Terça-Feira, 21 de Outubro de 2014
 
   
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Avós

A história de uma família

Sexta-Feira, 01 Julho 2011
Os avós de ontem, de hoje e de amanhã foram, são e serão sempre pessoas importantes na vida dos netos para cimentarem os valores, as tradições e as histórias das famílias. Mas não podem viver só em função dos netos, coibindo-se de ter vida própria.

O casal Câncio Reis tem 27 netos com idades compreendidas entre os 3 meses e os 18 anos. José, 65 anos, e Carmo, 68, têm seis filhos, quatro raparigas e dois rapazes. As mulheres estão sempre em maioria na família, até já há mais netas que netos (16 meninas e 11 meninos).

O ponto de encontro do núcleo familiar é na casa dos avós – a «casa da brincadeira» para os netos. O sábado costuma ser dia sagrado, onde quase todos se reúnem à mesa – e fora dela. A distância geográfica de uma das filhas impossibilita que estejam, semanalmente, todos juntos – mas, ainda assim, são frequentes os encontros desta família de peso, apesar de «a casa não esticar», comenta a avó divertida.

O maior orgulho destes avós é sentirem que estão a conseguir passar os valores e a tradição aos descendentes. «Nós valorizamos a família e vejo que os netos também a valorizam, eles gostam de estar todos juntos», afirmam com satisfação.

Apesar das "guerrinhas" entre primos quando todos estão reunidos, José e Carmo estão em paz na condição de avós. «Como pai, era mais correctivo, chamava mais à atenção; em relação aos netos, isso é problema dos pais, e assim estamos mais à vontade a versar outros temas.» A disponibilidade afectiva e temporal permite que os avós tenham conversas mais profundas sobre as preocupações e interpelações que o mundo de hoje suscita aos mais novos. Os valores cristãos costumam ser discutidos em família, «até porque os miúdos têm de estar convictos das suas afirmações» na escola e nos ambientes que os rodeiam.

Relação de confiança

Dúvidas, há muitas! Os avós respondem. É o caso do aborto. Este é um tema várias vezes discutido, à medida que os netos vão entrando na adolescência. «Procuramos esclarecê-los, situando-os naquilo que será a posição cristã perante a sociedade e os amigos que os interrogam sobre a defesa da sua fé ou dos seus valores. Quando as pessoas não têm uma base, não se sentem livres para exprimir o que sentem. O que nós lhes incutimos é que os cristãos não estão contra nada, estão sempre a favor de alguma coisa – estamos a favor da vida», explica-lhes o avô.

A conversar, a perguntar, a responder, avós e netos desenvolvem uma relação de confiança. Mas nem sempre as respostas são fáceis de dar. O neto mais velho, que tem uma deficiência motora, e está com os avós desde bebé, porque os pais estão separados, é o que dispara as perguntas mais difíceis: «Porque é que Deus me fez assim? Deus devia estar esquecido quando me fez...» A avó tenta sossegá-lo, garantindo-lhe que «Deus não estava esquecido – e se fez isso tinha um motivo especial».

Carmo diz-lhe que «Nosso Senhor tem um fim para ele ser assim» e encoraja-o a ultrapassar os limites. O Pedro, assim se chama, está a tirar a carta de condução, faz vela adaptada e foi apurado para os Europeus. «Ele gosta da vitória», contam os avós.

O gosto pelo vento e pelo mar vem da tradição familiar. José transmitiu aos filhos e agora os netos o prazer do windsurf – e até já delega nos mais velhos a responsabilidade de ensinarem os mais novos. Os ventos correm de feição a estes avós que não se importam de levantar ondas, sem medo de magoarem os filhos. Embora sendo uns avós disponíveis, a Carmo e o José dizem que «não são escravos dos netos». A sexagenária conta que uma das filhas quando casou lhe disse que, quando tivesse filhos, seria a avó a cuidar deles. Ela logo lhe respondeu que não: «Quando for preciso, estou cá.»

Disponibilidade, sim, prender-se pelos netos e viver única e exclusivamente em função deles, não. O casal vai buscar alguns netos à escola quando uma das filhas está a trabalhar até mais tarde, dá o almoço aos que têm furos no horário escolar ou fica com alguns aos fins-de-semana quando os pais precisam de ir para fora – mas não existe um compromisso diário.

Influência positiva

«É preciso haver da parte dos pais das crianças algum equilíbrio. Os avós gostam de estar com os netos mas ao mesmo tempo têm outras coisas para fazer – e não têm de estar a cem por cento com os netos. Tudo se resolve se houver um bom diálogo entre pais e filhos ou com os sogros para se tentar perceber a limitação das outras pessoas», comenta Sónia Oliveira, que dá apoio psicológico a idosos nos centros de convívio da Junta de Freguesia de Cascais.

