Muitos reconhecem o nome, poucos saberão o que faz na verdade. Foi com base neste pressuposto que entrevistámos Américo López-Ortiz, presidente do Apostolado Mundial de Fátima (AMF). Por isso, foi preciso uma longa conversa onde se falou da história do movimento, da aprovação pela Santa Sé, dos desvios à mensagem «autêntica» de Fátima... e de Maria, a força que faz estes apóstolos levarem o nome de Deus aos quatro cantos do mundo.
FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – O que é o Apostolado Mundial de Fátima?
Américo López-Ortiz (A.L.O.) – O AMF é uma associação pública de fiéis de direito pontifício, cuja missão é a Nova Evangelização, utilizando como instrumento a autêntica mensagem de Fátima. Estamos em 110 países do mundo, somos 20 milhões de membros e temos o centro aqui em Fátima, Portugal, na Secretaria Internacional na casa Domus Paci. É a resposta dos fiéis aos pedidos da Santíssima Virgem Maria que apareceu aqui em Fátima. É um movimento apostólico que tem por objetivo a formação dos leigos da família, dos sacerdotes e das pessoas na vida consagrada, através da mensagem autêntica de Fátima, e enfatizo o autêntica, porque é importante que não se confunda com os desvios que existem a esta mensagem.
FC – Foram reconhecidos como associação pública de fiéis. Era algo que já esperavam?
A.O.L. – Sim. O Santo Padre concedeu por decreto do Conselho Pontifício dos Leigos no dia 7 de outubro de 2005 a aprovação deste novo estatuto. Cinco anos mais tarde, depois de passar o período regulamentar de ser apostolado ad experimentum, a 7 de outubro de 2010, o Papa produziu um decreto aprovando permanentemente, ad pertetuam, os estatutos internacionais do AMF, colocando o Apostolado no mais alto grau de reconhecimento que a Igreja Católica concede.
FC – O que é que este novo estatuto pode significar para o Apostolado?
A.O.L. – Antes de mais, é um grande reconhecimento, privilégio e distinção pelo trabalho realizado em todas estas décadas para difundir a mensagem de Fátima em todo o mundo. Calcula-se que em determinado momento o Apostolado teve 20 milhões de membros (9'50''), o que o torna uma das maiores associações em todo o mundo. Para nós representa um grande compromisso, uma grande responsabilidade, porque a partir desta aprovação permanente, o Apostolado fala em nome da Igreja, não como uma associação de orientação católica, mas como a Igreja propriamente dita, e por isso tem uma maior responsabilidade de espalhar a mensagem autêntica de Fátima, em consonância com a Nova Evangelização, que é a tarefa de toda a Igreja Universal.
FC – Como é o trabalho do AMF?
A.O.L. – O nosso trabalho consiste em levar a todas as comunidades cristãs, não apenas católicas, a todos os movimentos apostólicos, a todas as dioceses católicas e ortodoxas do mundo a mensagem de que o Evangelho de Jesus Cristo deve ser praticado, anunciado com uma grande força e de uma nova maneira, através do testemunho carismático dos cristãos. Só quando os nossos irmãos de outros credos e confissões, os agnósticos e os ateus virem como os cristãos se amam entre si, como amam os necessitados, como têm uma solidariedade para com os mais necessitados, como libertam de forma verdadeira os oprimidos, só aí haverá um só rebanho e um só pastor, porque o anúncio do Evangelho de Cristo nos nossos dias é como um novo anúncio, uma nova metodologia, sempre anunciando as novidades perenes do nosso Evangelho. A mensagem de Fátima é o instrumento ideal para atingir esse objetivo, portanto a nossa tarefa hoje é compartilhar a espiritualidade do movimento de Fátima com todos os fiéis, os movimentos apostólicos e todas as comunidades cristãs, para enriquecer a sua vida. Não têm de ser novos membros do Apostolado, mas têm de enriquecer a sua vida cristã.
Um instrumento de força
FC – Como é que surgiram estes grupos em todo o mundo? Estratégia ou iniciativas particulares?
A.O.L. – Ambas. Por um lado o AMF, organizado em seis regiões em todo o mundo, tem centros em todas as regiões e surgem lá missões para levar a mensagem de Fátima aos países que têm uma maior necessidade. Depois a mensagem de Fátima vai-se difundindo e atraindo novas pessoas, que escrevem ao Secretariado Mundial aqui em Fátima perguntando como podem eles difundir e propagar a mensagem de Fátima, criando assim pequenos grupos de oração e apostolado, às vezes de três ou quatro pessoas, que depois se vão expandindo e aumentando, dando origem a grupos que obtêm o reconhecimento do bispo local e, se o crescimento o justificar, da própria Conferência Episcopal desse país. Os sacerdotes apaixonam-se por Fátima, porque veem em Fátima um instrumento de grande força para levar a cabo as tarefas da Igreja.
