Quarta-Feira, 17 de Setembro de 2014
 
   
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Acolher para evangelizar

Pastoral do Turismo

Segunda-Feira, 02 Julho 2012

Poder acolher os turistas numa igreja ou num espaço sagrado é oportunidade para evangelizar. Mostrar que um santuário é mais que pedras e obras de arte, e que se peregrina por mais do que ver as vistas são alguns dos desafios que se enfrentam. Cerca de 40 anos depois de ter sido criada no papel, surge uma equipa de trabalho que toca todas as áreas da Pastoral do Turismo, na altura em que os turistas começam a chegar em grande número ao nosso país.

 

Apesar de, no papel, estar prevista a sua criação há cerca de 40 anos, a Obra Nacional da Pastoral do Turismo só agora viu a luz do dia. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) determinou no passado mês de maio a criação deste organismo e o Pe. Carlos Godinho, que foi nomeado diretor, não tem dúvidas quanto às tarefas que, quanto a ele, devem caber a um organismo desta natureza. «Temos de dar uma visão cristã ao turismo e ao mesmo tempo permitir que esse fenómeno, que tem algum peso económico, possa levar à valorização da pessoa, considerada na sua dignidade pessoal; procurar o bem comum, que o turismo favoreça todas as partes, não apenas que vai, mas também quem recebe os vários intervenientes; depois mesmo iluminar com a luz do Evangelho áreas em que o turismo pode ser negativo», refere o sacerdote à FAMÍLIA CRISTÃ.

A área do turismo tem ganhado nos últimos anos uma importância cada vez maior, e o facto de não existir nenhum organismo nacional que lidasse com o problema fez com que surgissem iniciativas locais que procuravam dar uma resposta local às questões, como são exemplos os santuários, as peregrinações, a pastoral das termas ou a pastoral balnear. O grande desafio agora será conseguir colocar todas estas realidades a trabalhar em rede e parceria. «Quando trabalhamos cada um para o seu lado, conseguem-se alguns resultados com muito esforço e muito dinheiro. Quando trabalhamos em rede, conseguimos mais resultados com menos esforço», defende o Pe. Sezinando Alberto, reitor do Santuário Nacional de Cristo Rei e presidente da Associação dos Santuários de Portugal, que foi também nomeado secretário da Obra Nacional da Pastoral do Turismo.

A equipa que foi escolhida pretendeu, segundo indicação do diretor e concordância dos bispos, ser «o mais eclética possível». «Quisemos dar às pessoas esta noção de conjunto, e por isso incluímos pessoas que vêm de todas as áreas onde toca a Pastoral do Turismo, desde as termas aos santuários, passando pelas peregrinações, a pastoral balnear, a cultura, entre outros», referiu o Pe. Carlos Godinho.

D. Amândio Tomás, bispo de Vila Real, é o prelado que, dentro da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, vai lidar com estas questões da Pastoral do Turismo. Em declarações à nossa revista, disse que os bispos pediram à Obra que realizasse «um esforço de evangelização numa sociedade onde as pessoas vivem esfrangalhadas, onde é preciso levar Jesus Cristo e apresentá-l'O de novas formas», referiu o prelado, que acrescentou que a «forma exponencial» como a mobilidade das pessoas aumentou nos últimos anos conferiu ao turismo «uma importância muito grande». «A Igreja não pode abandonar as pessoas e ficar presa na sua torre de marfim à espera que elas lá vão. Tem de deixar o seu campanário e ir ao encontro das pessoas», defende D. Amândio, que apela a que se «leve Jesus Cristo às pessoas no ambiente em que elas se encontram».

Sensibilizar

No que diz respeito às funções imediatas da Obra Nacional da Pastoral do Turismo, o Pe. Carlos Godinho explica logo à partida que a Obra não terá uma «função executiva». «Não vamos substituir outras instituições, o que nos é pedido é que sensibilizemos para a urgência da realidade pastoral, que tomemos consciência desta realidade e que conheçamos as diretrizes do ministério da Igreja. Deveremos dar indicações tanto precisas quanto possível às comunidades e dioceses onde se faz sentir uma necessidade mais premente desta pastoral. E é isto que é pedido à Obra para já», referiu o sacerdote.

