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Maria João Quintela

«O valor da vida não tem idade»

Quarta-Feira, 25 Julho 2012
Independentemente da idade de cada pessoa, o valor dessa vida será sempre mais importante que o resto. «Temos de repensar a ideia do que é ser velho ou ser novo em Portugal», é o repto lançado por Maria João Quintela, que encara o envelhecimento como uma oportunidade para os mais velhos mostrarem que são úteis e participativos numa sociedade solidária para todas as gerações.


Não há duas vidas iguais. Não há dois envelhecimentos iguais. Muita coisa depende do ambiente onde se vive, dos recursos disponíveis, do património genético e cultural. Há tanta coisa que pode influenciar o comportamento à medida que se vai envelhecendo. Para encontrar outras perspetivas sobre o assunto, lancei um desafio à responsável pelo desenvolvimento na Direcção-Geral da Saúde do conceito de Envelhecimento Ativo para me falar, precisamente, sobre a sua experiência. Como estará esta mulher, de 60 anos, reformada antecipadamente, a viver o seu próprio envelhecimento?
«Foi a primeira pessoa que me pediu para falar do meu envelhecimento ativo; eu que luto há tanto tempo para combater os estigmas da idade, da reforma, dei por mim a pensar que, afinal, acho tudo isto natural», conta Maria João Quintela, que encara a vida ativa e participativa como uma linha contínua, sem interrupções, mesmo quando as pessoas se aposentam.

«Estou reformada, mas não retirada», atira. «Se tivéssemos uma noção de trabalho como continuidade no tempo, com diferentes funções sociais, não teríamos esse medo que tanta gente tem da palavra reforma», realça.

Maria João Quintela sente-se realizada por continuar a ser produtiva, embora de forma voluntária. É consultora da DGS, onde trabalhou muitos anos, e colabora com o Ministério da Saúde. A experiência, o know-how e as competências não se perderam, quando aceitou a reforma antecipada ao perceber que iria ser prejudicada se continuasse no mercado de trabalho. «Há estas incoerências entre o viver mais tempo numa sociedade que quer privilegiar o aumento da esperança de vida, mas que, no fim de contas, nos diz: "Se vives mais tempo, vais ser penalizada por isso."»

O que é ser novo e o que é ser velho?

«Não se pode considerar que as pessoas são novas para morrer e velhas para trabalhar. Temos de repensar a ideia do que é ser velho ou ser novo em Portugal. Temos de construir uma sociedade em que a idade não seja uma arma de arremesso que utilizamos conforme nos dá jeito: tanto dizemos aos mais novos "ainda não tens idade para fazer aquilo", como dizemos aos mais velhos "já não tens idade para isso". Quando é que se tem idade para se estar vivo? Para se ser gente? Para se ser cidadão de pleno direito?», questiona.

Quando os braços não se baixam, trilha-se o caminho para a mudança de mentalidades. Maria João Quintela, que é também presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia e vice da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, é convidada amiúde para ir a universidades, instituições de solidariedade social, centros sociais e paroquiais para falar sobre o envelhecimento ativo – ou melhor, sobre a participação ativa. «Dou os meus contributos daquilo que é a minha experiência e ponho à reflexão com os mais novos. Luto para que os estigmas ligados à não utilidade desapareçam de uma vez por todas. Eu quero ajudar os mais velhos a encontrarem uma sociedade que não os exclua nem lhes coloque o estigma da inutilidade. Quero contrariar os estigmas negativos do envelhecimento. Ainda estamos repartidos entre ativos e não ativos. Porque é que uma pessoa que vai para a reforma tem o estigma de inativo?», pergunta.

«Esta é uma oportunidade para dizer: não estamos acabados, estamos aqui de braços abertos para ser úteis e ajudar os mais novos e os mais velhos, para sermos uma sociedade para todas as idades», sublinha.

Para um envelhecimento ativo e participativo ainda há muito para fazer. Maria João Quintela sente-se incomodada quando ouve alguém dizer: «Não me considero ainda velho.» A palavra «ainda» desassossega-a: «Este ainda é até quando? A palavra velhice tem de ter uma grande reflexão. Tenho visto pessoas mais novas com tantas dificuldades e pessoas mais velhas tão vivas e tão atentas às questões sociais. Temos de nos amparar para que estas dificuldades, que podem surgir em qualquer idade, não sejam um corolário de marginalização, solidão e desparticipação. Temos de rever esta ideia de envelhecimento», insiste.

As solidariedades na família

Esta mulher faz parte da geração "ensanduichada" entre a mãe, que tem 90 anos, as filhas, na casa dos 30, e os netos ainda muito pequenos. As solidariedades entre as diferentes gerações são primordiais e naturais nesta família. As idades misturam-se, trocam-se vivências e modos de estar. Bisavó, avós, filhos e netos fazem parte de um todo. Tudo isto faz parte das vidas destas pessoas. Umas são mais novas, outras mais velhas. Coloca-se uma nova questão: Com que idade se pode afirmar que alguém é velho? A resposta traz outros pontos de reflexão: «Eu não sei o que é ser velho. Tenho a minha mãe com 90 anos e ela terá sempre para mim o significado de uma vida. O valor da vida não tem idade.»

«A idade cronológica existe, mas a idade do corpo, da alma e do pensamento está para além da vida terrena. Porque sabemos que somos lembrados para além desta vida. A nossa vida é intemporal. Está para além do tempo», continua.

A discussão está lançada. A reflexão, certamente, irá continuar depois deste Ano do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações. As sementes estão disseminadas por todo o lado «para se ajudar a construir cidades e ambientes mais amigos das pessoas idosas». Mais: é primordial espalhar a ideia de que o conceito de envelhecimento ativo está para além do envelhecimento saudável. «Estar saudável não chega, é preciso participar. Há três pilares do envelhecimento ativo: saúde, participação e segurança numa sociedade para todas as idades e solidária entre gerações.»

Como há sempre etapas a cumprir pela vida fora, Maria João Quintela acredita que o seu futuro passará pela construção de uma sociedade melhor – e essa visão pode ser replicada por todos: «Tenho obrigação de zelar pela saúde da minha mãe, tenho de ser agente da minha própria saúde, tenho de ser exemplo de atividade e de participação para os outros. Vejo a minha participação na sociedade até ao fim, disponível para todos aqueles que acharem que posso ser útil, sem nenhum estigma nem de idade, sexo ou credo. O Homem está no mundo com uma missão, sobretudo de solidariedade, de paz e de crescimento social. Nós temos que construir uma sociedade em que as pessoas não sejam vistas nem pela cor, nem pelo sexo nem pela idade, mas por serem pessoas.»

 

 

Sílvia Júlio
Publicado em Família

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