A Madalena tem sete anos e todos os anos se mascara de princesa. «Gosto muito do vestido e da coroa», confessa num tom de voz altivo, digno de uma figura real. Sonha ser como as princesas que vê nos livros e na televisão, dando largas à imaginação nas suas brincadeiras e, do alto da sua coroa, sente que o seu mundo de magia se pode cruzar com o mundo real, «mas a fingir», lembra com o entendimento próprio da idade.
A Matilde, de três anos, irmã da Madalena, também vai mascarar-se para brincar ao Carnaval e «para a fotografia», conta, embevecido, o pai – o súbdito das princesas que tem lá em casa. Aquela espécie de monarquia carnavalesca é invertida no momento da decisão do dinheiro que se gasta com «as fatiotas».
«Não gastamos mais do que quinze euros», conta o Carlos, que garante que são os pais que mandam nesse ministério. Sem direito a concessões em tempos de austeridade. Este ponto é sagrado para a manutenção de uma boa governação debaixo daquele teto.
Comparação com os outros
Vive-se uma época em que a comparação com os outros é inevitável – e as crianças não fogem à regra e, por vezes, ficam aborrecidas quando veem que outras estão mais bem mascaradas e vestidas do que elas. É uma boa ocasião para os pais explicarem a vida tal qual ela é. Sem máscaras. E com verdade. «Em primeiro lugar, os pais devem ser muito verdadeiros. Por exemplo: " O João tem um fato mais giro que o meu", diz o menino. Os pais podem responder: "Sim, é verdade, mas o teu tem outro valor porque foi feito por nós. O do João foi comprado, foi muito caro e a mamã e o papá não têm dinheiro para isso, mas tu consegues divertir-te na mesma com esse que tens"», exemplifica a psicóloga Alexandra Chumbo.
Esta especialista em desenvolvimento infantil acrescenta ainda que «não vale a pena dizer ao menino "não é nada, o teu é muito mais giro", se objetivamente o do outro é fantástico e mete o do nosso a um canto». Temos de ser verdadeiros com os nossos filhos, sublinha, alertando os pais de que não estão a contribuir para uma boa autoestima das crianças se teimarem em elogiá-las em coisas que não são verdade: «No consultório vejo meninos, cujos pais insistem em gabá-los em coisas em que não são bons. Não vale a pena dizer "tu consegues, és ótimo nisto", se de facto não consegue e não é bom nessa área. Não é assim que a gente vai ajudá-los na autoestima. Nós temos é de descobrir no que eles são bons, para depois aí darmos o estímulo», realça.
A estimulação correta acontece quando os pais brincam muito com os filhos e os ajudam a criar um mundo cheio de (boa) imaginação. Alexandra Chumbo é também mãe de quatro crianças e conta que, no ano passado, uma das filhas se quis mascarar de índia. Comprou no supermercado uma túnica e uma pena por pouco mais de três euros e a menina divertiu-se – e muito. «Claro que não é uma coisa de muita qualidade, mas para brincar dois, três dias dá perfeitamente. E, na impossibilidade de se comprar, os pais também podem ir aos seus armários e recriar. Também é educativo para os meninos que não tenham os fatos XPTO, porque os pais também não têm as coisas XPTO e privam-se de muitas coisas. É um disparate gastar-se exorbitâncias em fatos de Carnaval, que depois se arrumam, quando não se têm os bens essenciais.»
Usar a imaginação e criatividade
Ninguém levará a mal se perguntarmos se brincar ao Carnaval é importante para o desenvolvimento de uma criança. A psicóloga responde: «Uma criança que não se mascara não fica atrofiada no seu desenvolvimento por não o fazer, mas se gosta de brincar ao Carnaval será saudável que o faça, porque é o assumir uma outra personagem. Geralmente, escolhe os seus heróis. Os meninos escolhem o zorro e andam com as suas espadas, as meninas gostam de ser princesas e rainhas. As crianças personalizam ainda mais aquilo que está na imaginação – e é diferente imaginar ou estar vestida de fada com a sua varinha de condão em que ganha poderes novos para brincar.»
As famílias que não têm possibilidade de comprar um fato para mascarar os filhos podem usar a imaginação. Ana Teresa Brito, professora da Escola Superior de Educadores de Infância (ESEI) Maria Ulrich, sugere: «Reutilizem materiais simples, como cartão, revistas, jornais, plásticos... Todos podem ser excelentes para criar fatos originais. A escolha e conceção dos fatos só tem um limite: o da nossa criatividade e imaginação!»
