Segunda-Feira, 24 de Novembro de 2014
 
   
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Virtude Cardeal - a Fortaleza

Sede corajosos e fortes

Terça-Feira, 10 Julho 2012
«Estai vigilantes, permanecei firmes na fé, sede corajosos e fortes» (1COR 16,13) recomenda o Apóstolo São Paulo à comunidade de Corinto e hoje, a todas as comunidades e a cada um de nós. Estamos dispostos a sacrificar as aparências para amar? Damos a vida por Cristo? A capacidade de resistir e a capacidade de responder aos maus momentos com coragem, fé, esperança e amor, é o ato virtuoso da fortaleza que a graça de Deus infunde em nós.

 

«A vida virtuosa é a que nos ajuda a manter o movimento na direção certa», escreveu Timothy Radcliffe, dominicano inglês, no seu livro Ser cristão para quê? O autor explica como as virtudes são os meios que cada cristão tem à sua disposição para caminhar em direção a Deus: «"Virtus" significa literalmente "força", a força para a caminhada. As virtudes cardeais – coragem, temperança, prudência e justiça – ajudam-nos no caminho. As virtudes teológicas: fé, amor e esperança – dão-nos um antegosto da chegada.»

Todas as virtudes têm esta "chegada" como horizonte do caminho – o encontro com Deus Pai, em Cristo pelo Seu Espírito. A prudência, a primeira das virtudes, informa-nos sobre a vontade de Deus para nós. Através do seu discernimento, sabemos qual é o caminho a seguir. A justiça, a segunda das virtudes, é a presença do amor, fiel a essa vontade e na decisão que tomamos face às bifurcações que o caminho da vontade de Deus nos coloca e que percorremos diariamente. Por sua vez, a fortaleza é a virtude que nos mantém firmes quando o percurso do dia a dia nem sempre se vislumbra fácil.

Quem viu o filme Perfume de Mulher recorda-se certamente do discurso final do tenente-coronel Frank Slade (Al Pacino), um militar reformado que foi ferido em combate nos olhos ficando irremediavelmente cego. Na parte final do seu discurso, Frank Slade fala de algo que todos, em certa altura da vida, já experimentámos: «Eu já enfrentei encruzilhadas na minha vida, e sempre soube qual era o caminho a seguir... Sem exceção, sempre soube. Mas nunca o segui. Sabem porquê? Porque era demasiado difícil.»

Esse é o custo das nossas decisões. O caminho certo é difícil porque implica o perigo de nos magoarmos, de sermos feridos, de sermos ridicularizados, de sermos humilhados. Esse é o custo de seguir o caminho do amor, um caminho que nos torna vulneráveis, pois amar não implica certezas.

A fortaleza supõe vulnerabilidade

Nas nossas decisões, nem sempre temos a certeza de sobreviver, a certeza de sermos correspondidos, sermos compreendidos, sermos reconhecidos. Como afirma Josef Pieper, filósofo católico alemão e autor do livro As virtudes fundamentais: «A fortaleza supõe vulnerabilidade, sem esta não se daria nem a hipótese da fortaleza. Na medida em que não é vulnerável, um anjo não pode participar desta virtude. Ser forte ou valente significa apenas isto: poder receber uma ferida. Se o homem pode ser forte, é porque ele é, essencialmente, vulnerável.» Assim, a capacidade de resistir e perseverar nesse ato de amor, quando o medo nos envolve ou o sofrimento nos parece paralisar, é agir com fortaleza. Por ela encontramos a centelha de esperança, de amor, para suportar, para resistir; para continuar ou para permanecer, ainda que nos seja desconfortável, desagradável, doloroso, sofrido.

