Sábado, 26 de Julho de 2014
 
   
Texto

Nuno Lobo Antunes

«Eu celebro a vida»

Quarta-Feira, 13 Novembro 2013
Nuno Lobo Antunes é neuropediatra e escritor. Acredita que não há crianças problemáticas, mas sim com um problema. Tem uma vasta experiência profissional a lidar com crianças com perturbações do desenvolvimento. O médico conversou com a FAMÍLIA CRISTÃ e ajuda-nos a desmistificar o que está por detrás de um tema suscetível de criar tantos mal-entendidos.

 

Fala baixinho e devagar, com o cuidado de escolher as palavras certas. Cada família que lhe entra no consultório é um caso diferente e gosta de contar a verdade sem rodriguinhos – mesmo que o diagnóstico doa. Só quando se conhece a verdade é possível trilhar o caminho para o futuro daquela criança. No final da conversa, enquanto o fotógrafo lhe tirava o boneco, conta que hoje se diz, por dá cá aquela palha, que os miúdos são preguiçosos – é errado: «Existem miúdos que têm dificuldades, que estão cansados do falhanço e de não se mostrarem competentes ou competitivos e, depois, desistem. A preguiça é o resultado da experiência do falhanço. Dizer-se que são preguiçosos, imaturos – isso não explica nada, é preciso saber porque é que não têm as competências para a idade.» Eis algumas palavras que podem ficar a fazer eco entre pais, professores, educadores e pediatras.

FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – Tem afirmado que não há crianças problemáticas, mas sim crianças com um problema. Parece estar em contracorrente numa sociedade que diz à boca cheia que as crianças de hoje são muito problemáticas.
Nuno Lobo Antunes (N.L.B.) –
O meu papel como médico e como pessoa no quotidiano não é julgar. O papel do médico é perceber o que leva uma criança a ter determinado comportamento. As crianças não querem ser mal sucedidas, não querem entristecer os pais, não querem que os professores sintam que são um fracasso. Portanto, se não conseguem é porque há algo que as impede de alcançar aquilo que são os objetivos de todos nós em termos de felicidade e de sucesso.
Quando eu era residente de neurologia nos Estados Unidos, alguém uma vez se queixou que uma mãe era difícil. E um médico mais velho disse: «Não é uma mãe difícil, é uma mãe que tem entre mãos um problema difícil.» Isso do meu ponto de vista como pediatra geral mudou-me completamente a perspetiva. Uma outra frase que se ouvia muito em pediatria era «a criança não colabora». E um outro médico disse: «Não conseguiste que ela colaborasse.» Esta inversão de responsabilidade é não só um exercício de humildade mas um exercício em que todos ficam a ganhar.

FC – Quantas crianças existem em Portugal com perturbações de desenvolvimento?
N.L.A. –
Os números deverão rondar a centena de milhar. São números muito impressionantes. Entre 5 a 7,5% da população escolar tem défice de atenção. Talvez 1 em cada 100 tenha uma perturbação dentro da família do autismo, 15% tem dificuldades da leitura ou da escrita – a maioria das quais tem dislexia.

FC – Quais as perturbações mais frequentes do desenvolvimento das crianças e dos adolescentes?
N.L.A. –
As dificuldades de aprendizagem específica como a dislexia, discalculia, disortografia e défice de atenção com ou sem hiperatividade são de longe as mais frequentes – e perduram na adolescência. Os problemas de comportamento em geral, nomeadamente o défice de atenção, as questões ligadas à ansiedade, serão talvez as mais frequentes na adolescência. Mas um aspeto que me parece importante referir é que a distinção entre grupos etários é claramente uma fronteira que o Homem fez de maneira artificial. Muitas vezes, as dificuldades prolongam-se, vão-se diluindo com o tempo sem que haja uma diferença marcada quando se soprar a vela dos 13 ou dos 18 anos.

FC – Há formas de prevenção para as perturbações do desenvolvimento?
N.L.A. –
A maior parte tem uma base genética. O impacto da genética é mais importante no aparecimento do problema do que o meio ambiente.

