«Bom-dia, Sr. António, então como vai?», pergunta a D. Maria. «Olhe, cá vou indo assim e assim», responde. Os dois encolhem os ombros, esboçam um sorriso tímido e rematam o breve diálogo com a frase: «É a vida! Tem de ser.» E seguem viagem em sentidos opostos. Rua acima, rua abaixo, devagarinho, a olharem para o chão, porque a vitalidade e os reflexos já não são como noutros tempos.
Na esquina da mesma rua, junto da mercearia, encontram-se duas vizinhas. «Viva, D. Manuela! Há uns dias que não a vejo. Como está?», questiona a D. Lucinda. A D. Manuela diz: «Vai-se andando...Olhe, o meu filho é que foi operado à coluna, eu também não tenho andado muito bem da minha perna...» A D. Lucinda interrompe o discurso da D. Manuela para lhe contar que também não tem andado bem: «E eu? Eu tenho andado aqui com uma dor... Não sei o que se passa com isto. Olhe, mas a D. Fernanda, coitada, também está cada vez pior, já sabe?...»
Estes são alguns trechos de diálogos, extraídos dos episódios da vida real e banal, num bairro antigo alfacinha, mas que poderiam ter sido proferidos por outras pessoas em qualquer parte do país.
O triste fado, cantado à desgarrada, com a letra das doenças de uns e de outros, fará apenas parte do gemido das nossas guitarras ou terá também manifestações mais ou menos semelhantes em outros países? «É uma questão cultural que não tem só a ver com a sociedade portuguesa, mas também com o Ocidente europeu – é até um processo civilizacional. As pestes, as epidemias dos séculos passados dizimaram muita gente e não nos podemos esquecer de que há fatores históricos mais remotos, povoados de fantasmas relativamente a doenças que foram avassaladoras e puseram em risco a possibilidade de sobrevivência de sociedades inteiras – isto está no imaginário coletivo que todos construímos sobre a saúde e a doença. A nossa relação com a doença não é muito diferente da que têm as outras pessoas de outros países», explica Graça Carapinheiro, pioneira em Portugal na investigação sociológica na área da Saúde.
«Quando nos cumprimentamos e dizemos "cá vou andando", a pessoa sabe que a qualquer momento pode ter uma doença, a saúde é relativa. A saúde e a doença são as duas faces da mesma moeda», acrescenta.
Diversidade de interesses
A socióloga Graça Carapinheiro sublinha que «a investigação realizada nos vai mostrando que os portugueses, ao contrário do que poderíamos imaginar, não são queixosos e lamurientos – e não fazem da doença o eixo central da sua vida».
Manuela Peleteiro, médica de família e diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Norte (Alvalade, Benfica, Lumiar e Sete Rios), considera também que o "vai-se andando" não é exclusivo dos portugueses, mas realça a ideia de que quem tem poucos pontos de interesse na vida se centra apenas nos problemas e na doença. «Toda a gente tem no ciclo da sua vida fases diferentes de se relacionar com a doença. Os portugueses são iguais às outras pessoas. Há uma fase em que não se relacionam minimamente com a doença – são fumadores, comem o que lhe apetece, etc. – , depois há uma sobreutilização dos serviços de saúde de um determinado grupo a partir dos 60 anos», constata esta responsável.
Funcionária pública há 30 anos, ora no papel de dirigente ora na prestação de cuidados primários, afirma convictamente que isso acontece quando as pessoas «não têm grande diversidade de interesses – é uma questão de cultura. Quando se apercebem de que não estão bem de saúde, focam-se demais em si próprios, principalmente as pessoas que se reformam e começam a ficar num ciclo restrito».
Para Manuela Peleteiro, «há pouca tradição de trabalho comunitário, que existe noutros países, e se começa desde pequenino – não se começa na altura da reforma».
«As pessoas», prossegue, «fazem serviço à comunidade como se isso fizesse parte do seu estar, o que se traduz num menor envolvimento do "eu" e estão mais disponíveis para fazer coisas que as preenchem, que lhes interessam, ficando mais libertas em relação a um ciclo à volta de si mesmos que não é bom para a saúde».