Recentemente, a psicóloga e investigadora americana Brene Brown apresentou os resultados estonteantes do seu estudo sobre o sentimento da vergonha (shame). Um estudo com cerca de dez anos de duração e no qual a investigadora entrevistou milhares de pessoas. Nas suas conclusões, Brene defende que é necessário levar a vulnerabilidade a sério sob o perigo de passarmos pela vida sem a viver. Ela constatou que por detrás do sentimento de vergonha está geralmente um receio de nos expormos ao outro, ou seja, um receio de sermos vulneráveis perante o outro porque antevemos a priori um cenário de sofrimento, apesar de este cenário não ser obrigatório ou necessário.

Como consequência, a pessoa fecha-se, tenta controlar e dominar a situação, sobretudo para não sofrer. Porém, ao evitar a vulnerabilidade e ao fechar-se, a pessoa não sofre mas também não se alegra. Como ela afirma: «Ser vulnerável é ter a coragem de ser imperfeito. E ainda que da vulnerabilidade possa surgir o medo e o sofrimento, ela é igualmente o berço da alegria, da criatividade e da felicidade.» Mesmo quando o medo invade, mesmo que haja perigo de sofrer, o amor e a alegria que advêm de tal entrega e disposição de abertura ao outro são a outra face da moeda que a coragem de ser vulnerável proporciona.

Willem Jacobus Eijk, padre e professor de Teologia Moral holandês, escreve sobre o pensamento de São Tomás de Aquino sobre a virtude da Fortaleza na grandiosa Summa Theologica: «São Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, estabelece que o objeto da fortaleza inclui tanto a ousadia como o temor. A fortaleza leva a vontade a querer o bem que a razão conhece, por um lado diminuindo o temor para poder suportar as dificuldades que acompanham a realização deste bem, por outro moderando a ousadia para poder fazer-lhes frente.» A fortaleza é então a coragem para suportar os momentos em que o medo e as dificuldades parecem insuperáveis. É neste sentido que se afirma que os mártires são os bastiões da fortaleza. Eles são aqueles que por Cristo e como Cristo deram a sua vida pelo amor.

Porém, não se pense que o cristão deve procurar a morte ou o sofrimento, pois não é o sofrimento, em si mesmo, o fim que se pretende alcançar, mas viver o amor de Cristo e acarretando todas as suas consequências, más e boas. «São Tomás, citando Santo Agostinho, diz que ninguém é capaz de aceitar o sofrimento em si próprio», esclarece Willem Eijk: «Só o faz em nome de um fim mais alto que a caridade o faz contemplar.»

A orientação do Senhor

Na nossa vida, muitos são os momentos em que somos questionados a ser corajosos. Quantas vezes somos confrontados a decidir entre, por um lado acenar com a cabeça uma opinião socialmente correta e sem grande incómodo incluirmo-nos na grande massa cómoda e conformada; ou, por outro lado, a romper com ela e viver de acordo com aquilo em que acreditamos, acarretando os riscos desta decisão? Quantas vezes, para evitar a inconveniência, deixamos de dizer aos que mais amamos o quanto eles são importantes? Quantas vezes deixamos de lado o nosso orgulho e revelamos ao outro as nossas imperfeições, os nossos erros?

Ser capaz de aceitar as consequências, por mais dolorosas que possam ser, trazem igualmente consigo a alegria interior, a paz, a gratidão e o amor, que se manifestam em nós quando é pelo amor e com amor que agimos.

O Salmo 23 pode oferecer-nos retrato da vida de todos os dias, e realça a presença de Deus no nosso percurso diário, no qual as virtudes que a graça infunde em nós estão bem presentes. «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me faz descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma, guia-me por caminhos retos, por amor do Seu nome.» Mas nem sempre viajamos por prados verdejantes. A vida, nas suas vicissitudes, tem momentos desagradáveis, momentos temerosos, tempestuosos, por isso o salmo continua: «Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.»

A companhia do Senhor, a Sua orientação amorosa, é a serenidade que nos acompanha. Por mais que possamos vacilar, a vara do Senhor não nos deixa perder e orienta-nos, e o Seu cajado não nos deixa cair sós, auxilia-nos a levantar, auxilia-nos a caminhar, a viver o dia a dia.

Paulo Paiva
Publicado em Igreja

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