Domingo, 20 de Abril de 2014
 
   
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Um homem que disse «sim» a Cristo

Recordar D. Albino Cleto

Segunda-Feira, 18 Junho 2012

Em Dezembro de 2007,  D. Albino Cleto deu uma entrevista exclusiva à FAMÍLIA CRISTÃ enquanto se preparava para celebrar os 25 anos de ministério episcopal. Lembrou os seus tempos de menino em que rebentava bombas na serra da Estrela com os amigos e de outras brincadeiras que o faziam esquecer a hora das refeições. Confessou que esteve para desistir do sacerdócio antes de encontrar o seu caminho porque «achava a cara das pequenas muito bonitas». E deixou um conselho aos jovens seminaristas. Recorde, através das suas palavras, o testemunho de um homem de Deus.

 

FAMÍLIA CRISTÃ – Quem foi a criança de nome Albino Cleto, que nasceu em 1935 em S. Pedro, Manteigas?
D. Albino Cleto –
Uma criança como muitas outras. Nasceu entre a escola e a igreja numa rua que ainda hoje lhe é muito querida sempre que por ela passa. O meu pai era comerciante das chamadas lojas de província, a minha mãe vivia por cima, na nossa casa, ajudava na loja e procurava educar os três filhos. O Albino é o do meio. Ali cresci, tive as boas escolas de uma terra que era uma vila encravada na serra da Estrela. Daí que eu diga que as escolas são a família, a própria população que vivia muito intensamente os seus costumes marcadamente religiosos, a serra com aquilo que ela ensina de beleza e de austeridade e, naturalmente, a escola primária, a catequese e todas as outras escolas que a gente tem na infância.

FC – Certamente viveu algum episódio que ainda hoje guarda na memória.
D.A.C. –
A primeira reminiscência de memória que eu tenho seria ainda muito pequenino. Deveria estar perto dos três anos. Foi a chamada aurora boreal de que falava a Irmã Lúcia, «haverá um sinal no Céu». Recordo-me de estar com muita gente a olhar para o lado norte, era noite, e ver o céu encarnado e eu não saber o que era aquilo. Deve compreender que foi uma coisa que meteu medo. Ver ao anoitecer o céu todo encarnado com muita gente a olhar, aflita...

FC – Fale-me das suas origens, das vivências familiares, da interacção entre o núcleo familiar.
D.A.C. –
A minha mãe morreu tinha eu sete anos e o meu irmão mais novo estava com dois. Mas tenho memória do que então se passava. O mais velho estava a estudar. Tinha saído da terra e eu brincava com os outros vizinhos antes de ir para a escola. A vivência familiar era muito sã, muito tranquila. O meu pai trabalhava, a minha mãe ajudava-o, a minha avó morava perto com um belo quintal que ainda hoje tenho. Todo o quadro se desenvolvia neste sentido. Às vezes com as minhas brincadeiras merecia uns puxões de orelhas. Lembro-me de que uma vez levei uma sova porque tinha andado a dar umas corridas com o arco e gostaria de ver a velocidade que aquilo dava e esqueci-me da hora de jantar. Outra vez, já a minha mãe não era viva, tinha resolvido ir com outro grupo fazer uma aventura pela serra acima. O que é que fomos fazer? Rebentar bombas do S. João. Lá para meio da tarde resolvemos voltar para casa. O meu pai, aflito, já tinha corrido a vila, puxou-me as orelhas. No meio de tudo isto, o sentido de fé que se vivia com muita naturalidade. Tenho a recordação de pequenito, de olhar para a minha mãe, tinha tocado o relógio, e ela estava a rezar. Quis saber o que é que ela estava a rezar. Estava a rezar as horas, tinha passado mais uma hora e ela explicou-me que estava já mais perto de ir para o céu. Achei aquilo muito estranho mas nunca me esqueci disso. Era ela quem me ensinava, e depois os meus irmãos, de como se rezava à noite na cama. Sendo muito amigo do meu prior, a igreja e as imagens que nela existiam eram para mim seres tão vivos como os que viviam na minha rua. S. Miguel, Nossa Senhora, S. Luís Gonzaga, S. José...

