Terça-Feira, 02 de Setembro de 2014
 
   
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Um serviço de apoio

No coração das famílias

Terça-Feira, 08 Maio 2012

A Crescerbem é uma associação de apoio no domicílio ao recém-nascido (e não só) que apoia famílias menos protegidas, para que as crianças cresçam e se desenvolvam com estabilidade e dignidade quando saem do hospital. O direito à nutrição, saúde e educação nem sempre está assegurado para todos os meninos de igual maneira. É aqui que entra a missão da Crescerbem, a funcionar no Hospital D. Estefânia e que recentemente assinou um protocolo com o Hospital de Santa Maria – mas quer alargar-se a mais hospitais do país. Todas as famílias que são ajudadas são referenciadas pelos Serviços Sociais.


O Tomás, de nove meses, é um sobrevivente. Tem pouco mais do que quatro quilos (quase tantos como um recém-nascido) e um historial clínico que atesta a sua vontade de viver. É no olhar vivaço deste bebé que está fixa a esperança da mãe, para que ele seja capaz de ir o mais longe possível pela vida fora.

Quando o menino nasceu ficou sete meses internado. A irmã, gémea, foi para casa ao fim de um mês. O bebé tem displasia broncopulmonar e hipoplasia. O Tomás precisa de ganhar peso e toma um leite especial e suplementos para o efeito – tudo muito caro para a bolsa do pai e da mãe desempregados. E está ainda dependente de uma botija de oxigénio que a mãe carrega numa mochila. A Sandra, de 33 anos, precisa de levar o Tomás duas vezes por semana a sessões de fisioterapia no Hospital D. Estefânia (HDE), em Lisboa. A família mora num bairro social e precisa de apanhar dois transportes para lá chegar. Estas viagens não são práticas nem saudáveis para um bebé tão frágil, uma «florzinha de estufa», como o Tomás.

A pensar no bom crescimento e desenvolvimento das crianças foi criada a associação Crescerbem, que potencia o bem-estar das famílias desprotegidas. Para a Sandra tem sido «ótimo» o apoio que recebe para os filhos gémeos: leite, fraldas, roupa, brinquedos, produtos de puericultura e de higiene para a roupa e para a casa. Além disso, duas voluntárias da associação levam-na e trazem-na de carro sempre que vai às sessões de fisioterapia com o filho. Mas mais importante do que tudo para esta mãe é sentir-se «mimada» por pessoas estranhas. Enquanto o Tomás esteve internado no hospital, a Sandra e o menino recebiam também a visita das voluntárias da associação – e sabia-lhe tão bem sentir que alguém se preocupava com ela num momento de grande fragilidade: «Sabia que tinha alguém que se lembrava de mim, porque nessas fases o que precisamos é de miminho», conta.

A Sandra é a filha mais nova de uma mãe de nove filhos que cedo ficou viúva. A avó dos meninos, acamada e quase cega, não os pode acompanhar e a ajuda possível para a Sandra é a das sobrinhas que têm quase a idade dela e ajudam a tomar conta da Maria, a outra gémea, enquanto vai para o hospital. O marido tenta ir atrás de um biscate ou outro que possa aparecer nas obras.

É a primeira vez que Sandra, que já foi auxiliar de educação, está a ser apoiada e sente-se desconfortável com a situação. Não é fácil aceitar ajuda – implica que haja humildade: «Custa-me ter chegado a este ponto», confessa num tom de voz tímido. A vida dá muitas voltas e foi uma assistente social que a encaminhou para a Crescerbem, que está a funcionar na antiga Maternidade Magalhães Coutinho, na Estefânia.

As famílias são encaminhadas para esta associação pelo Serviço Social do HDE. Há uma retaguarda profissionalizada que faz o diagnóstico social das famílias que são localizadas nas consultas, urgências e enfermarias.

Capacitar as famílias

Isabel Soares dos Santos, de 52 anos, presidente da Crescerbem e católica assumida, descobriu que a sua missão de vida é o voluntariado e interessa-lhe sobretudo «capacitar as famílias de competências parentais, para que as crianças possam crescer com tudo aquilo a que têm direito: saúde, alimentação e educação». Não critica nem julga os valores, a etnia e a cor da pele das famílias que são apoiadas: «O que me interessa é promover a dignidade destas crianças, dar-lhes o máximo a que têm direito, promover a integração delas nas creches, nas escolas, tratar do calendário de saúde, acompanhar a alimentação em particular das que têm patologias associadas.»

Neste momento a associação está a apoiar sete famílias. Espera-se que até ao final de 2012 sejam ajudadas 24 famílias. A primeira família que recebeu apoio da Crescerbem era oriunda dos PALOP e vivia por caridade na casa de uns familiares. «Tínhamos de ajudar estes bebés gémeos», conta a responsável da associação.

Uma equipa de duas voluntárias ajudou a reestruturar o espaço da casa, para que a mãe pudesse arrumar a roupa que se amontoava em sacos. A Crescerbem arranjou ainda camas de grades para os bebés. Com esta família procurou-se fazer um trabalho profundo nos hábitos de higiene. A pobreza é, por vezes, de tal forma exacerbada que poucos são aqueles que se lembram que quando não há dinheiro para a alimentação e medicamentos também não há para comprar produtos de higiene pessoal e para a casa. «Não valia a pena dizer à mãe que os bebés tinham de tomar banho todos os dias, se banheira continuava muito suja. Eles não gostavam de ter a banheira suja – mas não tinham dinheiro para comprar detergente.»

