A literacia financeira «é a capacidade de fazer julgamentos informados e tomar decisões efetivas tendo em vista a gestão do dinheiro» (definição da National Foundation for Educational Research).
Fazemos tanto melhores julgamentos e tomamos tanto mais acertadas decisões quanto mais informados estivermos. Este é o primeiro ponto a ressalvar sobre a importância da literacia financeira, facilitar a gestão das finanças a curto, médio e longo prazo. Só assim se consegue fazer face a percalços.
Prevenção de crises futuras
A literacia financeira tem ganhado também maior relevância no contexto atual da crise mundial. Por esse motivo arrancou em Portugal um projeto de formação financeira, o Plano Nacional de Formação Financeira 2011-2015, que ilustra a importância atribuída a este tipo de literacia, não só num contexto particular, das famílias, mas alargado, do país. «A maior ênfase atribuída à literacia financeira, em complemento ao reforço da regulamentação e transparência de informação, surge como forma de contribuir para uma retoma económica sustentável, bem como para a prevenção de crises futuras», refere o documento do plano.
Sistemas financeiros transparentes e que saibam informar, bem como utilizadores que saibam perguntar e conhecer são meio caminho andado para as coisas correrem bem à economia do país e à nossa.
É por estes motivos que trazemos este tema à rubrica de educação. A literacia financeira é um fator importante na vida familiar e na educação dos mais novos (e também dos pais). Os problemas financeiros podem conduzir a situações delicadas, principalmente quando envolvem famílias com crianças.
Solicitada desde 2000 para ajuda a famílias em situações financeiras delicadas, desde logo a DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor – procurou trabalhar num projeto que visasse a literacia financeira, de modo a poder dotar os consumidores portugueses de competências para resolverem as suas situações e para acautelarem o futuro.
Constrangimentos financeiros fizeram com que apenas na segunda metade de 2011, e a coincidir com o pico da crise, se materializasse o projecto «Gerir e Poupar» que funciona através de «brigadas» que se deslocam por todo o país até ao fim deste mês e tentam «formar» consumidores, técnicos de ação social, professores e alunos com conhecimentos para se tornarem consumidores financeiramente competentes.
Um consumo competente e consciente será um fator decisivo para melhorar a situação das famílias no presente, através da boa gestão financeira do quotidiano, mas também no futuro, através da aquisição de bons hábitos e novas responsabilidades. «De uma forma resumida, as competências de literacia financeira são as que as pessoas precisam para gerir melhor o seu quotidiano do ponto de vista financeiro, mas não só. Até em termos futuros, para tomar as decisões mais acertadas. E isto é tanto mais importante nos tempos de hoje em que possivelmente não vamos ter asseguradas no futuro as nossas reformas ou os nossos cuidados de saúde, portanto vai haver um decréscimo das prestações sociais por parte do Estado e esta responsabilidade é transferida quer para os privados, empresas e o próprio mercado financeiro, quer para as pessoas», considera Fernanda Santos, responsável pelo projeto da DECO.
Se vamos ter de assegurar todo o nosso percurso financeiramente, temos de estar preparados para fazer escolhas, temos de ser letrados.
E por isso falamos em literacia e não em informação financeira. O Banco de Portugal, na apresentação dos principais resultados do Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, 2010, refere que «a mera disponibilização de informação não significa que o destinatário apreenda conhecimentos que o ajudem a tomar decisões ou influenciem os seus comportamentos».
A necessidade de compreender
É preciso compreender, para além de apenas saber. Podemos saber que existem vários tipos de créditos, mas não compreender a diferença entre eles, podemos saber solicitar um crédito, mas não conseguir avaliar as consequências do mesmo, podemos ter consciência de que devemos poupar, mas não saber aplicar em produtos que nos tragam benefícios.
Mas sobre o que precisamos de estar devidamente informados quando falamos em literacia financeira?
Sabe qual é o primeiro gesto de inclusão financeira? Sabe o que é um spread? Sabe o que é um seguro? Sabe fazer um orçamento familiar? Consegue poupar parte dos seus rendimentos mensalmente? Sabe que tipos de impostos existem?