FC – Como se dá o despertar da vocação?
D.A.C. –
De uma maneira muito infantil. O meu irmão mais velho tinha passado pelo seminário. Tudo o que ele fazia eu também queria fazer. Já depois, na quarta classe, vi que outros rapazes da escola e da minha classe também pensavam o mesmo. Então fizemos um grupo, éramos três, e combinámos entre nós que havíamos de ser padres. E fomos ter com o nosso prior a dizer-lhe isso. Depois, a partir daí, deu-se o processo normal de entrada para o seminário. Este motivo infantil foi dando lugar a outros cada vez mais sérios à medida que ia crescendo na idade. Aos 13, 14 anos isso teria dado lugar a outra motivação que era fundamentalmente a de ajudar os jovens. Aos 18 anos questionava já a fé e perguntava o que é que fazia as pessoas felizes. Percebi que havia uma pessoa: Jesus Cristo com o seu Evangelho, o seu modo de vida, as suas orientações. Senti que era para mim o chamamento feito aos apóstolos: Vem e segue-me. Depois, com os meus vinte anos passados, eram motivos teológicos – o padre ao serviço de Deus e da igreja. Ordenei-me padre aos 24 anos.

FC – Antes de chegar a esse patamar, passou certamente por um período turbulento com dúvidas de fé...
D.A.C. –
Sim, com certeza. Tive tudo prontinho e preparado com alguma ponta de marotice para sair do seminário. A ponta de marotice foi esta: eu também gostava de fazer a vida como os outros, achava a cara das pequenas muito bonitas. E por que não? Andava a ver se arranjava razões para sair do seminário. Convenci o meu irmão mais velho para que me fosse buscar num dia que já tinha preparado tudo para sair. Nesse dia o meu irmão veio a Almada, onde eu era estudante, teve uma conversa comigo muito franca e convenceu-me do contrário. Disse-lhe então: «Diz lá em casa que eu vou pensar melhor.» Com um pouco de oração, com a ajuda dos padres e do meu irmão, pensei melhor e fiquei.

FC – É curioso ouvir da boca de um bispo que achava «a cara das pequenas muito bonitas». Nessa altura estava apaixonado?
D.A.C. –
Apaixonado é uma palavra muito séria. Que tinha escolhas, tinha. Não mas pergunte... [risos] Que entre as caras bonitas havia umas que eram mais bonitas... Mas isso acontece com todos os rapazes. Eu fui educador dezanove anos nesse mesmo seminário e sabia que os rapazes que me passavam pelas mãos dos dezasseis aos vinte haviam de fazer uma escolha de ordem afectiva. Evidentemente que a afectividade não é da mesma maneira para Cristo como é para uma rapariguinha, mas eles tinham de fazer essa escolha e nunca mais me esqueci de uma frase que o saudoso Cardeal Cerejeira nos dirigia: «Se eu soubesse que algum de vós não gostava de se casar, nunca o faria padre.» Portanto, graças a Deus, fiz essa escolha e foi na altura própria. Aos vinte anos pensei que «isto não pode continuar assim: ou uma coisa ou outra». E com a ajuda de muitas pessoas, sobretudo a de um padre que assassinaram em Lisboa, Alberto Neto, que me convenceu a dizer sim a Cristo. E eu disse. Uma vez para sempre, as caras bonitas continuaram a ser bonitas mas eu hei-de ter mais cautela com a beleza delas [gargalhadas].