A Crescerbem tem um mecenas que oferece produtos para a higiene do corpo e detergentes para a casa e roupa. Detalhes que fazem toda a diferença no bem-estar das famílias. «Faz parte das competências parentais explicar que a roupa tem de andar limpa e lavada – e quando [as famílias] começam a receber em casa estes produtos, elas cumprem, gostam de andar com a roupa lavada e com o banho tomado e os bebés a cheirar bem. Esse problema fica resolvido e elas começam a ver um efeito imediato. Fazemos o ensinamento das competências mas também damos os meios para que os possam pôr em prática. É antipedagógico não exigirmos uma moeda de troca. Nós ajudamos com bens, elas respondem com o trabalho de casa feito.»

A responsável da Crescerbem acrescenta ainda que «se as pessoas não tiverem uma ajuda para subir mais um ou dois degraus para mudar de vida, não saem daquele buraco porque a pouca energia que têm é para sobreviverem no dia a dia».

Capacitar e ajudar, de forma personalizada, cada família que chega a esta associação, para que as crianças cresçam e se desenvolvam com dignidade é um trabalho que poderá ser alargado a todo o país. É objetivo da presidente da Crescerbem replicar o projeto: «Gostaríamos imenso de ser contactados por todos os hospitais que estiverem interessados em iniciar um projeto de apoio ao domicílio para as famílias que precisam de cuidados continuados e são referenciadas nos hospitais pelos serviços sociais, como mães adolescentes, pais inseguros, toxicodependentes, famílias com gémeos e trigémeos, etc.»

Mais do que um apoio domiciliário

O papel da Crescerbem, porém, não se esgota no apoio ao domicílio. Há também um trabalho que se faz de forma episódica na ajuda a famílias identificadas em consultas e que não precisam de acompanhamento posterior da associação. É o caso de uma jovem são-tomense que foi à Estefânia com a filha de dois anos e, naquele dia, levou um carrinho, sem contar. A menina, com luxação na anca, está a ser tratada em Portugal e a mãe não tem dinheiro para lhe comprar um carrinho. Quando a pequena viu que lhe deram um carro da Hello Kitty não cabia em si de contente. A mãe também está visivelmente feliz: «Não esperava levar um carrinho. Eu estava carregando ela ao colo e estava cansada... Ela pedia "mãe, colo; mãe, colo" e eu dizia "não, filha, a mãe já está cansada"... e agora já vai no carrinho», conta, emocionada, a jovem africana.

Antes de a mãe ir embora com a filha já sentada no carrinho, perguntam-lhe se ela precisa de roupa. Ela responde: «Há pessoas que precisam mais do que eu.» Antes de regressar à sua terra natal para se juntar com o pai da menina, mãe e filha vivem temporariamente com os tios. A jovem mãe tem consciência de que há casos piores que o dela. «E roupa de cama, não precisa?», insiste Isabel Soares dos Santos. Aí a resposta é afirmativa.

É num dos armazéns da Crescerbem, a funcionar numa antiga sala de partos onde nasceram milhares de bebés, que se distribuem os bens. Uma nova vida está a crescer e a desenvolver-se na antiga Maternidade Magalhães Coutinho. Em nome das mães, dos pais e, acima de tudo, dos filhos.

O apoio do voluntariado

A associação Crescerbem conta com a disponibilidade e colaboração de 24 voluntárias. Embora também sejam necessários homens para o voluntariado, aqui ainda não marcam presença.

Fernanda Matos Correia, 65 anos, reformada, é uma das voluntárias que acompanham a Sandra e o Tomás nas sessões de fisioterapia e nas várias consultas. A antiga educadora de infância segue o caso desta família desde janeiro e encara este tipo de voluntariado como «um desafio». A voluntária até já foi com os meninos tirar o cartão de cidadão. Confessa que os irmãos gémeos – o Tomás e a Maria – são mais dois netos que ganhou, embora os quatro netos biológicos sintam alguns ciúmes.

Nas assoalhadas do coração elástico da Fernanda, cabem sempre mais pessoas e mais coisas para fazer com alma. É uma senhora de múltiplos talentos e foi ela que pintou, com outra voluntária, os corredores que dão acesso aos armazéns e à secretaria da Crescerbem – meninos dentro de corações, pássaros e borboletas enchem de vida aquele espaço.

Outra das voluntárias da associação é a Maria João Almeida, 45 anos, desempregada da indústria farmacêutica, que está no armazém duas manhãs por semana. Nunca esperou vir a fazer voluntariado tão cedo. Pensava que só mais tarde teria oportunidade para o fazer, mas o desemprego obrigou-a uma disponibilidade forçada e utiliza o seu tempo de uma maneira que a preenche. Naquela antiga sala de partos, os armários estão organizados por idades, género – e o material que dali entra e sai é registado com rigor. Nada é deixado ao acaso. Tudo o que se dá é tratado com dignidade: «Verificamos o estado da roupa, se é preciso coser, lavar, passar a ferro...» Material em segunda mão não é sinónimo de material «indigno».

A Crescerbem conta ainda com as mãos de muitas outras voluntárias externas, cujo número não está ainda contabilizado. A associação dá lãs e tecidos – que também foram oferecidos – para que muitas voluntárias de centros sociais e paroquiais façam enxovais de bebés. Há também um grupo de senhoras que se reúne mensalmente na casa de uma delas para fazer casaquinhos, botinhas e mantas para os meninos apoiados pela Crescerbem.

 

Sílvia Júlio
Publicado em Família

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