Sábado, 25 de Outubro de 2014
 
   
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D. Ildo Fortes

«Uma família cristã é fermento»

Segunda-Feira, 30 Julho 2012
D. Ildo Fortes, bispo cabo-verdiano, 47 anos, formado no Patriarcado de Lisboa, comanda a Diocese do Mindelo. O prelado esteve presente no 11.º Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora que decorreu em Brasília, de 21 a 26 de Julho. De passagem por Lisboa, a FAMÍLIA CRISTÃ entrevistou o bispo do Mindelo, não só sobre a riqueza que leva para os casais, mas também sobre as dificuldades que vivem as famílias e a Igreja cabo-verdianas . O seu testemunho, valioso, traz-nos pensamentos, palavras e emoções que ajudam a refletir sobre a importância da aposta na evangelização. Porque «a melhor notícia que correu no mundo foi que Jesus Cristo veio trazer uma fraternidade e uma comunhão universal, nunca antes conhecidas».

FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – Cabo Verde esteve presente pela primeira vez no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora. D. Ildo Fortes é conselheiro espiritual das equipas no território cabo-verdiano. O que viveu neste encontro?
D. Ildo Fortes (D.I.F.) –
Este Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora foi uma verdadeira universalidade da fé cristã. Nós tínhamos à volta de 70 países dos quatro cantos do mundo neste encontro. Estavam pessoas da Síria, Líbano, Filipinas, Austrália, Europa, América Latina. O Brasil estava em grande número. Foi um banho de universalidade e catolicidade muito rico. Além dos casais, estavam os conselheiros espirituais. Esse encontro terá fortalecido muito o amor dos cônjuges e despertado para a beleza do amor humano, do amor à luz de Deus. Deus é que é amor, quem vive de Deus vive ainda mais o amor cristão, o amor humano. Nós tínhamos como lema Ousar o Evangelho. Mas o texto do Evangelho que serviu de pano de fundo de todo o encontro foi o texto do Bom Samaritano. Aquele homem caiu nas mãos dos salteadores – um sacerdote e um levita passaram ao lado e há um samaritano que se aproxima e cuida dele. Há a dimensão de cuidado e o deixar-se mover pela compaixão. Isso ganhou uma dimensão ampla de como traduzir isto na vida matrimonial, de como traduzir isto da família para a sociedade. É fundamental deixarmo-nos mover pelo amor. Este encontro do Brasil vai dar muitos frutos, porque permitiu esta convivência de todos os continentes. Para, nós, cabo-verdianos, presentes pela primeira vez, foi bom vermos esta família maior à qual pertencemos.

FC – Que pensamentos, palavras e emoções trouxe o Pastor do Mindelo? O que leva para os casais cabo-verdianos?
D.I.F. –
A história das Equipas de Nossa Senhora é recente. Em 2006/7 arrancámos com as primeiras equipas de casais. No Brasil, estive eu e o casal responsável pelo setor. Foi um banho de alegria e esperança enorme. Nós estamos neste momento com 15 equipas de casais. Eu levo sobretudo esta força de querer fazer crescer ainda mais as equipas, que são um bem enorme para a família. Na diocese do Mindelo fizermos uma aposta muito grande na família. O ano pastoral que está ainda em curso tem como tema: Por uma família cristã e missionária. A família na nossa sociedade cabo-verdiana está em crise. A instituição matrimónio está muito pouco valorizada. Muito jovens acabam por ser pais muito cedo e não têm capacidade de educar os seus filhos e os avós fazem esse papel. Nós temos esta riqueza da família unida, as crianças não ficam à mercê da sua sorte, mas não temos famílias estruturadas em que o pai e a mãe possam viver juntos e com alguma estabilidade. Muitas vezes os filhos surgem numa aventura, há muitas mães e pais solteiros... A educação para os valores é outra coisa com a qual estamos muito preocupados.