FC – Vamos dar um salto no tempo. Em Dezembro de 1982 tornou-se pública a sua nomeação para bispo auxiliar de Lisboa. A ordenação episcopal foi na Igreja dos Jerónimos a 22 de Janeiro de 1983, dia de S. Vicente. Volvido um quarto de século, é um momento de balanço...
D.A.C. –
O balanço leva-me a uma acção de graças começando por um pedido de perdão. Peço perdão a Deus por aquilo que deveria ter feito e não fiz, em Lisboa e Coimbra. Quando comecei a ser bispo sonhava com muitas coisas, algumas seriam ambiciosas em demasia, mas outras seriam realizáveis. Sonhava em estar mais perto dos pobres, sonhava em ter um dia-a-dia muito arrumado com os papéis todos respondidos... A primeira acção de graças vai para o facto de ter sido bispo auxiliar em Lisboa junto do senhor Cardeal Ribeiro durante quinze anos acompanhado por outros bispos grandes, como são o actual Cardeal de Lisboa, D. José Policarpo, o Sr. D. António Rodrigues, o Sr. D. Serafim... Creio que isso foi para mim uma escola para eu ser bispo. Quinze anos andei nela e deram-me também um trabalho que agradeço a Deus: acompanhar no patriarcado as setenta paróquias da cidade de Lisboa e arredores. Não há dúvida de que Lisboa tem defeitos, mas tem uma igreja muito viva que entusiasma quem com ela trabalha. Vou dar graças a Deus pela notícia que recebi ao fim desses quinze anos – já esperava ser bispo residencial noutra diocese mas longe de mim imaginar que era a «bela» diocese de Coimbra. Tanto mais que nela havia um bispo, o Sr. D. João Alves, que estava em plena posse de saúde e dotes.

FC – Há pouco falou em ambições em demasia que não foram concretizadas. O que é que ficou por fazer?
D.A.C. –
Não tenho remorsos mas tenho este espinho de ao vir para Coimbra com tantos jovens o meu primeiro dever era desenvolver, continuar a apoiar a pastoral juvenil e universitária. Devo dizer-lhe que trabalhámos, continuando o trabalho que vinha de trás, mas é muito difícil. Não que os jovens sejam maus, mas o sonho que eu tinha de os encontrar a viver em Coimbra com alguma disponibilidade ao fim do dia, isso não existe, porque a grande maioria hoje no fim-de-semana não está cá. Já tivemos estatísticas e celebram a sua fé nas suas paróquias. Restam terça, quarta e quinta à noite para fazer trabalho. Vamos fazendo, mas são precisos «agentes» da pastoral juvenil. Tenho alguns, poucos...

FC – Quais as prioridades para a diocese de Coimbra?
D.A.C. –
A primeira consiste em fazer com que a Igreja não viva em Outono mas em Primavera. Que desde os padres, passando por todos os consagrados até chegar sobretudo aos leigos, se viva a fé numa atitude de optimismo e esperança. Isto tem de se traduzir em mudanças concretas. Na pastoral das vocações, graças a Deus, o número tem aumentado progressivamente de seminaristas e de pré-seminaristas. Neste momento, incluindo o primeiro ano, temos dezasseis jovens que já estão no caminho para o sacerdócio, nove em Coimbra, sete em Leiria. E pré-seminaristas, os mais adultos, andam perto dos vinte. Mas agora falo dos leigos... Eu não tenho ilusões, muitos dos nossos padres vão falecer e não serão substituídos. Para estes cinco a dez anos próximos o número de padres no efectivo continuará a diminuir. Mas na medida em que conseguirmos leigos responsáveis nas suas próprias paróquias a assumirem muito do que é a vida cristã, não só na catequese ou na administração mas também na celebração litúrgica, no dinamismo sociológico, as comunidades vão manter-se. Aqui caminhamos: uma escola de leigos que temos a funcionar há cinco anos tem preparado homens e mulheres que amam a Igreja, que se sacrificam muitas noites para fazerem vinte, trinta quilómetros e irem à escola dos leigos. A resolução também não são os leigos a tapar os buracos que os padres deixam. A resolução é termos paróquias que se responsabilizem elas próprias pela sua vida de fé ajudadas com um padre que – embora com alguma raridade – lhes garante a eucaristia.

FC – Para não termos padres substituíveis por leigos, que conselho daria a um seminarista com dúvidas ou a um jovem que ainda não saiba o que fazer com o chamamento que diz sentir.
D.A.C. –
Primeiro: procura ter ideais, não andes à mercê do dia-a-dia. Segundo: organiza alguma coisa que meta pessoas que precisam de ti e ajuda-as. Terceiro: fala dessas pessoas em oração com Jesus Cristo. São os meus conselhos, o resto deixo a Cristo.

Sílvia Júlio
Publicado em Igreja

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