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Uma espécie de caça ao tesouro

Já conhece o «Geocaching»?

Segunda-Feira, 30 Julho 2012

O que têm em comum o fundo de uma caverna, o ponto mais alto de uma serra, o gradeamento de um estádio de futebol e o topo de um eucalipto? São todos sítios possíveis de receber uma cache e a visita de geocachers, os "caçadores de tesouros" dos dias de hoje. Não procuram ouro, fama ou glória, antes procuram conhecer, passear e passar tempo em família. O geocaching é uma atividade com 12 anos que proporciona todos estes momentos aos mais de 1,3 milhões de pessoas que, em todo mundo, o praticam.

 

Se um dia for em Lisboa a passar na Sé, ou estiver a apanhar o elevador do Bom Jesus de Braga, e vir uma pessoa ou um grupo agir com um ar estranho, como se estivesse à espera que você saia dali para fazem algo, não fique inquieto, caro leitor. Provavelmente, são geocachers à espera que os Muggles (pessoas como você, que não praticam o geocaching, termo inspirado nos livros de Harry Potter) se afastem, a fim de poderem fazer a "sua" coisa. Mas então o que é isto de geocaching?

O geocaching é uma atividade de caça ao tesouro moderna. Surgiu no ano 2000 com o fim da imposição da degradação do sinal do sistema GPS, que limitava a utilização destes aparelhos, pelas mãos de Dave Ulmer, um entusiasta dos GPS, que escondeu, no meio de um pinhal, uma cache (uma caixa com objetos lá dentro) e publicou as coordenadas GPS num grupo na Internet, sugerindo que as pessoas usassem o seu GPS para tentarem encontrar a caixa e deixar lá o seu registo, podendo levar um dos itens da caixa, deixando outro em troca.

A adesão a esta atividade foi tanta que, 12 anos depois, são mais de 5 milhões de utilizadores registados no sítio Web entretanto criado para o efeito, que têm ao seu dispor mais de 1,7 milhões de caches em todo o mundo, à espera de serem descobertas.

Em Portugal, existem de momento mais de 21 mil caches e mais de 19 mil utilizadores registados, e esta é uma atividade em franco crescimento. Pedro Pereira, um escuteiro gestor de projetos com 33 anos, já é geocacher há seis anos. «Quem me falou pela primeira na atividade foi um amigo escuteiro que num certo dia ia à procura de um "tesouro" para os lados da Ponta dos Corvos. O primeiro dia foi frustrante, tentámos encontrar duas caches e não encontrámos nenhuma, fruto de falta de conhecimento sobre o aparelho GPS e sobre o funcionamento da atividade. Alguns dias depois na zona de Torres Vedras encontrámos as primeiras caches e a partir daí tivemos a certeza de que as caches existiam e que a atividade era verdadeira», lembra Pedro.

Uma atividade de família

Desde o início que o Pedro assumiu o geocaching como uma atividade de família, que ocasionalmente junta também outras famílias amigas. «É uma atividade que faço maioritariamente em família, ou com amigos. Tenho amigos geocachers, mas normalmente juntam-se ou juntamo-nos todos em família. Normalmente fazemos caches os três, eu, a minha esposa e o nosso filho de cinco anos, mas também já fiz caches com os meus pais, com a minha avó, com primos, ou com quem aparece. Temo-nos juntado com um amigo de infância com três filhos e os oito fazemos uma equipa bestial», diz, acrescentando que «o geocaching é a desculpa para sairmos e nos divertirmos juntos, aliado a isso a descoberta e a aventura do jogo».

A Carina Lopes e o Bruno Pereira, ambos com 28 anos de idade, são mais novatos nestas andanças do geocaching. Por isso, o entusiasmo está em alta. «Faço geocaching apenas há um mês e meio e o bichinho surgiu através de uma amiga que me convidou a mim e à minha namorada para nos juntarmos e fazermos com eles. Explicaram-me o que fazer e logo aí fiquei agarrado à dinâmica e comecei a explorar terrenos nunca dantes "navegados"», conta o Bruno, que vive em Lisboa.

A Carina, que também é escuteira e vive no Cadaval, explica porque o faz. «Essencialmente pelo desafio, pelo desconhecido, pela aventura. E porque, apesar de na teoria não se ganhar nada em troca, na prática partilham-se grandes momentos», sustenta.

O facto de haver caches por todo o lado faz com que seja possível praticar muitas vezes a atividade. «A minha intenção é fazer uma média de uma cache por dia. Isto dá para fazer em qualquer altura e em qualquer lugar, basta uns minutinhos, já fiz caches durante a hora de almoço, que estavam perto do meu local de trabalho», conta Bruno Pereira.

Para a Carina, um dos pontos aliciantes é mesmo o descobrir de sítios novos, por vezes tão perto de casa. «Esse é um dos aliciantes. Nunca sabemos bem o que vamos encontrar, onde teremos de procurar... Já aconteceu várias vezes irmos atrás de uma cache que está escondida num local onde passamos com frequência, mas nunca nos tínhamos dado ao trabalho de observar o que está à nossa volta. Descobrem-se locais fantásticos!», assegura quem raramente faz esta atividade sozinha. «Somos a equipa Pé Descalço: eu, o meu marido e o meu irmão, e algumas vezes os cunhados, estamos sempre juntos», salienta.

