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Virtude teologal

Uma fé viva

Quinta-Feira, 02 Fevereiro 2012
«Eu acredito!» foi o mote de centenas de jovens aquando da visita de Bento XVI a Portugal em 2010. De certo modo, era parecido com o slogan «Eu vou!» dos concertos Rock in Rio. No primeiro, porém, temos um conteúdo que revela uma outra atitude. «Eu acredito!» implica uma atitude de fé. Mas o que significa dizer «Eu acredito»?

O cristão acredita a partir de um acontecimento indecifrável. No entanto, acreditar implica uma decisão, e, por isso, definimos esse momento decisivo como o momento em que começamos a acreditar. Assim, a fé acontece na nossa própria vida humana, no concreto da nossa realidade. É importante compreender que ela não provém de um cálculo, nem corresponde ao resultado de uma fórmula matemática, discursiva ou mágica. Ela também não é uma consequência de uma ação que possamos fazer de forma mecânica ou automática. A fé provém sempre de uma correspondência.

Podemos ler no Livro do Génesis, no episódio da vocação de Abraão, um dos melhores exemplos em que podemos entender como a fé acontece. É um relato surpreendente em que, sem qualquer indicação de tempo e de lugar, e sem qualquer explicação detalhada sobre o acontecimento revelador, o relato da vocação de Abraão nos conduz diretamente para o encontro entre Deus e o homem: «O Senhor disse a Abrão: "Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas." Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera.»

Neste episódio, perante a revelação de Deus, Abraão não vacila, nem questiona, e parte para uma terra que não sabe qual é. O Senhor irá indicar-lhe depois qual é essa terra, sem que ainda não possamos entender muito bem, assim como o próprio Abraão, como será que isso vai acontecer. No entanto, ele parte e é por isso que a forma como Abraão se entrega ao convite de Deus, num total desprendimento de si, faz dele o pai de todos os crentes das três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islão.

«Quando o ser humano encontra Deus passa a contar com uma nova presença na sua vida», afirma o padre e teólogo jesuíta Domingos Terra, num texto intitulado Fé, Revelação e Teologia. É com isso que Abraão conta, ou seja, com a presença de Deus, que lhe irá indicar a Terra Prometida.

Como na história de Abraão, podemos reparar que o mesmo acontece com Maria. Ambas as histórias mostram-nos de uma forma maravilhosa como Deus dá sempre o primeiro passo, como Ele toma a iniciativa. E como, ao mesmo tempo, o ser humano corresponde, assente, escuta, enquanto Deus lhe fala.

A fé é um encontro

Quando nos perguntam sobre aquilo em que acreditamos, temos a tendência para falar da nossa fé como um conjunto de conhecimentos – acredito em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo; acredito que Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, e que para a nossa salvação foi condenado, morto e sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, e podíamos continuar... E, de facto, é nisto que os cristãos acreditam. Mas acreditar é mais do que saber aquilo em que se acredita. A fé é um encontro. Não é um encontro que acontece no pensamento ou numa sensação de paz e tranquilidade que porventura se possa sentir, mas no coração, ou seja, um encontro que está no centro da vida. Como Domingos Terra escreveu: «Não seria correto pensar a revelação de Deus como um acontecimento que vem acrescentar substância. Descobrir Deus significa, em grande medida, redescobrir-se a si próprio.»

«O acontecimento revelador de Deus não vem apenas reforçar aquilo que a pessoa já é. Questiona-a seriamente e propicia uma transformação da sua existência. Com esse acontecimento, altera-se a compreensão que a pessoa tem de si mesma. Nasce também a exigência de alterar a forma de se posicionar na vida», acrescenta.

Quando se diz que a fé deve ser uma fé viva, é porque não importa apenas afirmar aquilo em que se acredita, mas importa, isso sim, a forma como no concreto da existência se dá a vida a essa fé. Olhemos novamente para Abraão, que sem qualquer segurança senão a que depositou em Deus, cheio de fé, se lançou a caminho da Terra Prometida. Olhemos para Maria, que sem pensar muito aceitou a vontade de Deus com o seu «seja feita a Vossa vontade».

Olhemos, finalmente, para Jesus, que no centro das opções que lhe foram apresentadas quando estava no deserto optou pela fé, pelo amor e pela esperança, e começou depois a anunciar o Reino de Deus. E mais tarde, quando Jesus rezava no jardim de Getsemani na noite antes de ser crucificado, disse: «Faça-se a Tua vontade e não a minha.» A fé é um encontro pessoal com Deus, e partir deste encontro, confiar no Seu amor.

Walter Kasper, cardeal alemão e presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, escreveu no seu livro Introdução à fé: «A fé refere-se a pessoas, não a razões objetivas. Constitui um ato pessoal de confiança e estabelece uma vinculação mútua de pessoas. Como ato pessoal, envolve, na unidade original que lhes é própria, o entendimento e a vontade no conjunto da pessoa humana, porque é um ato do homem uno e total.»

Se olharmos para um homem e uma mulher que se amam, existe uma certa "química", uma espécie de laço que os une e que lhes modifica a vida, movendo-os a querer o bem do outro. Como sabem eles que existe entre si tal ligação? Como percebem o fio invisível os une? «O amor cria um vínculo exclusivo entre duas pessoas» diz-nos o Card. Walter Kasper, «e só para elas tem "evidência"».


Para duas pessoas que se amam, há uma evidência – não uma prova – mas uma evidência inegável e que pode levar até às últimas consequências quanto maior for o laço que as une.

No filme, Contacto, uma adaptação do romance escrito pelo cientista Carl Sagan, uma das cenas apresenta a personagem principal, a cientista Eleanor Arroway, em conversa com o seu amigo, o Pe. Palmer Joss. A determinado momento, Eleanor pergunta-lhe sobre a sua fé na existência de Deus: «Como sabes que não te estás a iludir? Eu preciso de uma prova para acreditar.» «Uma prova...», responde-lhe Palmer apreensivamente, e após uma breve reticência, continua: «Amas o teu pai?»

«Sim, amo-o muito», respondeu Eleanor. «Da-me uma prova de que o amas», responde-lhe o Pe. Joss olhando-a nos olhos. Eleanor fica desarmada e sem resposta, compreendendo que não consegue provar aquele amor tão único e tão verdadeiro que sente pelo seu pai.

De facto, Bento XVI escreve na obra Introdução ao Cristianismo: «Somente através de uma conversão longa como a vida, é que podemos ter consciência do que vem a ser "eu creio".» Isto significa que a fé é uma correspondência a Deus e com Deus, que não se dá num único acontecimento, mas na própria história que vivemos, ou seja, durante toda a nossa vida que começa já até à eternidade.

Paulo Paiva
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