FC – Como é que as famílias podem ser lugares de esperança para estas crianças?
N.L.A. –
Uma família tem de ser sempre um lugar de esperança e um porto de abrigo. Muitos pais dizem-me: «Eu só queria que o meu filho fosse feliz.» Eu digo muitas vezes: «A felicidade do seu filho ou filha não depende de si. A infância feliz depende dos pais mas, passada a infância, a felicidade do indivíduo deixa de depender dos pais, passa a depender do próprio e de outras circunstâncias.» Portanto, os pais têm obrigação de proporcionar uma infância feliz, o que já não é pouco. Porque a memória dessa infância pode ser salvadora na idade adulta, por um lado. Por outro, [os pais] são responsáveis também por darem um amor incondicional, um amor sereno mas exigente. Em terceiro lugar, tem de ser um amor de disponibilidade, de estar sempre pronto para ouvir, de estar sempre pronto para acolher. Estas são no meu ponto de vista as três obrigações fundamentais de uma família.

FC – A memória salvadora da infância poderá ter repercussões na vida adulta?...
N.L.A. –
Eu fui muito marcado por uma história da qual fui testemunha. Era a história de uma mãe, cuja vida tinha sido um conjunto de acontecimentos terríveis, mas ela mantinha uma bonomia e um sorriso que me fascinavam pela serenidade e otimismo. Eu perguntei como é possível manter esse sorriso depois da hecatombe que lhe vai sucedendo. Respondeu-me: «Tive uma infância feliz.» Quando era necessário, ela recolhia-se às memórias da infância em que tinha sido feliz, habitava-as por um tempo e recuperava a energia, o otimismo e esperança para a vida. Aprendi uma grande lição.

FC – Ouço muitas famílias partilharem que se sentem desgastadas por terem um filho com perturbações. Esse estado de espírito é pesado para os pais.
N.L.A. –
É pesadíssimo. Depende dos casos. Algumas vezes os pais ficam reféns de uma criança com perturbações do desenvolvimento. Vamos imaginar uma criança com autismo e uma hiperatividade marcadíssima – de alguma forma, os pais deixam de ter vida social. Não têm uma escapatória, um momento de pausa, um momento de respirar fundo e isso repercute-se sempre na vida do casal sempre. O número de divórcios em famílias com hiperatividade, por exemplo, é três a cinco vezes a média da população em geral – e no autismo é enorme. É, de facto, um desafio muito difícil.

FC – Como é que estes pais podem ser ajudados?
N.L.A. –
O técnico tem de ter disponibilidade para ouvir quando os pais sentem essa necessidade. Depois há obviamente aspetos de ordem técnica, da correção do diagnóstico e atitudes. Eu fui oncologista durante muitos anos e tenho muito a ideia de que a medicina não é curar mas cuidar. Esse cuidar é um caminho que se faz lado a lado. Se os pais tiverem a noção que um técnico competente está a fazer esse caminho com eles, é a ajuda maior que podem ter.

FC – Os pais encontram sentido para a vida quando o filho tem um diagnóstico que sai fora dos parâmetros normais?
N.L.A. –
Eu acho que muitas vezes encontram no facto de terem um filho diferente um sentido para a sua vida. No geral, é mais uma razão de viver do que uma razão para interrogar. Pode-se interrogar do ponto de vista da religião ou da fé: «Porquê eu, porquê aquela criança?»...

FC – E o Dr. Nuno que lida há tantos anos com problemas tão graves, já encontrou o seu propósito de vida?
N.L.A. –
Seguramente que sim, agora com 59 anos de idade tenho um conjunto de valores e prioridades... Se calhar esses valores e prioridades não eram exatamente os mesmos há uns anos.

