Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012
 
   
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O valor da vida nos «media»

A violência informa alguém?

Quinta-Feira, 19 Janeiro 2012
Todos conhecemos algum momento em que desviamos o olhar da televisão ou viramos a página da revista porque as imagens que passam são desnecessariamente violentas. Em Portugal ou no estrangeiro, observamos mortes de líderes ditadores ou violência escolar entre adolescentes à hora em que a família se senta à mesa para partilhar uma refeição. Precisamos nós deste tipo de jornalismo, ou a informação pode ser dada sem submeter o público consumidor de informação a uma violência exagerada? Os órgãos de comunicação social da Igreja marcam a diferença neste campo.

A morte de Khadaffi às mãos dos rebeldes líbios. As alunas que espancaram uma colega com pontapés em Lisboa. Um grupo de adolescentes que maltrata um rapaz nas ruas de Gaia. A morte de Saddam Hussein na forca. Acontecimentos fortes que foram acompanhados de imagens chocantes, passadas em horário nobre sem qualquer filtro, exceto o aviso prévio do jornalista: «As imagens que vamos ver podem chocar algumas pessoas mais sensíveis.» Em seguida, passam e repassam imagens que, conforme estão, não seriam passíveis de rodar naquele horário caso estivéssemos a falar de filmes.

Precisamos de ver aquelas imagens para melhor ficarmos informados? D. Pio Alves, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo auxiliar do Porto, considera que não. «Esses são claros exemplos de excesso, levados, às vezes, ao extremo do mórbido insuportável. Custa-me a acreditar que ainda haja alguém (normal!) com vontade de rever essas cenas. E, contudo, com os mais fúteis pretextos, continuam a passar», acusa o prelado, que atribui a responsabilidade a quem possa «regular o equilíbrio destas situações». «Tudo dependerá, em última instância, da categoria profissional dos comunicadores», considera.

Um tratamento diferente

A decisão sobre a transmissão de imagens ou sons potencialmente chocantes não implica, no entanto, que esses assuntos sejam ignorados. D. Pio Alves considera ser esse um pormenor a relevar. «Numa sociedade democrática, essas notícias não podem nem devem ser escondidas. Mas os conteúdos devem ter apenas o suporte mínimo imprescindível de imagens chocantes. Em qualquer caso, o aviso não deve ser omitido», reforça o bispo auxiliar do Porto. Para a realidade dos órgãos de comunicação social católicos essa é uma questão de princípio também. «Nós aqui temos esse problema bem resolvido, porque evitamos em qualquer circunstância passar imagens ou sons chocantes. Preferimos percorrer o caminho por outro lado, e contar o que se passa às pessoas, evitando elas terem de se confrontar com essas imagens e sons», explica Raquel Abecasis, subdiretora de informação da Rádio Renascença (RR), que explica que a RR não se furta a dar as notícias que marcam a atualidade. A diferença está, diz, no tratamento.

«Na morte do Khadafi, foi descrito que as imagens estavam a passar, mas não as passámos. No caso das jovens que pontapearam outra colega, não passámos de todo esses sons, mas descrevemos as situações. Situações dessas, em escolas ou mortes, situações de fronteira e que se expõem imagens mais chocantes ou de alguma violência gratuita, sem que isso contribua para aumentar a informação das pessoas, não passamos. Dizemos que está a dar polémica, mas não expomos as pessoas a essas imagens e a esses sons», defende, criticando quem o faz. «As pessoas gostam de ver, mas não é para se informarem, é quase para se desformarem. Podem saber que o Khadafi foi encontrado morto na Líbia, podem saber todas as informações objetivas sem terem de se expor a essas imagens. É uma questão de poupar as pessoas e, neste caso, de respeito pelo ser humano, seja ele quem for», defende a jornalista.

Para o diretor da revista FAMÍLIA CRISTÃ (FC), o Pe. Agostinho França, «a notícia é um facto novo e interessante. Mas o facto é que se consideram interessantes apenas (ou quase) os atos que envolvam violência. Se assim não fosse, transmitir-se-iam todos os dias atos de benevolência e altruísmo praticados pelos cidadãos. Esses atos acontecem na sociedade, mas não passam no crivo dos diretores de informação ou não estão de acordo com os objetivos comerciais ou de captação de audiências dos canais de TV», defende o sacerdote, que concorda com Raquel Abecasis no que toca à escolha das imagens, sons e, no caso da revista FC, fotos. «Não se pode escapar à realidade. Todavia, é sempre possível salvaguardar a escolha de ângulo de captação das imagens, a seleção das mesmas para visionamento e o conteúdo do comentário. E também é possível controlar o tempo e insistência de repetição das imagens. Não é necessário tornar ainda mais macabra uma notícia que por si mesma já contenha uma carga de desumanidade e barbaridade sem medida», argumenta o sacerdote paulista.