FC – Este reconhecimento da parte da Santa Sé pode trazer mais fiéis para o Apostolado?
A.O.L. – Agora com a força de que é uma associação pública de fiéis de direito pontifício, aprovada pela Santa Sé, esperamos que cresça ainda mais. O AMF está a passar por uma das fases de maior crescimento e expansão de toda a sua história, e isso deve-se às publicações nos meios de comunicação social. Temos um canal de televisão na Internet que opera a partir da Índia, na parte portuguesa de Goa (www.worldfatimatv.com), onde se oferecem informações de conferências, de como criar um grupo de apostolado, as mensagens mais importantes... através destes meios a mensagem difunde-se. Também já realizámos congressos mundiais em nove países, onde se expõe a mensagem de Fátima como instrumento para a Nova Evangelização. Como os agentes da pastoral vêm a estes congressos, ouvem a mensagem de Fátima.
FC – Estão presentes em países com menos liberdade religiosa?
A.O.L. – Estamos presentes em alguns desses países, onde há dificuldades, porque não há liberdade religiosa. Estamos na China, no Vietname, na Coreia e em Cuba, onde as condições melhoraram desde a visita de João Paulo II, mas não ficaram perfeitas.
FC – É fácil evangelizar nesses países?
A.O.L. – O que fazemos é anunciar a mensagem de Fátima como instrumento para dar a conhecer o Evangelho de Cristo, atualizado pelas necessidades dos nossos tempos. Os fiéis identificam-se de uma maneira especial com a mensagem de Fátima que anuncia a perseguição à Igreja, que anuncia o período de martírio, as condições do ateísmo que provocam que as sociedades se fechem perante Deus, denuncia o materialismo ideológico e o materialismo consumista e prático dos países do ocidente e da nossa sociedade, que falam em liberdade religiosa mas que vivem numa sociedade que virou as costas a Deus, que virou as costas ao Evangelho de Cristo, e se rege pelos prazeres mundanos num espírito antirreligioso, que chegou a tentar retirar Deus das constituições dos países e da cultura, que é o grande pecado dos nossos dias.
FC – E como vivem essas minorias a fé?
A.O.L. – Tive a oportunidade de visitar pessoalmente alguns destes países e posso dizer que o testemunho de vida de alguns destes irmãos cristãos é heroico. A fé e a prática religiosa são muito mais fortes e em alguns casos a Igreja é muito mais forte, para surpresa de alguns, porque os que praticam a fé cada dia a aumentam, sobretudo os jovens que estão à procura de respostas para o vazio existencial das suas vidas, já que o tipo de vida que a sua sociedade lhes propõe não lhes agrada. Eles são verdadeiro fermento e atraem outros jovens à fé pelo seu testemunho e vida e pelo seu exemplo. Vivem mais a fé que muitos nos países do Ocidente.
Um resposta ao vazio
FC – Considera que o AMF é mais dirigido a fortalecer a fé dos que já são cristãos ou a chamar pessoas que não são cristãs?
A.O.L. – Acho que é dirigido a todos sem exceção. Aos que já têm fé, para que saiam de uma vida de indiferença e se convertam em almas fervorosas e deem um passo à frente e se tornem almas de autêntica vida e testemunho, que buscam santificar-se. Também apela aos que não têm fé, pois é uma resposta aos males deste tempo. Ao não termos fé, atraímos sobre a nossa vida e a nossa sociedade os problemas sociais que temos, como a criminalidade, que é uma resposta agressiva de rebeldia contra o estado de vida da nossa sociedade. A mensagem é uma resposta ao vazio que estas pessoas sentem, pois apenas Deus pode preencher esse vazio e superar a grande crise moral, espiritual e económica deste nosso tempo. A crise económica tem as suas raízes nas desigualdades sociais que se vêm alastrando ao longo dos anos e sobretudo pela ambição egoísta de uns poucos que querem ter sempre mais.
FC – Esta crise mundial pode de alguma forma ajudar a aumentar de novo o número de fiéis nos países desenvolvidos, onde esse número estava em decréscimo?