Não raras vezes, os clínicos gerais encaminham os doentes para o voluntariado. Embora esta situação seja polémica, porque, dizem os entendidos na matéria, tem de haver uma real disponibilidade interior para dar de si aos outros e a pessoa tem de estar bem consigo própria para poder ajudar os outros. «É muito comum os médicos de família interessarem as pessoas para o trabalho comunitário quando se percebe que é aquilo que lhes faz falta. É importante que as pessoas participem em ações da comunidade adequadas à sua capacidade para se sentirem úteis», opina a diretora executiva do ACES Lisboa Norte.
O «medicamento» do doente
Quem mais vai às consultas nos centros de saúde é a faixa etária a partir dos 60 anos. No Inverno, os serviços têm mais procura e o dia mais requisitado é a segunda-feira. A sexta-feira é um dia mais leve. No Centro de Saúde de Sete Rios, o número médio de consultas diárias é 500. Manuela Peleteiro acredita que irá diminuir com o aumento das taxas moderadoras: «As pessoas vão pensar duas vezes antes de virem quando não precisarem.»
Segundo Graça Carapinheiro, «se alguém procura um serviço de saúde é porque há um problema para resolver – pode é não interessar ao profissional de saúde que aquela pessoa lhe coloque um problema de saúde. A maioria dos portugueses que vai aos centros de saúde e aos hospitais não vai para se queixar de coisas que não existem.»
Mas será que os portugueses vão excessivamente ao médico? Manuela Peleteiro responde assim: «Não, vêm é sempre os mesmos, o que é uma coisa diferente.» Esta profissional de saúde conta até que é comum haver doentes aborrecidos por nada lhes ser receitado: «Isso acontece muitas vezes no atendimento a consultas urgentes. Uma pessoa vem constipada – uma constipação pode ser o princípio de uma pneumonia. Mas se o médico lhe disser: "Está tudo bem consigo agora, mas esteja atento, se houver agravamento da situação, volte." A pessoa vai zangada e diz que ninguém lhe deu atenção.»
É por isso que Manuela Peleteiro diz que o médico de família é também «o medicamento» do doente: «A atitude do médico, a atenção do médico, o olhar do médico, o carinho, é importante para o bem-estar.»
A investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), Graça Carapinheiro, revela que entrevistas feitas a doentes mostram que estes lamentam que o seu médico de família já não lhes preste tanta atenção desde que os computadores começaram a estar presentes nas consultas. «Os médicos têm de registar tudo o que fazem e a grande queixa legítima dos doentes é o facto de o seu médico de família estar a olhar para o computador. Têm muita pena que o seu médico de família tenha menos tempo para lhes dar atenção. A questão da escuta do doente diminuiu desde que tem de registar a informação.»
Manuela Peleteiro diz que muitos doentes, mal se sentam na cadeira, desabafam: «"Olhe, nem sei por que ponta hei de começar." O médico percebe que a pessoa gosta de ali estar e vai desfiar uma série de conversas – e temos de criar a prioridade de intervenção.»
Respeito pelo doente
Graça Carapinheiro diz «que o médico não faz mais do que a sua obrigação ao ouvir o doente, não pode ser um frete ouvi-lo». Frisa ainda a importância de «haver respeito pelo doente, porque, por vezes, é o único momento em que é ouvido e isso exige que se faça um gasto de tempo que não está padronizado; mas, na saúde, está tudo padronizado, protocolizado, o que tem consequências na relação médico-doente e sobre o bem-estar do doente». E diz mais: «Há uma grande censura social que é transmitida através dos meios de comunicação social de que os portugueses estão permanentemente a ir ao médico. Na relação com outros países, Portugal não tem um número de consultas assim tão elevado quanto se pode acreditar. Muitas vezes, quem vai aos centros de saúde – e até pode lá ir todos os dias – são idosos sozinhos e esta é a única forma que têm de conviver com os vizinhos e as outras pessoas que vão conhecendo nas suas idas frequentes ao centro de saúde. Às vezes, as salas de espera são verdadeiros centros de dia. Vemos idosos que, enquanto esperam que a senhora enfermeira lhes meça a tensão arterial, procuram os centros de saúde para preencherem outras dimensões de solidão, de isolamento, de impossibilidade de comunicação humana.»
Nos meios mais pequenos, é frequente os idosos encontrarem na sala de espera do centro de saúde as pessoas que conhecem, que lhes dão um sentimento de pertença e de ligação àquela comunidade – é uma forma de identidade local.
Em jeito de conclusão, Manuela Peleteiro remata: «Há mais mundo para lá da saúde. A saúde é muito importante, mas é um componente do bem-estar. É preciso encontrar também noutros lugares os outros componentes desse bem-estar.»