FC – Falar em educação para os valores parece quase uma coisa antiquada nos dias de hoje para muitos setores da sociedade...
D.I.F. –
Muitos setores da sociedade já se deram conta de que os males que estamos a viver se devem à ausência de valores cristãos que a sociedade moderna foi perdendo. Precisamos de famílias cristãs. Que o homem e mulher que se juntaram possam perceber que o vínculo matrimonial é uma graça de Deus que lhes está a faltar para serem esposos, pais e testemunhas na sociedade.

FC – O que é ser uma família cristã?
D.I.F. –
Primeiramente, uma família cristã oficializa o seu vínculo, casa-se aos olhos de Deus e vive, essencialmente, os valores cristãos. Educa para o amor da família, para a justiça, fraternidade e compromisso – falta-nos muito isso na nossa sociedade. Esses valores aprendem-se no berço. Uma família cristã vive segundo os planos de Deus, vive a mensagem do Evangelho. Uma família cristã é fermento, é uma família capaz de transformar a sociedade a partir de dentro. Porque os membros das famílias estão nos bairros, nas cidades, nas escolas, no trabalho, nos hospitais, no comércio e o ideal é que aí se comece a fermentar uma nova humanidade.

FC – O que cada um de nós, pedras vivas da Igreja, terá de fazer para que a família se torne naquilo que é?
D.I.F. –
Que cada membro viva o seu compromisso batismal. Se cada cristão vivesse seriamente o seu batismo, se conhecesse Jesus Cristo e procurasse testemunhá-lo na vida, estava tudo feito. É isso que nos falta. Muitas famílias ditas cristãs participam no culto ao domingo, vão à catequese e a alguns encontros mas isso não chega. O que é necessário é que, voltando às suas casas e às suas atividades, possam ser gente comprometida, gente que seja uma alavanca para a sociedade crescer.

FC – No contexto específico de Cabo Verde, quais as maiores dificuldades sentidas pelas famílias?
D.I.F. –
Muitas das famílias não têm o mínimo indispensável para viver com mais dignidade. Temos famílias a viver em condições que levam à promiscuidade. O desemprego é muito elevado. Nós temos muita camada juvenil que, terminando o ensino obrigatório, não tem colocação no mercado de trabalho, o que faz com que viva no vazio. Quando as pessoas não têm nada que fazer, facilmente se dedicam a atividades inúteis que, em vez de edificarem, destroem. O álcool tem um peso muito grande entre nós, a droga, a busca da evasão nas festas, o sexo... Essas coisas são um flagelo muito grande para a família... Outra coisa que nos preocupa é a falta de valores cristãos...

FC – Que respostas está a dar a Igreja, e em particular a Diocese de Mindelo, às situações vividas pelas famílias cabo-verdianas, no sentido da formação? Quando foi para a Diocese de Mindelo, há mais de um ano, disse na homilia que não tinha um programa próprio, que o programa da Igreja foi estabelecido há 2000 anos: Evangelizar. Como tem sido feita essa aposta em Cabo Verde?
D.I.F. –
A prioridade da Igreja é a evangelização. Quando a Igreja faz obras socais, se dedica à educação e a outras áreas, fá-lo por amor. A Igreja caminha com os homens. Não há área nenhum da vida em sociedade onde a Igreja não é chamada a intervir num jogo de não substituir ninguém. Nós não ficamos na retaguarda a dizer: "Não me compete fazer isto." A Igreja tem de estar onde é chamada. Mas a primeira tarefa da igreja é anunciar o Evangelho, sempre e em toda a parte. Se nós não fazemos isto, ninguém faz por nós. Outras coisas podem ser feitas por outros, mas falar de Jesus Cristo é a tarefa principal da Igreja. O Homem tendo Deus consigo, tem mais esperança, vai encontrar maior sentido para a sua vida. Por exemplo, temos muita prostituição nas ilhas turísticas – as pessoas procuram essa via para sobreviverem temos lá as Irmãs Adoradoras com este carisma a trabalhar com as mulheres, dando-lhes formação (culinária, bordados, informática), para que essas pessoas possam ter uma alternativa e percebam que há outras maneiras de ganhar a vida. A Igreja está atenta a estes problemas. Também muitos programas que são feitos a nível nacional não favorecem a família. Os festivais são bons em si mas há muita festa, muitos programas que dispersam as pessoas e, infelizmente, à volta disto anda muito álcool, droga e a irresponsabilidade das pessoas que têm as suas aventuras sexuais. Não se vai à raiz do problema, diz-se: "Podes fazer o que tu quiseres, desde que te previnas." Quando as pessoas passam dias a fio fora de casa, noites sem dormir nesses programas que descentram as pessoas de si mesmas, vão ficando mais vazias. A Igreja tem de ajudar as pessoas a perceber que há outras formas de nos encontramos, de conviveremos, de festejarmos.