FC – O que mudou?
N.L.A. –
Mudou o convívio com a morte. Passei a detestar perder tempo. Não perco tempo porque não sei quando é que ele vai acabar. Isso foi algo que mudou. Alguns aspetos terrenos, alguma soberba, uma certa ideia de imortalidade que provêm da vaidade deixam de fazer sentido quando se lida diariamente com a morte. Por outro lado, o amor e os afetos assumem uma importância enorme, salvadora. Outra coisa que mudou, juntamente com a minha experiência oncológica, foi saber que há santos e heróis nas pessoas com quem nos cruzamos no dia-a-dia quando são postas à prova.

FC – Como é que se lida com tanto sofrimento?
N.L.A. –
O sentir com o outro é também altamente enriquecer e gratificante. Mesmo quando se chora há uma comunhão no sentido de humanidade e de partilha, há uma irmandade que também é reconfortante.

FC – Quando muitos pais saem do seu consultório sente vontade de chorar baixinho para ninguém o ouvir?
N.L.A. –
No geral, não. Os momentos de empatia devem acabar no momento em que os pais saem. Se calhar, chorei baixinho naquela hora, mas depois senta-se à frente outra família que quer uma resposta diferente e quer que eu esteja livre emocionalmente para fazer o trabalho com eles. Portanto, há um fechar de portas e um abrir de outras.
Ninguém pode colher dentro de si de forma sucessiva todas as dores do mundo.

FC – Mas há nos médicos uma vontade de terem a vida na mão, controlada...
N.L.A. –
Eu já deixei de ter isso. Já não quero ter tudo a qualquer preço. Quando era mais novo atirava tudo o que era antiepiléticos para cima de miúdos que tinham epilepsias difíceis porque tinha o objetivo de parar com as crises. Em termos de efeitos acessórios, sinto agora que não era o preço justo. Portanto, há esse equilíbrio que eu penso que vem com uma certa maturidade, um equilíbrio entre a intervenção terapêutica e o tratamento da doença.

FC – Consegue fazer um antes e depois relativamente à sua mudança de atitude na medicina?
N.L.A. –
A experiência oncológica foi determinante. Quando tinha muitos pais que diziam: «Então, isso quer dizer que não há nada a fazer?» Eu respondia: «Não, isto quer dizer que há muitíssimo a fazer.» Nós sabíamos qual era o fim, mas até esse fim havia muitíssima coisa a fazer. Tornar o final de vida menos doloroso, com mais companheirismo, compaixão, cuidado, desvelo e a presença do outro.

FC – Questiona amiúde os insondáveis desígnios divinos?
N.L.A. –
Já não. Porque para interrogar o divino era preciso que eu acreditasse no divino. Como não sou um homem de fé num criador, embora não me sinta como pessoa muito diferente de quem acredita. Não penso que os meus objetivos, a minha formação como pessoa, os meus valores sejam muito distintos de quem tem fé.

FC – O Dr. Nuno Lobo Antunes é também escritor. Que palavras ainda não foram escritas até agora sobre o homem que não é crente mas passa a vida a invocar o nome de Deus.
N.L.A. – Tive uma formação cristã e católica, e, portanto, se Deus quiser brota da minha boca com alguma insistência...[Hesitação] Eu celebro sobretudo a vida, o privilégio de existir, a oportunidade de ter tido esta experiência e o respeito por esta oportunidade que é, no fundo, o meu Deus.

FC – Quando é que não celebramos a vida?
N.L.A. –
Quando a desprezamos, quando olhamos para o sofrimento dos desempregados como uma percentagem, quando fazemos refletidamente coisas más.

FC – Já encontrou uma justificação para a nossa existência?
N.L.A. –
[Silêncio] Uma justificação como sentido único, não. Do meu ponto de vista cada um tem de justificar a sua existência, dar-lhe a dignidade que ela merece e na medida do possível deixar uma marca de bondade no sentido lato, penso que é isso que dá verdadeiramente sentido à existência de cada um. Independentemente da ordem de alguém. Eu não faço porque assim vinha nas tábuas da lei – eu faço porque existe uma ética intrínseca ao Homem e respeito essa ética, porque acho um valor em si mesmo.

 

Sílvia Júlio
Publicado em Família

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