Segunda-Feira, 20 de Outubro de 2014
 
   
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A revelação do mistério invisível

O Verbo Divino fez-Se carne

Sexta-Feira, 14 Dezembro 2012

No Ano da Fé, em que celebramos o cinquentenário do Concílio Vaticano II, a FAMÍLIA CRISTÃ vai continuar a trazer até si documentos conciliares que interpelam a Igreja e o Mundo. Nesta edição de Natal, aborda-se a Dei Verbum sobre a revelação divina, que ajuda a aprofundar a fé.



A celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II é ocasião para celebrar os 47 anos da promulgação da Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina. Tendo sido um dos documentos conciliares que espelha a grande procura de fidelidade às exigências da fé e também da cultura do nosso tempo, a Dei Verbum surge como um documento unificador da consciência da Igreja sobre a Revelação Divina, a Palavra de Deus, a Tradição, e lança as bases para o estudo, leitura e celebração da força da Palavra de Deus no mundo contemporâneo. Há três dimensões muito presentes na Dei Verbum que nos ajudam a aprofundar a apresentação da fé da Igreja na Revelação Divina: ela é relacional, serve-se de mediações humanas e é comunitária.

Um dos mais geniais traços da Dei Verbum é unificar os grandes tesouros da Palavra de Deus e da Tradição da Igreja à volta da Revelação Divina. A Revelação é a auto-comunicação de Deus aos homens como totalidade, em palavras e acontecimentos intimamente conexos. Tal modo de apresentar a Revelação supera a concepção da comunicação fragmentária de verdades dirigidas à razão humana, ou o acentuar exclusivo do devir histórico onde Deus se manifestou. É certo que pronunciamentos do Magistério anteriores ao Concílio responderam a problemas específicos, sobretudo no período da crise modernista, tais como as questões ligadas à Inspiração da Sagrada Escritura, a autoridade do Magistério enquanto instância de interpretação do texto bíblico, os métodos históricos aplicados à investigação bíblica. A Dei Verbum é um documento de síntese porque conseguiu integrar diferentes aspectos da relação dos crentes com a Palavra de Deus, com a missão da Igreja e do diálogo com o mundo contemporâneo sob o conceito de Revelação. A Revelação, como expressão de totalidade do diálogo entre Deus e os homens, atinge o homem como um todo, como um parceiro do mistério de conhecimento e de comunhão com o próprio Deus.


Esta dimensão de totalidade do mistério do encontro entre Deus e o Homem é o coração da Dei Verbum. Deus é apresentado como pessoal, relacional, desejoso de comunhão, e a humanidade criada para o encontro com o Deus pessoal, Pai, Filho e Espírito Santo. A expressão máxima desse diálogo relacional da parte de Deus é Jesus, que torna visível e acessível na Sua humanidade o mistério do Deus invisível. Da parte humana, como destinatários da manifestação de Deus, a expressão dialogal da revelação é vivida na fé, como um dom recebido do Espírito para nos abrir à automanifestação de Deus. Encontrar a Deus em Jesus Cristo é a possibilidade de um encontro pessoal, face a face, com o Deus vivo segundo a nossa condição humana. Tudo o que Deus nos pode dizer sobre Si e sobre nós, disse-o de forma total e definitiva em Jesus Cristo. É no Senhor Jesus Cristo que essa relação dialogal com Deus se torna possível para toda a humanidade.
A conceção personalista da Revelação mostra a profunda unidade entre as palavras e os acontecimentos da manifestação de Deus ao mundo. Palavras e acontecimentos têm assim uma unidade profunda na História da Salvação , onde as palavras interpretam e confirmam os acontecimentos, e os acontecimentos mostram a força irredutível das palavras na experiência humana.

A Revelação

A apresentação dinâmica, personalista e experiencial da Revelação abre o horizonte para as mediações do encontro com o Deus Trindade. Entre as diversas mediações ou fontes da Revelação, a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja são dois elementos constitutivos. Mas não são elementos estáticos, fixados de forma intemporal e sem vida, mas reciprocamente ordenados para exprimir e conduzir cada homem ao encontro pessoal e vivo com Deus. A Bíblia contém toda a verdade para a nossa salvação em palavras e acontecimentos, e a Tradição que brota da pregação apostólica e que continua na Igreja pela ação do Espírito Santo orienta para a Totalidade do encontro com Deus. A comunicação permanente entre a Palavra de Deus e a Tradição da Igreja forma assim uma unidade tendendo para o mesmo fim. A Sagrada Escritura fixa a Palavra de Deus nos textos dos autores humanos com as palavras necessárias para a nossa salvação. A Tradição é uma realidade dinâmica que, por um lado, nos apresenta o conteúdo da fé e, por outro lado, sustém o processo da fé na mesma relação dialogal com Deus nas suas diversas expressões: liturgia, teologia, no ensino moral e na compreensão da vontade de Deus em cada tempo (cf. DV, n.º 9). A perceção do seu mútuo ordenamento abre-nos à riqueza da Palavra de Deus na sua totalidade confiada à Igreja.

A conceção de unidade entre as fontes da Revelação, Sagrada Escritura e Tradição da Igreja abre uma dimensão essencial na compreensão da fé cristã. Porque a Revelação é encontro com o Deus vivo, e porque a Sagrada Escritura e a Tradição são duas mediações assistidas pelo Espírito Santo ao seu serviço, a Igreja, guiada pelo mesmo Espírito, está ao serviço da salvação dos homens através do seu ensino e da sua permanente solicitude. A Palavra de Deus integra assim o lugar vital e existencial onde ela é recebida, interpretada, celebrada e proclamada como oferta do amor de Deus a todos os homens. A comunidade eclesial não é apenas um elemento menor no acesso à Revelação. Ela é o contexto vital onde Deus se dá a conhecer e pede a cada um o assentimento da fé.

É nesse encontro vital com o Deus Trindade, mediado pela Igreja assistida pelo Espírito Santo, que o Concílio confia que os tesouros da Palavra viva de Deus venham a contribuir para uma profunda renovação da Igreja. A renovação dos estudos bíblicos e teológicos, a pregação dos pastores mais alicerçada na Bíblia e o acesso às Escrituras de todo o povo de Deus devem servir o desejo de que «a Palavra de Deus se difunda e resplandeça (2TS 3,1), e o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens» (DV, n.º 26). O Concílio situa o acolhimento da Palavra de Deus na Igreja, mas não aprofunda essa dimensão comunitária da escuta que é parte constitutiva da Revelação de Deus. Outros documentos subsequentes, da Pontifícia Comissão Bíblica (15-04-1993) e a Exortação Apostólica Verbum Domini (30-09-2010), aprofundarão este aspeto comunitário do acolhimento da Palavra de Deus em Igreja, embora a síntese conciliar tenha sido decisiva no delinear esse horizonte.

Muito do esforço contemporâneo de escuta, estudo, oração e proclamação da Palavra de Deus em Igreja, seja para os crentes, seja como desafio aos não-crentes, bebe a sua fonte na forma como a Dei Verbum sintetizou aspetos delicados da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja sob o conceito de Revelação Divina. Porque ela é diálogo de Deus com os homens, cabe ao nosso tempo recriar os contextos onde a Palavra se faça ouvir e torne a oferecer-se como convite de comunhão com o Deus vivo.

Pe. Robson Matos Cruz
Publicado em Igreja

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Edição de Outubro/2014

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