Exploração da notícia negativa

Raquel Abecasis considera que a RR tem uma linha editorial que lhe «facilita a vida», já que não permite sequer considerar passar determinado tipo de imagens. No entanto, a jornalista diz que seriam os próprios ouvintes os primeiros a queixar-se, caso a rádio passasse sons ou imagens (no seu sítio Web, que agora apresenta jornais diários) nitidamente chocantes. «Acho que os nossos ouvintes não esperam que a Renascença mostre isso, e no dia em que decidíssemos mostrar, não teríamos uma boa reação. Nós temos essa tarefa facilitada, porque as pessoas sabem o que esperam da nossa rádio», diz a subdiretora de informação.

D. Pio Alves reforça as opiniões destes dois jornalistas, referindo que, na sua opinião, os órgãos católicos «marcam a diferença» neste campo. «Os media com ligação mais ou menos formal à Igreja Católica não têm, pela sua especificidade, muitas oportunidades para exercitar estes cuidados. Nas exíguas situações em que lidam com este fenómeno penso que, geralmente, marcam a diferença. Repare que o adjetivo "católico" não é limitador da liberdade. O "sim" ou o "não", "este ou aquele" modo de tratamento da notícia dependerão da especificidade temática do órgão e da qualidade profissional do jornalista», afirma o prelado, que acrescenta que passar notícias que são negativas não é a única opção de quem informa.

«Dou-lhe um exemplo real: num ambiente como o da nossa sociedade em que são tão abundantes os divórcios, por que razão não é notícia uma celebração pública, com mais de mil pessoas, em que centenas de casais celebram as suas bodas de prata, de ouro, de diamante de matrimónio? Infelizmente, a notícia já não deveria ser o divórcio mas a fidelidade. Sem favor, porquê não foi notícia?», questiona o bispo responsável pelas Comunicações Sociais da Igreja em Portugal.

Este tipo de jornalismo, mais positivo, parece por vezes fugir da nossa realidade em Portugal. D. Pio Alves fala numa «tendência para a exaltação – ou até exploração – da notícia negativa». Raquel Abecasis reconhece o problema. «Eu compreendo a afirmação de que faz falta um jornalismo positivo, e nós tentamos, mesmo nestes tempo difíceis que se vivem, caldear os nossos noticiários com outros temas, menos deprimentes, fugindo um pouco ao tema de crise. Mas nem sempre é fácil ou possível, porque por vezes a realidade é o que é, e portanto há informações que as pessoas têm de saber porque fazem parte das preocupações de toda a gente», defende a jornalista.

Na FC, o Pe. França sustenta que o jornalismo positivo é uma realidade já nos dias de hoje. «A revista pratica um jornalismo positivo: noticiando aquilo que edifica e promove o "homem" e a sociedade; dando visibilidade aos valores da fé cristã e que são a matriz religiosa e cultural do nosso País e da Europa; trazendo à ribalta o que é de bom exemplo e nobre; fugindo a tudo o que empobrece e devassa a mente a vontade e o coração dos homens», defende o diretor da publicação.

Jornalismo positivo

Mas será este um tipo de jornalismo que pode encontrar mercado? «Se tiver qualidade, é vendável. A difusão dos valores, a pregação do Evangelho, deve tender a ser financeiramente sustentável. Caso contrário, não justifica a sua existência (não chega aos destinatários) e morrerá à míngua», afirma.

Raquel Abecasis chama a atenção para o que se pode entender por jornalismo positivo. «A questão do jornalismo positivo passa também por mostrar boas notícias dentro das más. As pessoas querem ouvir histórias de pessoas que deram a volta a crise, por exemplo, e nós damos isso também. Uma empresa que nesta altura consegue ter sucesso é notícia, apesar de não ser imediata. Temos de dar notícias do que acontece, mas também do que se está a fazer para resolver», indica a responsável da RR.

Não está em causa, portanto, o direito à informação ou o encobrimento de factos gravosos e negativos. Os escândalos, as mortes, as denúncias, devem ser todas noticiadas, mas não necessariamente expondo os leitores, ouvintes e telespectadores a um voyeurismo que, conforme foi dito pelos nossos entrevistados, não acrescenta nenhuma informação válida à notícia. A pergunta que fica, portanto, é: São as pessoas que pedem esse voyeurismo e lhe dão validade, ou serão os órgãos de comunicação social os responsáveis por introduzir essa necessidade de ver o que já é mau sem imagens ou sons na mente das pessoas? Se são, como podem as pessoas bater o pé e afirmar que não pretendem pactuar com esse tipo de jornalismo?

Ricardo Perna
Publicado em Igreja

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