Já há algum tempo que o tema vinha sendo tratado. «Algumas das pessoas que foram nomeadas para a Obra já tinham tido uma primeira experiência nesta área, pois foi criado há quatro anos, no âmbito da antiga Comissão Episcopal da Mobilidade Humana [hoje integrada na Comissão Episcopal da Pastoral Social], o Departamento do Turismo, com a representação das quatro grandes áreas de intervenção: a balnear, os santuários, peregrinações e termas, que já desenvolvia alguns temas relacionados com esta temática», explica o Pe. Carlos Godinho, que refere ainda que este é um trabalho orientado pela Santa Sé.

«Nós temos orientações muito claras do magistério, nomeadamente do Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes, e as últimas indicações práticas de Bento XVI», conta o Pe. Carlos Godinho, que há anos trabalha a pastoral do turismo termal no Luso. Para o sacerdote, uma das razões mais importantes para o trabalho nesta área tem a ver com o auxílio à própria pessoa. «Penso que temos boas possibilidades de ajudar as pessoas a responder a questões de fundo da sua própria vida a partir da experiência do turismo. Óbvio que um primeiro elemento fundamental é saber acolher, mas não basta isso, podemos envolver as pessoas na vida da paróquia que acolhe estas pessoas, se elas ficarem tempo suficiente para isso, por exemplo», defende o responsável nacional da Pastoral do Turismo.

O que parece certo é que usar os meios à disposição da Igreja é um caminho de evangelização que pode dar frutos, se houver «ousadia» para isso. «Temos de ser mais ousados, e ir ao encontro das pessoas, e temos um património imenso para isso. Temos um conjunto de santuários, museus e outros elementos com os quais podemos ajudar as pessoas a compreender uma realidade na sua perspetiva cultural, mas também a abrir-lhe horizontes para o seu sentido mais profundo, reconhecer o elemento cultural mas reconhecer a sua natureza própria. Uma igreja é uma obra de arte arquitetónica, mas tem o seu sentido, o seu significado, e há um conjunto de elementos que, bem explicados, nos podem abrir horizontes para uma outra dimensão da vida», defende.

Prioridades

O Pe. Sezinando concorda com esta perspetiva, e defende o que, na sua opinião, deveriam ser as prioridades no imediato. «É fundamental que haja formação dos agentes da Pastoral do Turismo em vários níveis, quer de quem recebe as pessoas no local, como dos guias que vêm acompanhar os grupos; haver um elo de ligação, um pequeno desdobrável, ou um jornal, para poder fazer circular os subsídios e as pistas entre todos os agentes; e fomentar nos locais das termas, das praias, dos santuários, o acolhimento aos turistas nas suas línguas de origem, seja o espanhol, o italiano ou o inglês. É importante que a sinalética esteja em várias línguas e precisamos de sensibilizar os padres e agentes de pastoral para isso», sustenta.

Apesar de não haver dados precisos referentes ao turismo religioso, o Pe. Carlos Godinho defende que é um «produto que tem sido redescoberto e valorizado». «Em termos de turismo cultural, que inclui o religioso, há um número razoável de pessoas que fazem turismo religioso seja dentro do país, como em Fátima, seja quem parte em peregrinação para fora. Houve 12 milhões de turistas a entrar em Portugal, e em 2020 os 20 milhões de turistas são a meta. A parte religiosa será pequena, mas já com relevância, e ainda teremos de juntar aqui os migrantes, que se deslocam dentro do seu próprio país», defende o Pe. Carlos Godinho.

Poder servir cada vez melhor as populações, ajudando-as na busca do seu silêncio interior e da sua espiritualidade são as ideias. Concretizá-las também depende da afluência dos turistas. Já marcou alguma visita ou peregrinação para as suas férias de verão?

Ricardo Perna
Publicado em Igreja

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