FC – A família e os jovens merecem uma grande atenção pastoral. Tem sido fácil chegar até eles?
D.I.F. –
Nós começamos a partir de dentro. A nossa grande aposta tem sido trabalhar com as famílias que já frequentam a comunidade. É gratificante ver que em todas as comunidades paroquiais houve uma aposta na família. Apostou-se na formação dos esposos, houve um incentivo para que houvesse mais matrimónios. Em Mindelo cresceu o número de casamentos católicos. Os movimentos ligados à família têm trabalhado nesse sentido, tivemos conferências, festas da família onde juntámos as diversas gerações. Isso fez que com que as pessoas acreditassem que é muito bom estarmos juntos em dias de reflexão, em dias celebrativos. Vamos continuar a salientar o quanto é bom viver-se em família. A diocese criou recentemente um Secretariado para a Família, onde o nosso objetivo é marcarmos presença, sobretudo através da rádio e da televisão, com pequemos gestos, reflexões e programas para trazermos ao de cima os valores belos da família cristã. O secretariado está a fazer um levantamento local para vermos qual a melhor resposta a dar. Este secretariado diocesano está também a tentar implementar em cada paróquia um Secretariado Paroquial da Família que tenha esta dimensão de atenção à família.

FC – Na vivência da fé, quais as maiores diferenças que encontra entre o povo cabo-verdiano e o português?
D.I.F. –
Não são muitas. A nossa vivência eclesial é uma herança da fé de Portugal, por isso a maneira de estarmos nas nossas comunidades é muito semelhante. Como tive a experiência nos dois lados, sinto que as nossas realidades são muito semelhantes.

FC – Como estão os laços entre a Igreja cabo-verdiana e a Igreja portuguesa?
D.I.F. –
Temos laços naturais. Por exemplo, para a Igreja de Cabo Verde, muitos dos subsídios litúrgicos para a pastoral, catequese, formação cristã, formação dos noivos são os mesmos que em Portugal. Há uma sintonia muito grande... Nós temos ainda muitos missionários portugueses. A maior parte das congregações religiosas são de origem portuguesa. Nota-se muito a presença portuguesa. Muita formação dos nossos sacerdotes é feita em Portugal, há laços que nunca se perderam. Somos um país independente há 37 anos, mas há uma ligação muito grande entre o povo cabo-verdiano e o povo português – e o português gosta de Cabo Verde. Estamos a assistir a um grande investimento dos portugueses no mercado cabo-verdiano, dada a crise que se vive atualmente na Europa. Mas poderia ser mais... Eu confesso que até esperava mais, um maior intercâmbio a nível de congregações. Tenho sentido uma falta muito grande de sacerdotes no Mindelo e, sendo padre oriundo de Lisboa, ainda aguardo essa esperança de poder ter alguma colaboração nesse sentido, de partilha de padres,... ainda há campo para mais, mesmo a nível de intercâmbio de leigos.

FC – Quando manifesta as suas inquietações à Igreja portuguesa tem sentido uma boa recetividade?
D.I.F. –
A Igreja portuguesa tem as suas dificuldades. Há dioceses que estão a passar por uma fase crítica. Sei que as vocações na Europa e em Portugal não são muitas. Sei que há dioceses de Portugal que não vão ordenar padres nos próximos anos. O clero português é de uma faixa etária muito elevada. Cada ano são muitas as perdas. Por isso, compreendo a dificuldade da Igreja portuguesa em responder aos apelos cabo-verdianos.

