando dos leigos. Perfeitamente de acordo com a realidade que vamos vivendo na Igreja.

As exortações contidas são realizáveis, ou o que o Papa propõe é desfasado da realidade?
Possíveis serão sempre. Desde o início do pontificado, o Papa Francisco tem elevado a fasquia, em atitudes pessoais, discursos, reflexões, homilias... Não faria sentido baixá-la na sua primeira exortação, especialmente traduzindo ela o programa de referência para toda a Igreja.
No entanto, sinto que o desfasamento ou não da realidade dependerá de todos nós, corpo da Igreja, desde o clero até ao último dos leigos.
Cabe-nos a todos nós responder a estas provocações do Santo Padre. Só a Igreja no seu todo poderá tornar possível este programa proposto pelo pastor.

É um texto apenas para católicos, ou dirigido a todo o mundo?
Para mim é um texto que se encaixa e pode ser vivido por todo o mundo. Quero com isto dizer que não é, de forma nenhuma um documento dirigido apenas e só para a Igreja internamente. No entanto, é um documento nitidamente do pastor para a sua Igreja, com propostas muito concretas, retomando em vários aspetos alguns temas conciliares esquecidos. Sair para fora. Sei que não será a forma mais correta de escrever, mas tenho sentido muito a Igreja a sair apenas para dentro de si mesma. O Papa pede-nos uma desconstrução de definições adquiridas, de hábitos ganhos. Pede-nos apenas para vivermos na alegria do Evangelho e isso basta para ser sinal evangelizador, para abrir as portas dos templos ao mundo, para construir uma Igreja missionária, que chegue e viva para esse mundo global.

 

Cón. Carlos Paes, sacerdote

Qual o primeiro sentimento que lhe surgiu ao terminar de ler a Exortação Evangelii gaudium?
Trata-se de um texto profético e programático, que pode determinar uma viragem a prazo na Igreja, como aliás o próprio Papa afirma: «Um texto programático com consequências importantes.» (N.º 25) O sentimento que fica é de ação e graças por Deus nos ter dado um Papa tão "evangélico" no sentido mais rico da palavra. Esta exortação toca pela profunda convicção de fé que deixa transparecer.

É um texto que faz um retrato correto da realidade pastoral da Igreja no mundo?
Mais do que um retrato, é uma análise feita por alguém que fala a partir de uma longa experiência pastoral e que agora nos comunica qual a sua meditação teológico-pastoral sobre a Igreja e a sua missão.

Qual foi a parte que o tocou mais?
Todo o texto é muito interpelativo e envolve-nos como cristãos na mesma paixão missionária e evangelizadora que anima este Papa de uma forma tão contagiante. Também aqui se aplica a sua palavra: «A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração», diz Francisco citando Bento XVI (n.º 14). A exortação forma um todo coeso e coerente e é difícil dizer onde é mais tocante. Para mim a sua leitura e o seu estudo pessoal e também comunitário tem sido, além do mais, um deleite e define um projeto a longo prazo e não simplesmente mais um documento que se lê e se coloca na estante. Convém estudá-lo e tê-lo por perto.

As exortações contidas são realizáveis, ou o que o Papa propõe é desfasado da realidade?
O que ressalta do testemunho deste Papa é que por toda a sua experiência e formação pessoal ele é uma pessoa que conhece a realidade por vivência pessoal da mesma. Daí que toda a exortação nos mobiliza para a ação.

É um texto apenas para católicos, ou dirigido a todo o mundo?
Todo o homem de boa vontade se pode considerar destinatário deste texto, porque o Papa visa a humanidade, que ele deseja congregar em torno do único salvador que nos oferece uma mensagem abrangente de cada homem no seu todo pessoal.

 

Rui Almeida, leigo

Qual o primeiro sentimento que lhe surgiu ao terminar de ler a Exortação Evangelii gaudium?
Alegria, sem dúvida. É essa a grande marca de toda a exortação. Fica a ideia de que o Papa, a cada frase, ou pelo menos a cada página, procurou afirmar a necessidade de toda a ação da Igreja ter de ser em função dessa alegria de nos deixarmos tocar pelo Evangelho e de o levarmos ao mundo. Mesmo quando (ou talvez aí com maior ênfase) os temas são mais pesados e difíceis de enquadrar num registo de alegria.

É um texto que faz um retrato correto da realidade pastoral da Igreja no mundo?
Não me parece que haja a pretensão de fazer um retrato da realidade pastoral. Logo no n.º 16 o Papa faz essa ressalva. No entanto, ao longo de todo o documento fica muito claro que Francisco tem uma forte consciência da «multiplicidade de questões» que se põem a cada membro da Igreja, que é necessariamente um agente pastoral no meio em que está inserido.

Qual foi a parte que o tocou mais?
Por razões de ofício (que se identificam também com a minha sensibilidade pessoal), não pude deixar de me deter no n.º 167, onde é afirmada e sublinhada a importância da beleza, nomeadamente através das artes, no anúncio do Evangelho. O apelo do Papa à procura de novas linguagens nas artes, de «uma nova carne para a transmissão da Palavra», é bem mais relevante do que a maioria de nós possa reconhecer no imediato. Trata-se de uma dimensão essencial, não só para a difusão e anúncio das realidades da Fé, mas também para a compreensão da nossa própria identidade, sustentada na Tradição, e, por isso, «em continuidade com a riqueza do passado».

As exortações contidas são realizáveis, ou o que o Papa propõe é desfasado da realidade?
Parece-me que não só são realizáveis, como partem do que já está a ser realizado. Antes de mais, a clareza e desassombro da linguagem testemunhada em todo o documento é já um importante sinal de conciliação com a realidade. Percebe-se que o Papa tem uma grande noção das dinâmicas e dificuldades das diferentes comunidades e de que os desafios com que se deparam terão de ser encarados a nível local. No segundo capítulo é dada uma espécie de chave de leitura global com vista a dar resposta a dificuldades que serão comuns à generalidade dos países, mas que requerem, necessariamente uma reflexão contextualizada, de acordo com a «salutar "descentralização"», referida logo no início.

É um texto apenas para católicos, ou dirigido a todo o mundo?
Em rigor, é um texto dirigido apenas aos católicos, pois é um documento explicitamente sobre o anúncio do Evangelho. Mas não deixa de ser curioso constatar como foi recebido por tanta gente de fora da Igreja católica. A isso não será alheia a grande atenção que o Papa dá à realidade do mundo atual, muito de acordo com grande parte do que foram os seus pronunciamentos anteriores a esta exortação, bem como a sua postura de atenção às realidades que afetam as pessoas do tempo concreto em que vivemos. A primeira parte do capítulo II e todo o capítulo IV, ainda que sistematicamente referenciados e fundados no ensino da Igreja, constituem claramente um apelo a todas as pessoas de boa vontade.

Ricardo Perna
Publicado em Igreja

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