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Virtudes Cardeais - a justiça

Agir segundo Jesus Cristo

Segunda-Feira, 11 Junho 2012

Depois de abordarmos a Prudência, a primeira virtude cardeal, iremos agora abordar a Justiça, uma das virtudes mais conhecidas por todos, mas certamente, mais difícil de descortinar no emaranhado de noções e ações humanas que o homem pode realizar. Através do exemplo de Jesus Cristo, olhando o nosso dia a dia, seremos capazes de agir com Justiça?

 

De entre todas as virtudes morais, a Justiça é uma das mais reconhecidas. A noção de Justiça sempre foi transversal às culturas, atravessou todas às épocas, está implícita em todas as religiões, é referencial de todas as políticas e com a passagem dos séculos tem tido no mundo – considerado hoje como aldeia global – uma atenção e aplicação cada vez maior. Uma prova disso é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pelas Nações Unidas em 1948.

Geralmente considera-se que justiça é o mesmo que igualdade. Considera-se amiúde que o comportamento justo passa por promover a igualdade entre todos. Porém, apesar de a igualdade ser, de facto, um valor importante, é um estado anterior à ação justa. Isto é, a igualdade entre os homens, expressa por exemplo na igualdade de direitos e deveres, é fruto da natureza humana e provém da própria dignidade humana: o fundamento da justiça. Diferente, todavia, é a atitude do justo, que tendo como base natural a dignidade e igualdade humana perante todos os homens, age de acordo com a justiça, e não de acordo com a igualdade.

Inspirado por Aristóteles, São Tomás de Aquino afirmaria que «a justiça é a constante e perpétua vontade de atribuir a cada um o exercício do seu direito». Pelo Catecismo da Igreja Católica, a justiça é, por sua vez, definida de modo semelhante ao ensinamento do Santo Doutor: «A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.»

Assim, esta virtude visa o proceder das nossas ações no quotidiano, ou seja, a reta atitude e ação nas relações pessoais com Deus e com os outros. Pois, na vida cristã, as nossas relações acontecem como que em duas direções: vertical, pela nossa relação com Deus; e horizontal, estendendo-se às nossas relações com os que nos são mais próximos, ou que estão próximos de nós. Os mandamentos de Moisés, apresentados em duas placas, indicavam isso mesmo. A primeira placa continha os mandamentos que se referem à relação com Deus, e a segunda placa continha os mandamentos referentes às relações com o outro. Não foi outra a interpretação da Lei por Jesus Cristo – os mandamentos que resumem toda a Lei e os Profetas: ama a Deus sobre todas as coisas e ama o teu próximo como a ti mesmo.

Neste resumo de Jesus, depreendemos desde logo que a justiça, sendo uma virtude na relação com os demais, não será uma ação completa se não estiver também imbuída de amor. «A convivência entre os seres humanos só poderá, pois, ser considerada bem constituída, fecunda e conforme à dignidade humana, quando fundada sobre a verdade», afirmou João XXIII na Carta Encíclica Pacem in Terris, n.º 35.

«A comunidade humana será tal como acabamos de a delinear, se os cidadãos, guiados pela justiça, se dedicarem ao respeito dos direitos alheios e ao cumprimento dos próprios deveres; se se deixarem conduzir por um amor que sinta as necessidades alheias como próprias, fazendo os outros participantes dos próprios bens; e se tenderem todos a que haja na terra uma perfeita comunhão de valores culturais e espirituais», acrescenta.

Fidelidade

Assim, o conceito de Justiça, tomado como regra de ação por si só, mantém-se num horizonte em certa medida limitado. Também na Sagrada Escritura percecionamos o valor virtuoso da justiça, numa expressividade que se alarga de sentido. Segundo Bento XVI, «na linguagem do Antigo Testamento, "justiça" é a expressão da fidelidade à Torah, da fidelidade à palavra de Deus, como não cessaram de a solicitar os profetas. É a perseverança no caminho indicado por Deus, cujo centro é formado pelos Dez Mandamentos. No Novo Testamento, o equivalente de justiça é a "fé": o crente é o "justo", que percorre os caminhos de Deus (SL 1; JR 17,5-8).»

A justiça, no seu sentido mais profundo, contém o sentido de perseverança, do cumprimento na liberdade, numa correspondência recíproca do cristão ao amor de Deus na ação, à imagem de Jesus. Como Bento XVI continua, «uma vez que a fé é caminhar juntamente com Cristo, no qual a Lei encontra o seu pleno cumprimento, aquela [a fé] une-nos à justiça do próprio Cristo».

Urs von Balthasar, o grande teólogo alemão do séc. XX, ao falar das bem-aventuranças e da dignidade humana, fundamento da justiça, apresenta-nos um aspeto importante na perspetiva de Cristo. Explica-nos ele que à semelhança do Deus feito homem na descida do Filho de Deus, assim a justiça acontece em primeiro lugar como aproximação ao outro.

Com base na parábola do bom samaritano, von Balthasar acede à motivação mais profunda da justiça para Jesus: «O facto de Jesus, na Sua parábola, ter atribuído precisamente ao samaritano o ato de amor do próximo, é amargo para o judeu que o ouve e lhe pergunta quem é, então, o seu próximo. Ele [o judeu] pensa em determinada categoria de pessoas, perante as quais se sente obrigado a especiais serviços. Mas Jesus troca-lhe as voltas. O seu pensamento toma como ponto de partida não o dever, mas a necessidade do outro: "Qual destes três te parece ser o próximo daquele que caiu sob o assalto dos ladrões?" Aquele, naturalmente, que se aproximou dele, se identificou com a sua miséria, e assim, consciente ou inconscientemente, imitou a própria proximidade de Deus.»

No dia a dia, a prática da justiça aplica-se às ações que realizamos quer na nossa relação com Deus na prática dos sacramentos, da oração e da leitura da Palavra, quer na nossa relação com os outros que são reflexo da nossa relação com Deus, à luz das palavras da Primeira Carta de São João: «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.»

Segundo a teóloga portuguesa Maria Cortez de Lobão, «no nosso quotidiano existem talvez principalmente dois tipos de apelos ao sentido de justiça. Um reside nas grandes causas e outros nas nossas relações com o próximo.» Em relação ao primeiro, a teóloga refere a facilidade com que atualmente temos a possibilidade de auxiliar as causas para acabar com os grandes problemas globais como a fome, a opressão, a violência, alertando contudo para o perigo do distanciamento dos que nos são próximos.

Em relação às relações com o nosso próximo, Maria Cortez de Lobão refere a ação justa nos pequenos pormenores do dia a dia, com a «família e amigos ou todos os anónimos com que nos cruzamos diariamente». E aponta soluções: «Dando atenção ao dia a dia, ao pormenor, valorizando cada indício, cada sinal, cada pessoa. Não por sentimento de culpa mas por solidariedade e amor à verdade. Porque a vontade de Deus é normalmente visível nas pequenas coisas. Se estamos distraídos, tudo corre ao nosso lado sem qualquer significado, deixando passar escolhas inadiáveis de que somos únicos responsáveis. Não há que ter ilusões: o quotidiano vai informando e alterando para melhor ou pior os nossos grandes princípios. É também uma questão de treino: não é possível fazer um ato de grande justiça se somos injustos nas pequenas coisas do nosso dia a dia.»

Paulo Paiva
Publicado em Igreja

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