Mas não se pense que o geocaching só é feito por malta nova. O Mário Salgado, um reformado de 64 anos, é prova disso mesmo. «A culpa foi dos meus filhos, que me meteram nisto. Comecei em outubro do ano passado e já tenho 544 caches feitas, já arrumei toda a cidade de Setúbal e estou quase a terminar o distrito de Setúbal», diz. Para este sénior, o geocaching permitiu, além da descoberta de novos sítios, a descoberta de novas amizades. «Raramente faço caches sozinho, os amigos para fazer caches vão-se encontrando, à medida que vamos falando nos fóruns e trocando ideias. Das pessoas que encontro, tem sido tudo malta fixe. Gente com cultura, com estudos, que se interessa por saber. Não é qualquer pessoa que faz isto, não é um pé descalço ou o Zé dos anzóis, são pessoas que querem conhecer a história e se interessam pelos lugares que visitam», defende.

A todos os entrevistados foi pedido se tinham histórias engraçadas para contar relacionadas com o geocaching. O difícil foi mesmo conseguir que escolhessem a melhor. «Numa das últimas caches que fizemos, estávamos a meio de um almoço num casamento. Começamos a falar sobre o tema com alguns amigos (que ficaram picados...) e consultámos o que havia em redor... assim que os noivos se ausentaram para ir tirar mais fotografias... lá fomos onze atrás de uma cache, incluindo o padre que celebrou o casamento», recorda divertida a Carina, enquanto o Pedro destaca um momento em Praga, na República Checa. «Escorreguei com uma cache de ferro na mão, a caixa acertou-me mesmo em cheio na cabeça e fiquei a sangrar. O cómico foi atravessar o jardim até ao café e pedir para usar a casa de banho com todos a olharem para mim com a cara ensanguentada, ficámos a imaginar o que pensaram aquelas pessoas ao verem um turista naquele estado», lembra o Pedro.

Já o Mário recorda um dia especial em Lisboa. «Fomos para Lisboa um grupo de oito pessoas. Deixámos o carro na estação de Cais do Sodré. Fizemos duas ou três até aí, e depois mochila às costas e fomos por aí abaixo: Terreiro do Paço, Rua do Ouro, Sé, castelo, Hospital de São José, Bairro Alto, Rossio, subir os elevadores. Fizemos 42 caches nesse dia, e ao pé da Sé estava uma que dizia que era magnética nas grades. O GPS indicava aquele sítio e parecia simples. Mas o espaço estava cheio de turistas, impossível. Qual foi a tática? Uma barreira de seis a tapar, e dois por trás à procura, e nada. De repente, vem um casal sueco de uma esplanada direito a nós, com a cache na mão. Tinham-na encontrado e estavam no café a fazer o registo, quando perceberam que estávamos à procura do mesmo. Ficámos logo amigos e trocámos e-mails», conta o Mário.

Ajuda paar sair da rotina

Nenhum dos entrevistados ocupa uma posição importante no ranking nacional ou internacional, mas o Pedro explica que não é esse o objetivo da atividade, embora alguns deturpem o seu significado. «Não me interesso pelo ranking, e a minha opinião é que esses números acabam muitas vezes por desvirtuar o jogo, tanta é a sede de ser notado dentro da comunidade», considera o Pedro, que tem 787 caches feitas em «Portugal, Espanha, Liechenstein, Republica Checa, Áustria, Alemanha, Reino Unido e Suécia, maioritariamente em férias com a família». Para ele, o objetivo passa bem ao lado desse. «Num fim de semana fizemos 50 km para encontrar apenas duas caches na linha desativada do Douro entre Pocinho, Barca D'Alva e Fregeneda (Espanha). Pernoitámos na estação do Pocinho e no sábado bem cedo arrancámos para um percurso com quase 50 km que nos levaria por locais espetaculares onde eu nunca iria de carro, ou mesmo numa pequena caminhada, primeiro à beira do Douro e depois à beira do rio Águeda (já em Espanha). Vimos neste percurso a maior colónia de águias que já pude testemunhar e a sensação de liberdade das aves era igual à nossa, que fazíamos aquela caminhada para encontrar uma caixa no meio do nada, mas com a certeza de que o local onde estávamos é muito especial», conta.

Todos são unânimes em considerar o geocaching uma atividade a aconselhar a toda a gente, mas o Pedro prefere aconselhar «baixinho». «Aconselho o geocaching, mas baixinho, assim quase a sussurrar ao ouvido, pois não gosto muito da massificação em que o jogo se está a tornar. Aconselho a quem gosta de aventura, a quem gosta da natureza, a quem gosta de divertimento, e acima de tudo aconselho o geocaching a quem conheça um cantinho escondido deste nosso lindo país, pois poderá com certeza colocar nesse local uma cache com qualidade e que todos gostarão de a visitar e encontrar», diz o Pedro.

A Carina é mais exuberante no aconselhamento. «Aconselho a toda a gente! Além de exercitar o físico (e em algumas situações, de que maneira!), ajuda a sair da rotina, daquele dia a dia agitado... a contactar com a natureza, a treinar a capacidade de observação e de raciocínio. Acima de tudo, proporciona momentos (no nosso caso, em família) que de outra forma seriam possivelmente passados em frente à televisão ou ao computador. E sabe tão bem...», conclui.

Ricardo Perna
Publicado em Família

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