A psicóloga constata que os avós têm tido uma influência positiva na sociedade portuguesa: «Hoje em dia ainda mais», reconhece, «porque em muitas famílias acabam por estar mais presentes pelo papel activo que têm na educação dos netos, vão buscá-los à escola, alguns acabam por participar nas reuniões de pais em substituição dos próprios pais que estão a trabalhar, e acabam por ser um veículo importante de afectos, de passagem de valores, histórias, experiências...» Os avós são um importante porto de abrigo afectivo – e muitas vezes financeiro – para as famílias.

Sónia Oliveira, que também está no Núcleo de Psicologia do Estoril, tem reparado que são muitos os avós que acompanham os netos às consultas pela falta de disponibilidade dos pais e atesta que, por vezes, são eles que assumem as despesas, até mesmo o pagamento dos colégios.

«Numa sociedade como a portuguesa, os avós assumem geralmente de boa vontade as suas responsabilidades e, na medida das suas capacidades, ajudam bastante os filhos e os netos, ao mesmo tempo que retiram disso satisfação tanto maior quanto menores são os seus interesses próprios enquanto seniores, ao contrário do que se passa em países mais desenvolvidos onde a autonomia dos adultos e dos jovens relativamente aos pais é avós habitualmente maior», diz Manuel Villaverde Cabral, director do Instituto do Envelhecimento.

O sociólogo considera que o tema avós e netos ainda está mal estudado em Portugal e explica que o nosso país segue a evolução dos países da área geocultural sul-europeia, com a passagem do avô rural a um avô urbano com funções não muito diferentes de guarda das crianças pequenas e afastamento gradual à medida que estas crescem. E acrescenta que o fosso sociocultural entre gerações tenderá a ser, em Portugal, «tanto maior quanto maior for a diferença de níveis de instrução mas também a distância geográfica (campo-cidade, Portugal-estrangeiro)». Contudo, «os novos seniores tenderão a ser mais activos e empreendedores do que as gerações mais antigas, pelo que isso concorrerá para uma relação de maior proximidade intergeracional, isto é, entre as três gerações e não apenas entre velhos e crianças», conclui Villaverde Cabral.

Sónia Oliveira confirma no terreno que «os netos começam a ver uma terceira idade, pouco idosa, activa e com muita coisa ainda para fazer».

Estes avós não consideram que a reforma é apenas para ficar em casa; passeiam, têm actividades nos centros de convívio ou outras estruturas onde aprendem informática, inglês, artes decorativas, Arraiolos, fazem ginástica, ioga. Aprendem a linguagem dos mais novos e usam os meios dos mais novos – e isso acaba por os aproximar. «Os avós mexem na Internet, vão ao Facebook, enviam mails. Já são mais próximos das coisas que os netos fazem», confirma a psicóloga.

No caso da família Câncio Reis, os netos até costumam perguntar ao avô coisas relacionadas com computadores, até porque este trabalhou na área da informática. Carmo e José são uns avós modernos aos olhos dos netos por gostarem de dar umas voltas de mota. Não raras vezes os netos gostam de lhes dizer em jeito de brincadeira: «Lembrem-se de que são avós!»

Cimentar os valores

Conflitos e divergência de opiniões nesta e noutras famílias também existem, sobretudo nas questões educativas. Mas o segredo para estes avós é «darem a opinião só quando pedem».

«Nunca me meti em casa dos meus filhos a dar as minhas ordens. Vou lá quando me convidam ou precisam de alguma coisa. Se tiverem algum problema, podem perguntar e podemos aconselhar da melhor maneira, porque somos sempre pais», partilha a avó Carmo a sua maneira de encarar esta situação.

«Todos os nossos filhos têm a chave da nossa casa, mas nós tocamos à porta dos nossos filhos. Respeitamos muito aquele território. Acho que alguns problemas de relacionamento entre pais e filhos que vemos em amigos nossos vêm de uma certa intromissão», sublinha o avô José.

Os avós «têm de perceber que só podem interferir até determinado limite», realça a psicóloga, que considera que os avós não são pais duas vezes: «Se são pais duas vezes estão a educar os filhos, os netos – é uma confusão de papéis. Os netos têm os seus pais, não pode ser dada essa responsabilidade extra aos avós», frisa.

Uma responsabilidade assumida pelos avós Câncio Reis é ajudar a cimentar os valores da família – um deles é ensinar a respeitar o pão de cada dia e a rezar antes das refeições. Numa das vezes em que foram almoçar a um restaurante, quem falhou foi o avô com receio de se expor ao ridículo. Mas como os mais novos cobram sempre aos mais velhos aquilo que estes exigem, ouviu-se de um canto da mesa alto e em bom som: «Então, avô, hoje não se reza?» José viveu aquele momento com a alma cheia porque os netos perceberam a mensagem e ele também aprendeu a lição do testemunho. Em qualquer circunstância.

Sílvia Júlio
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