Um dos problemas graves e incontornáveis dos separados e dos divorciados é o do perdão, condição indispensável para realizar finalmente a passagem de "uma vida feita em cacos" para um renascer frutuoso. O rancor, o desejo subtil de vingança, embora inexprimido, o ódio não manifesto, a ira não aplacada, constituem fatores de destruição para a pessoa que os experimenta, obstáculos para a graça. São problemas humanamente compreensíveis, sobretudo quando se é vítima de infidelidade e de traição; mas um itinerário de pacificação consigo mesmo, com Deus e com os outros exige um percurso no qual se elabore e amadureça um processo de perdão.
Perdoar é a condição para ser perdoado [«Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (MT 5,7)], mas neste processo é preciso não só perdoar os outros, como também a si mesmos e Deus (operação por vezes mais difícil do que perdoar o outro). Muitos, porém, põem-se outro problema: onde ir buscar a energia espiritual necessária, se em determinadas situações de vida não se pode aceder à Eucaristia? Numa perspetiva exageradamente "sacramentalista" da Igreja, a exclusão do banquete eucarístico soa como exclusão da vida de graça e da comunidade. Nunca é demais relembrar que todos os que vivem em situações familiares "irregulares" não são pessoas "excomungadas".
A circulação da graça
De facto, o Batismo realiza a incorporação em Cristo e na Igreja, ativando a circulação da vida da graça, que passa da cabeça-Cristo para os membros. No passado correu-se o perigo de "coisificar" a graça: falava-se mais de "graças" (no plural) que de "graça" (no singular). Esta deve ser lida corretamente, em termos pessoais; não é, portanto, alguma coisa, mas é Alguém: é o auto-dom gratuito de Deus Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. Toda a realidade cristã, toda a realização autenticamente cristã, toda a realização autenticamente eclesial, traz o selo da graça. É claro que os sacramentos constituem o sinal mais visível, no seu evidente sintetismo, mas não é supérfluo afirmar que existem muitos outros caminhos, mesmo a-sintéticos, através dos quais a graça se oferece aos crentes para os reabilitar, para os transformar e conduzi-los à salvação.
Podemos elencar alguns destes caminhos, de modo exemplificativo, embora não exaustivo:
a) a palavra de Deus; b) a comunidade eclesial [«Porque onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles» (MT 18,20)]; c) o amor aos pobres: [«Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (MT 25,40)]; d) a esmola, que no dizer dos Padres da Igreja, apaga um grande número de pecados; e) o perdão, especialmente o que é dado aos "inimigos" (cf. MT 5,44); f) a aceitação da dor como ocasião para participar no mistério pascal; g) o esperar, contra toda a esperança, em Deus, com abandono confiante; h) o dar a própria vida por amor, prerrogativa de Cristo e dos cristãos enxertados vitalmente nele; i) a comunhão espiritual (de desejo); j) o espírito das bem-aventuranças; k) a obediência respeitosa à Igreja, mesmo quando há dificuldade em compreender as orientações e normativas pastorais; l) a comunhão dos santos, mesmo quando falta a comunhão das sagradas espécies.
Olhos de fé
Como num castelo de cem divisões, mesmo que não seja possível aceder a uma delas, ainda que fosse a mais importante, é dado viver e fruir das outras noventa e nove, nas quais o dono da casa oferece os seus cuidados paternos e um acolhimento caloroso e transformador, assim deveria ser na Igreja de Jesus Cristo, acima de tudo mãe e por isso mestra: mesmo que não seja possível aceder à Eucaristia, pode usufruir-se da graça por outras vias. A suspensão do juízo por parte da Igreja sobre a salvação final das pessoas é sinal de que esse pertence somente a Deus, o único que sonda os corações e conhece as intenções mais íntimas do ser.
Deus não é um foragido. Para se abrir à novidade de Deus, é preciso ter olhos de fé para descortinar aqueles sinais de novidade, que mostram a impossibilidade de decidir o futuro a partir do passado e do presente: «Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis?» (IS 43,19) Mesmo no meio de destroços, a vida pode continuar a ser a expressão de um «canto novo» (SL 40,4): com os fragmentos desalinhados de um desenho original é possível compor inéditas obras-primas de vida. Pode colher do alto aquele «nome novo» (IS 62,2) que é uma identidade renovada. «Transformaste o meu luto em dança» (SL 30,12), reconhece o salmista, na certeza de que Deus tudo pode e que pode mudar a sorte dos infelizes.
A crise conjugal pode então ser lida e vivida como um kairós, uma ocasião propícia para descobrir, embora no sofrimento, a presença eficaz de Deus. Deus não é um foragido, não se diverte nas costas dos que sofrem: Deus sofre juntamente com todos os que são postos à prova. A bem-aventurança proclamada no sermão da montanha – «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados» (MT 5,4) – não exalta o sofrimento em sentido masoquista nem a resignação: oferece, sobretudo, um horizonte de sentido a uma aflição vivida não numa condição de estranheza ou rebeldia contra Deus, mas em comunhão sofrida com o Senhor. O importante é dirigir-se a Deus sempre com o tu, ou seja, não interrompendo a relação de amizade. Se somos partners de Deus, a nossa humanidade pode e deve manifestar-se em todas as tonalidades do nosso sentir. Desde que o diálogo não se interrompa, é lícito apelar para Deus, como fez Job, mantendo, porém, os ouvidos e o coração atentos à sua Palavra, sobretudo sem ter a pretensão de fazer de Deus alguém à imagem e semelhança do Homem, mas sentindo-se prontos para acolher a sua absoluta e irredutível alteridade.
Rebentos para uma vida boa
As orientações aqui apontadas pretendem levar a uma reorientação para uma vida boa, que tenha valor e que mereça ser vivida, pois que está cheia de sentido. Trata-se de uma autêntica passagem das trevas para a luz: das trevas do egoísmo, do fim de um amor, do pecado, da infidelidade consumada ou sofrida, da mentira, da divisão para a luz do perdão pedido e concedido, da cura respeitosa do outro, da busca sincera do rosto misericordioso de Deus e da comunhão com ele, e sobretudo do dom gratuito de si mesmo aos outros, especialmente aos mais necessitados e aos mais pobres.
O amor é a via mestra que conduz à vida boa, à novidade da existência, à salvação eterna [(cf. 1JO 1,4): «Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus»]. Vencer o ódio, superar a ira e o desejo de vingança e converter-se, na mansidão, ao amor gratuito e misericordioso: isto é passar da morte para a vida, das trevas para a luz. O horizonte da esperança abre-se também para aquele que não obedeceu ao mandamento de Jesus: «Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher? E que disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? [...] Portanto, não separe o homem o que Deus uniu.» (MT 19,4-6)
Transformar a própria ex-istência numa pro-existência é o caminho áureo que conduz à plenitude de sentido da vida humana. O dar-se sem condições nem reservas, o fazer-se servos com amor generoso e tendencialmente universal, fruto inequívoco do Espírito, coloca a pessoa, juntamente com Cristo, no coração amoroso do Pai e projeta-a para a plenitude do amor escatológico.