FC – Faltam missionários em Cabo Verde?
D.I.F. –
Cabo Verde é uma igreja que tem 500 anos de História. A missão deve ser uma constante na vida da Igreja. Mas, neste momento, precisamos que a nossa igreja local se torne mais madura, precisamos de vocações autóctones. Elas iriam trazer um fôlego novo. A Igreja não pode viver sempre de missão de fora. Cabo Verde viveu demasiado tempo dependente das missões exteriores (Itália, Portugal,...) e isso fez que com que as nossas comunidades não crescessem muito na consciência de que têm de ser elas os membros ativos das suas comunidades. Eu defendo muito a aposta na igreja local, de formarmos os nossos leigos, termos sacerdotes, religiosos e religiosas cabo-verdianos. Não é normal que séculos a fio a Igreja não se tenha tornado madura e viva e esteja sempre dependente de fora. É muito bom o intercâmbio, é desejável que haja contribuições do exterior, mas nesta fase é prioridade termos vocações locais para trabalharem na pastoral paroquial e diocesana e nas áreas da sociedade que merecem atenção. Precisamos de levar o Evangelho ao setor da cultura, da saúde, da educação. Criei recentemente no Mindelo uma comissão para a Pastoral Escolar para estar atenta a esse setor da sociedade. Criámos também recentemente na diocese estruturas da Pastoral da Saúde. Também no mundo político é importante termos cristãos atentos. Porque o ideal para a Igreja não é criar grupos à parte, mas ajudar os seus fiéis a serem influentes, sal da Terra e luz do mundo onde se encontram. Se houver cristãos comprometidos nessas áreas, é mais fácil termos o mundo cristianizado.

FC – Em Cabo Verde, o cristianismo tem vindo a perder terreno com as seitas e a comunidade muçulmana...
D.I.F. –
Outrora, 90% diziam-se católicos. Nos últimos Censos, o número desceu muito. Aqueles que se afirmam como católicos são 60-70%, os praticantes são menos. Isto coincide muito com o crescimento das seitas. Há muitas seitas neste momento em Cabo Verde, vindas sobretudo da América do Norte e do Brasil, que vão aproveitando a situação desfavorável da nossa sociedade, fazendo promessas a diversos níveis. As pessoas não hesitam em ir para as seitas porque elas dão apoio material. Isso está a fazer com que haja muita gente perdida, desorientada.
Por outro lado, temos muita imigração da costa africana (Senegal, Guiné...) que vem procurar trabalho nas terras turísticas e traz a sua religião e vai contraindo matrimónio com mulheres cabo-verdianos e os seus filhos vão já nascendo muçulmanos. Temos um facto preocupante: 6% da população cabo-verdiana já se diz muçulmana e querem construir as suas mesquitas. Na Constituição do nosso país está consignada a liberdade religiosa, mas preocupa-nos se o Islão ganhar muito terreno. O cabo-verdiano não tem muito a ganhar com isso.

FC – Faço-lhe, então, uma pergunta provocatória: a Igreja Católica está com receio de perder o protagonismo?
D.I.F. –
Nós estamos com receio de perder os grandes valores do homem cabo-verdiano. Somos um país onde há o respeito pelo outro, a valorização da pessoa, o respeito pela vida – esses grandes valores do cristianismo. O nosso receio é: se perdermos os valores cristãos, por onde podemos enveredar? A Igreja, na sua doutrina, defende a liberdade religiosa, mas não deixa de ser preocupante que uma terra que foi cristã toda a vida perca esta matriz. Não é busca de protagonismo. A Igreja é serva de Jesus Cristo. Ela tem esta missão: "Ide e anunciai a Boa Nova." Estamos conscientes que nós trazemos uma mensagem, transportamos uma esperança que mais ninguém tem. O cristianismo foi a melhor coisa que aconteceu no mundo. A melhor notícia que correu no mundo foi que Jesus Cristo veio trazer uma fraternidade e uma comunhão universal, nunca antes conhecidas. Por isso, apostamos muito na evangelização.

Sílvia Júlio
Publicado em Igreja

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