Conversas daqui e dali no centro de saúde
A Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Sete Rios, em Lisboa, tem 67 mil utentes. Josefina Santos, 64 anos, reformada, é uma das utentes que, enquanto aguarda a possibilidade de ser atendida, passa o tempo a fazer sopa de letras. Está ali sentada há quase uma hora, sem consulta marcada e vem pedir medicamentos «ao senhor doutor».
Entretanto a nora aproveitou o dia de folga para ir ao Planeamento Familiar e trouxe o filho, que tem um problema nos adenoides, para o médico opinar se vale a pena a cirurgia.
Josefina está preocupada por ela, pela nora e pelo neto – «estou também aqui para o médico me dar autorização para inscrever o menino».
Confessa que, sempre que vem ao centro de saúde, o que menos gosta «é de estar à espera, mas dos médicos não tenho nada a dizer». Só se lembra de ter ficado aborrecida uma vez com o seu médico de família: «Eu tenho duas qualidades de gotas para as minhas vistas, trouxe-lhe as etiquetas com o nome dos medicamentos, mas ele esqueceu-se de me passar uma delas. Por isso mesmo nem há oito dias cá vim para pedir esse medicamento – e aproveitei e já pedi outro para o problema do estômago.» Josefina justifica essa situação pelo «cansaço, falta de atenção do médico» e pelas consultas «a despachar». E, já que a oportunidade se proporciona, conta ainda que fez um «furo na perna com um pau que tinha um prego» e ia ficando sem o membro inferior pela «falta de atenção de um médico».
Maria de Fátima Carvalho, 79 anos, não gosta de se lamentar. Já perdeu dois filhos e o marido e, ainda assim, agradece a Deus o facto de ter netos e bisnetos que lhe permitem ver a continuidade da vida. Com a mão direita a segurar as análises que vem mostrar à médica de família, diz que só vem ao centro de saúde quando precisa, mas a diabetes obriga-a a maior vigilância. Considera que «a conversa dos portugueses vai muitas vezes parar às doenças». E acrescenta: «Uma pessoa fala com outra e vem logo o assunto: "Esta tem isto, aquela tem aquilo." Acho que os portugueses se entregam muito às doenças e às coisas negativas da vida. Também me tem acontecido muita coisa e tenho de andar para a frente.» Para viver a vida com sentido, gosta de ir a concertos, a museus, fazer hidroginástica, tomar chá com as amigas e fazer o chamado voluntariado informal: «Gosto de ajudar as pessoas amigas que precisam de mim, como é o caso de uma senhora de 80 anos que anda com uma canadiana e, quando posso, vou andar com ela um bocadinho a pé. Também tenho outras pessoas no prédio que quando precisam de ir ao hospital vou com elas. Quem precisar de mim, dou uma ajudinha. Quando eu precisar, também vou querer que me ajudem», conclui.
Celeste Barreiros, 84 anos, está ali sentada na sala de espera do centro de saúde enquanto aguarda o filho, que a vem buscar. Foi o colesterol que a trouxe à consulta, que «muito incomoda». Conta que vem ao médico de três em três meses, mas ainda aqui esteve há um mês. Considera que «os portugueses se queixam muito porque têm uma vida muito afogada».
«Qualquer coisa que aconteça, temos medo que nos afete e há muita gente que tem medo de morrer e recorre muito aos médicos, vêm por tudo e por nada.»
António Simões, 64 anos, reformado, confessa que chega a vir 10 vezes por ano ao centro de saúde por ter «problemas diversos «que tem de tratar»: coração, visão, pele, etc. O antigo engenheiro químico diz que, depois de se aposentar, para além de ter começado a cantar num coro, ler mais e conversar com pessoas através da Internet, passou a «dedicar tempo à saúde» e só lamenta «a degradação dos serviços por imposições colocadas ao sistema que têm a ver exclusivamente com a necessidade de se poupar, o que acaba por recair tudo sobre os utentes».
Graça Queridinho, 43 anos, está a acompanhar o filho adolescente, 14, nas consultas de rotina de saúde oral. Esta bancária, que vai ao centro de saúde duas vezes por ano, considera que os «portugueses se queixam com razão, porque vivem numa situação de muito aperto – situação esta que foi criada por má gestão dos dirigentes e nós somos todos penalizados. Eles continuam a fazer o seu trabalho mal e quem paga esta fatura somos nós.»