Há sempre soluções que podem ser encontradas: «O importante é que ninguém deixe de participar num momento tão divertido e que a escolha das máscaras seja adequada aos seus gostos, interesses e características», frisa a docente da ESEI Maria Ulrich.
O Carnaval pode ser a festa do faz de conta. E brincar, seja no Carnaval ou em qualquer outra altura do ano, é primordial. As brincadeiras são fundamentais para o crescimento interior harmonioso das crianças. Brincar é o trabalho delas. Brincar é uma coisa muito séria que tem de ser respeitada e estimulada pelos "grandes". «Quando brinca, uma criança envolve-se e entrega-se plenamente. Brincar é a sua maneira de aprender, ler e agir sobre o mundo que a rodeia, de se conhecer a si própria, de conhecer o outro-criança, o outro-adulto...», explica Ana Teresa Brito, doutorada em Estudos da Criança, em Educação Especial.
Esta especialista, que foi educadora de infância e de educação especial durante 15 anos, salienta que brincar é muito importante para o desenvolvimento integral da criança e que o chamado faz de conta é uma etapa essencial neste processo. «Através do faz de conta, ou jogo simbólico, a criança recria experiências da vida quotidiana, usando a sua capacidade de observação, imitação e imaginação, ensaia a sua capacidade de apreender e compreender comportamentos e o significado dos acontecimentos que a rodeiam. Pela vivência plena desta experiência, descobre que as ações podem ser provenientes de ideias e não de objetos; desenvolve a capacidade de se adaptar e compreender regras existentes, descobre como resolver problemas, liberta sentimentos contraditórios, desenvolve a iniciativa, a criatividade e a capacidade de integrar outras perspetivas», explica.
Estimular o mundo do faz de conta
Um menino que não brinca deve preocupar os adultos. A brincadeira pode ser potenciada ou condicionada pela forma como a família e a comunidade respeitam as suas necessidades e o seu ritmo, e como leem e interpretam os seus comportamentos. «Se acreditamos que brincar é essencial para a criança, devemos partilhar a sua importância junto de todas as famílias e profissionais de educação, defendendo, fundamentadamente, a potencialidade da brincadeira para o desenvolvimento e aprendizagem da criança. Se juntos – famílias e profissionais – observarmos atentamente uma criança a brincar, encontramos uma multiplicidade de aprendizagens essenciais que decorrem desta brincadeira! É somente preciso saber "traduzir" estas conquistas que se manifestam através da brincadeira de cada criança e encantarmo-nos com a sua riqueza!», afirma Ana Teresa Brito.
Segundo Jean Piaget, é a partir dos dois anos que a criança, por estar menos centrada nela própria, começa a brincar ao faz de conta. Uma conquista que faz parte de um complexo processo de desenvolvimento em que a criança procura organizar e conhecer o seu mundo. No entanto, «para algumas crianças esta pode ser uma difícil aquisição, na medida em que quando brincam não acrescentam os seus sentimentos, pensamentos e interpretações ao vivido na brincadeira. Podemos dizer que o seu jogo é mais concreto e funcional, estando o faz de conta ausente», chama a atenção a professora da ESEI Maria Ulrich.
Para os adultos potenciarem a sua ação junto das crianças, é primordial ter em linha de conta que o mundo do faz de conta pode ser estimulado, por pais e educadores, criando nelas oportunidades de descoberta, de interação, de envolvimento em situações significativas, «mas não conduzindo, de acordo com as nossas metas e objetivos, a brincadeira», alerta a docente.
E como é que os pais e educadores podem estimular o mundo do faz de conta? Esta é uma questão que os adultos devem colocar para melhor acompanharem as crianças. Ana Teresa Brito aconselha que, um bom princípio, é orientarmos as ações pelas intenções das crianças. Quanto mais intrusiva for a participação do adulto maior será o perigo de a sua ação deixar de ser brincar. «Podemos desempenhar o nosso papel na brincadeira de várias formas – estando "ao lado" da criança, em que a nossa função principal será observar atentamente a brincadeira, as necessidades da criança, questionando-nos: "Que brincadeira é esta? Como lhe posso oferecer suporte? O que está esta criança a dizer-nos através da mesma?"; estando "por dentro", assumindo o papel de companheiros da brincadeira, dando suporte à ação da criança, indo ao encontro das suas propostas e ideias (aqui o conteúdo da brincadeira deve ser tomado seriamente pelo adulto que decide participar!); estando "fora" da brincadeira, em que a nossa função principal será planear e organizar recursos, relativamente ao espaço, tempo e materiais, que a podem potenciar.»
Que os crescidos aprendam que «brincar é mesmo divertido», remata a Madalena. É a brincar que se aprende a viver a sério.