Estas são apenas algumas respostas que devemos conseguir compreender para podermos tomar decisões acertadas e para sermos consumidores competentes.
É na resposta a este tipo de questões que o projeto «Gerir e Poupar» procura ajudar as populações. E os portugueses têm, de facto, baixos níveis de literacia financeira.
O relatório do Banco de Portugal revela fragilidades a vários níveis, como o da poupança, do endividamento, da compreensão do crédito.
A experiência da DECO com os consumidores e famílias portuguesas corrobora os dados daquele documento. «A parte do crédito e a parte da poupança são aquelas em que se verificam mais dificuldades. Por um lado, na área do crédito as pessoas têm dificuldades em ter um total conhecimento de como é que funciona, quais as vantagens e quais os riscos. Na área da poupança, acima de tudo as pessoas deixaram de poupar e de recorrer a produtos financeiros desta área, também porque até hoje não eram vantajosos. Mas para além disso há muitas outras dificuldades que são sentidas por parte da população na escolha de diversos produtos financeiros. Mesmo a nível da gestão quotidiana se verificam dificuldades por parte da população, as pessoas não se habituaram a fazer uma planificação das suas poupanças pessoais e a planear as suas despesas e os seus gastos. Agora sentem dificuldades quando os orçamentos se apertam mais um pouco, em fazer uma boa gestão dos mesmos», explica Fernanda Santos.
Natália Nunes, do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado, confirma que a redução dos rendimentos tem sido a causa principal do endividamento das famílias. «A principal causa que tem levado as famílias a entrarem em situação de sobre-endividamento é a diminuição de rendimentos provocada em primeiro lugar pelo desemprego. Este ano também os cortes salariais a nível da Função Pública, o corte de horas extraordinárias, o corte das comissões, têm contribuído para o aumento das dificuldades.»
Há que aproveitar o lado positivo da crise para resolver os problemas de raiz, a começar pelos mais novos, dando-lhes ferramentas. «Os jovens são aqueles que vão necessitar mais no seu futuro de boas competências na área da literacia financeira, porque há muitas responsabilidades que vão ser transferidas para eles e portanto vão ter de ser eles a saber gerir, de futuro, as suas finanças para acautelar muitas situações, desde a sua educação, a sua saúde, as suas reformas... e, portanto devem estar preparados para lidar no mercado financeiro, que já é complexo, mas que se vai complexificar cada vez mais.»
Com a ajuda da escola, por exemplo, através da disciplina de Matemática pode iniciar-se a descoberta do dinheiro e do seu valor. «A Matemática, por exemplo, que é uma das áreas fundamentais na literacia financeira, já trabalha muito estas questões financeiras, do dinheiro, das compras, do troco e portanto isso já são situações que ajudam as crianças», explica Fernanda Santos.
Com a ajuda das famílias, numa coisa tão simples como a gestão da mesada, podem conseguir-se bons "gestores". Estipular uma semanada para os mais pequenos, dando-lhes indicação de onde a podem gastar e ensinando-lhes que daquele valor devem poupar uma percentagem, obriga a um planeamento por parte da família e a uma aprendizagem de gestão por parte da criança. São dois bons exercícios. «É muito importante que eles consigam fazer as suas compras, definir os seus objetivos e atingi-los, mas um dos objetivos deve ser também a poupança. Há uma pequena parte que pode ir para o seu mealheiro. Se a criança começa com semanada, mealheiro e, depois mais tarde com a mesada vai-se habituando a gerir o seu dinheiro, a fazer as suas escolhas, a ter mais responsabilidade no uso do dinheiro para a satisfação das suas próprias necessidades que são próprias das crianças... mas que vai ajudá-las de facto a fazer uma melhor gestão do uso do dinheiro depois quando crescerem. Este trabalho tem de efetivamente começar muito cedo», recomenda.
A literacia financeira não é sempre sinónimo de adoção de bons comportamentos, tem de existir vontade, mas permite ter todas as informações disponíveis para ter consciência das consequências de determinada escolha.

