Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012
 
   
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Pe. Marçal da Silva Pereira

Uma vida de braços abertos

Quinta-Feira, 02 Fevereiro 2012
A vida inspira-o. O entusiasmo leva-o a mobilizar cabeças e braços para os seus projetos. O espírito de iniciativa, por um lado, e a sensibilidade para gerir pessoas e obras, por outro, são características herdadas da família materna e paterna – «a família é fundamental na nossa estrutura psicológica», começou por justificar a força e a energia que lhe estão no sangue e o levam mais longe pela vida fora. Já lá vão 68 anos.

O tempo passa e o Pe. Marçal não tem tempo – passe a redundância – para pensar no tempo que o tempo tem. Envelhecer bem no mundo religioso implica que se mantenha «o encanto pela missão». «O consagrado religioso não pode envelhecer, porque nós somos missionários. É melhor envelhecer na vida consagrada no meio do trabalho e das dificuldades. Amar a vida é vê-la como construtora de valores. Se cada um colocar diante de si a missão para a qual foi chamado a realizar, despertará para o mundo e para um tempo novo», afirma o missionário claretiano num tom de voz convicto e contagiante.

Ao diretor do Lar Juvenil dos Carvalhos, em Pedroso, concelho de Vila Nova de Gaia, sobra-lhe pouco tempo para pensar que já chegou à chamada terceira idade. «Não estou mentalizado para a idade que tenho. Com a minha idade, eu teria a tendência de olhar unicamente para trás e vejo que, em algumas comunidades religiosas, se vive da conversa do passado. Eu olho para o meu dia a dia e não posso estar a olhar para trás. Todos os dias exigem empenho e atenção em cada uma das situações. Cada dia é um desafio. Nenhum dia é igual ao anterior.»

A estrada da vida não é em linha reta – e, dia após dia, há novas metas para o Pe. Marçal. Não importa se o caminho é fácil ou difícil. O seu critério está na pergunta se vale ou não a pena avançar. E vale mesmo a pena subir a montanha e avistar o futuro de jovens que hoje estão em risco e amanhã podem ser homens de exemplo.

«Não estamos para os meninos de bem»

Os portões do Lar Juvenil estão escancarados e é preciso subir uma colina. As flores ladeiam-nos e revelam, logo ali, uma sensibilidade com perfume de rosas. Muitas daquelas plantas vêm de hortos que já não as querem. Iriam para o lixo se não fossem aproveitadas para o jardim daquela casa de 117 menores em risco. Curiosa analogia: flores que seriam deitadas fora se não fossem ali parar, tal como aqueles rapazes...

«O Lar Juvenil é para mim uma pérola porque não há muita gente que se queira dedicar àqueles que "não prestam para nada". Não me têm faltado forças, graças a Deus. O encanto da missão é saber que não estamos para os meninos de bem. Nós estamos para aqueles que têm dificuldades na vida, porque não têm uns pais capazes, uma sociedade capaz e não têm um equilíbrio capaz de descobrir que o futuro é deles», diz, sem assombros, o Pe. Marçal.

Educar é crescer – lê-se pelo caminho acima até se chegar ao lar. Mesmo à entrada da casa vê-se uma escultura em pedra de um homem em construção. Por baixo o logótipo da instituição que mais parece um boneco com uns contornos curiosos e a língua de fora, onde também se podem ler as palavras Subindo a Montanha. O Pe. Marçal explica o que está por detrás daquela simbologia: «A estrada da vida tem altos e baixos, curvas e contracurvas. Parece que a pessoa se vai estatelando e fica com os olhos arregalados e a língua de fora como sinal de sofrimento. Subir a montanha tem a ver com o caminho, sempre íngreme, que fazemos com estes rapazes pelas problemáticas que nos trazem: o roubo na escola e em casa, a droga, a mentira...» E nesta montanha da vida, onde estará situado o Pe. Marçal? «Estou no meio... no meio das pessoas com quem todos nós somos chamados a viver na nossa missão», responde.

Não raras vezes chamam a este missionário de louco, que corre pela vida fora como se não houvesse tempo a perder. Só lamenta que haja outros que tenham feito perder tempo àqueles jovens: «Está previsto que os miúdos entrem a partir dos 5, 6 até aos 21 anos. Hoje vêm-nos rapazes dos 12 aos 21. Estes jovens deveriam meter no tribunal o Governo por lhes ter proporcionado um abandono total a nível social – só agora é que descobriu que aqueles rapazes deveriam vir para uma instituição.»

Apesar de nunca ter escrito nenhum livro, o Pe. Marçal sabe que a obra que fez – e continuará a fazer – está impressa na vida das pessoas, como a de alguns antigos alunos que o procuram para batizar os filhos. O missionário diz que tem «uma relação estupenda» com os jovens do lar, apesar de, lá fora, poucos os suportarem. Ali dentro quer ajudá-los, juntamente com a sua equipa, a descobrirem por si próprios as coisas de uma vida vivida com sentido. Para lá da instituição. «A nossa missão é ajudar a descascar a beleza que está, afinal, naquela pessoa.»

Uma missão sem prisões

O Pe. Marçal não diz que "não" a uma boa iniciativa, seja ela qual for, e rodeia-se sempre de jovens voluntários, que têm uma mente mais aberta para a novidade, e o acompanham em todos os projetos. Por isso não gosta de ouvir quando falam mal da juventude de hoje.

Enquanto conversamos, alguém bate à porta. É o Diogo, um jovem de 18 anos, que vinha ver televisão antes do almoço. A ocasião é aproveitada para lhe perguntar o que tem feito desde que entrou no lar, aos 16 anos. «Vim para o lar contrariado, vivia num bairro... Tinha os meus vícios, fumei tudo, andava nas drogas, mas pronto... Na escola fui suspenso e cheguei a ser expulso», começa por contar. O Diogo confessa que o Pe. Marçal «foi o pai» que nunca teve. «Ele sabia falar comigo, explicar-me as coisas...», lembra o jovem que hoje está a acabar o secundário. «Nunca na vida tive a noção de que ia chegar ao 12.º ano.» Quando sair dali, leva projetos de vida para concretizar: «Quero trabalhar e ter a minha família.»

Este sacerdote, que se faz sempre acompanhar pela juventude, chegou também a visitar um concorrente da primeira edição do Big Brother na prisão: o Mário.

No ano do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações, o missionário claretiano recorda aos religiosos: «Que não fixemos a nossa missão na prisão das estruturas, mas que nos fixemos mais na doçura do coração, na sensibilidade e na atenção daquelas pessoas que andam à nossa volta e que esperam de nós outra palavra e outro estilo de vida.»

Sílvia Júlio
Publicado em Igreja

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