A.O.L. – Estou convencido plenamente de que esta crise mundial económica é parte do castigo merecido pelos nossos pecados, e que vai servir sobretudo para que os países mais desenvolvidos voltem para Deus. Num ato de soberba inusitada, expulsaram Deus das suas constituições, e Deus não conta para nada, nem na cultura nem na sociedade. Ao verem-se privados dos valores que construíram estas sociedades, o que fizeram foi proclamar a supremacia do homem sobre Deus, e esse ato de profundo orgulho e vaidade tem agora a grande purificação de ver que os sistemas desenhados pelos homens não são perfeitos, fracassam e produzem grandes sofrimentos e grandes crises. Esta é uma oportunidade para que o homem se volte a pôr de joelhos perante o seu Deus e reconheça as suas limitações.
FC – O AMF tem expressão também em Portugal?
A.O.L. – Sim, através do Movimento da Mensagem de Fátima que está estabelecido em todas as dioceses de Portugal e aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa. O movimento assinou, através do seu presidente e diretor espiritual, D. Serafim, os estatutos internacionais e integrou o AMF, que é uma grande federação, um guarda-chuva debaixo do qual podem vir outros movimentos marianos, como está a suceder na Escócia, onde há um movimento mariano com 60 grupos formados que, ao conhecerem a aprovação pontifícia, resolveram juntar-se debaixo da sombra do AMF.
FC – Planeiam entrar em algum país específico a curto prazo?
A.O.L. – Alguns dos países com maior necessidade, onde nos pediram que fizéssemos trabalho missionário, é na Coreia do Norte, porque ali as condições para a prática da vida eclesial são verdadeiramente difíceis, para não dizer impossíveis, e tudo o que se possa fazer para trabalhar nessa direção pode ajudar. Também em África, onde a Igreja se está a expandir grandemente, temos enviado, através dos Camarões, que são um ponto de partida, pessoas aos países de África Central para divulgar a mensagem de Fátima, a pedido dos bispos.
FC – Como é que o AMF se está a preparar para o centenário das aparições?
A.O.L. – Na reunião do Comité Executivo Internacional decidimos que todos os esforços pastorais do AMF se vão dirigir a fomentar o itinerário temático de preparação espiritual para estes sete anos que o Santuário de Fátima preparou. Aqueles que pensavam que a mensagem de Fátima era algo do passado estão equivocados, porque a mensagem de Fátima é hoje mais urgente que nunca no mundo, e por isso a preparação espiritual para o aniversário do centenário é muito importante, a fim de que em Fátima ocorra o triunfo definitivo do Imaculado Coração de Maria. Por isso, precisamos de preparar um novo Pentecostes mariano, uma nova primavera para a Igreja, uma civilização de amor, que é o objetivo da Nova Evangelização. E tomar o horizonte de 2017 é maravilhoso, porque serve como estímulo adicional aos agentes de pastoral e aos apóstolos missionários em todo o mundo para melhorar a metodologia da pastoral para que se enriqueça com a espiritualidade de Fátima.
FC – Falou várias vezes na necessidade de passar a mensagem autêntica de Fátima. Há assim tantos desvios?
A.O.L. – Há desvios da mensagem de Fátima. Podemos vê-las em alguns casos, como por exemplo no movimento do Pe. Gruner, que se chama Cruzados de Fátima, e que difunde a ideia equivocada de que está por revelar um quarto segredo, que a Igreja guardou e escondeu do mundo. Pensar isto é terrível, porque implica que João Paulo II não foi sincero e ocultou à Igreja e ao mundo uma informação vital, e isso não é possível de pensar. Isso também implicaria que Lúcia não cumpriu com o seu papel de ser mensageira e apóstola do coração de Maria, revelando todos os segredos de Fátima. Outro desvio é a argumentação de que a consagração, realizada por João Paulo II em união com todos os bispos do mundo, do coração de Maria à Rússia, feita no dia 25 de março de 1984, não é suficiente e foi mal feita. Segundo eles, deve realizar-se de novo essa afirmação, segundo condições específicas. A isso temos de responder observando as grandes mudanças na Europa Oriental e a desintegração da União Soviética sem derramamento de sangue, que foi o grande milagre de Nossa Senhora de Fátima no final do séc. XX. Todos esses países que daí surgiram têm a oportunidade de viver e receber o Evangelho de uma forma livre. Não se trata de conversões mágicas ou automáticas, trata-se de dar as condições que estão postas agora para que estes países voltem ao Evangelho, voltem à Igreja.

