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Família

Casa de pedras vivas

Quinta-Feira, 31 Maio 2012

O ponto de vista eclesiástico e secular estiveram unidos ontem no Congresso Internacional Teológico Pastoral, na Fieramilanocity (A cidade da Feira de Milão), após a inauguração do VII Encontro Mundial das Famílias.

O Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Família, afirmou que a instituição família tem raízes importantes na Bíblia. Na sua comunicação A família entre obra da criação e festa da salvação, Ravasi realçou que um dos termos mais frequentes nas Sagradas Escrituras judaico-cristãs é o de "casa" ("bajit/bet, repetido 2092 vezes no Antigo Testamento e "oikos/oikía" repetido 209 vezes no Novo Testamento).
A imagem da casa tem um valor religioso e cultural. A casa é um «espaço indispensável, onde a família deve sobreviver e viver, e é constituída por pessoas que na família vivem, sofrem, estão em tensão ou dialogam», afirmou o cardeal, citado pela Zenit.

Na casa existem muros de pedras vivas, metáfora dos filhos, de algo que cresce, que tende para cima. Ravasi disse que «a plenitude da família tende a ser confiada à prole».

A «casa» ou a família, é composta por três «quartos». O primeiro é o quarto da dor, ou seja, da laceração, da incompreensão, da violência, que a mesma narrativa bíblica dá muitas vezes testemunho.

As mesmas lacerações podem ocorrer hoje, em forma diferente, na fecundação in vitro, no casal homossexual, na clonagem e em vários «desconcertantes caminhos bioéticos» que ameaçam minar os alicerces da instituição familiar.

A segunda sala é a do trabalho: na sua obra da criação, Deus «não é certamente semelhante a um guerreiro destruidor, como se pintava, ao contrário, nas antigas cosmologias do Oriente Próximo», mas semelhante a um «trabalhador» que trabalha por uma semana laboral de seis dias (Gn 1,1) ou a um «pastor» (Salmo 23) ou um «agricultor» (Sl 65,10-14).
É nesta ótica que o salmista pinta um «delicioso interior familiar que tem no centro uma mesa festiva onde está sentado o pai que pode alimentar-se a si mesmo, a sua esposa comparada à uma videira fecunda, e os filhos, vigorosos brotos de oliveira, por meio da fadiga das suas mãos» (Sl 128,2-3).

O salão de festas é também o salão da «alegria familiar». Através da festa o homem, de imperfeito como ele é, se torna «perfeito», entrando «no transcendente, no culto, no eterno».

O ponto de vista secular, marcadamente socioeconómico, foi analisado por Luigino Bruni, professor adjunto de Economia Política da Universidade de Milão-Bicocca. Segundo Bruni, a cultura dominante de hoje, olha «muito para a economia e pouco para o trabalho».

Erroneamente continua-se a perceber a economia como dialética «entre trabalhor e empreendedor», quando as duas categorias estão sujeitas ao mesmo domínio das finanças.

Segundo o professor, «deve-se voltar ao centro de todo o trabalho». Em vez disso, na mentalidade de hoje, «domina a cultura do incentivo, pela qual se trabalha duro só para a perspetiva de ser pago a mais».

Não se pode, no entanto, esgotar o trabalho somente no lucro: deve-se, pelo contrário, redescobrir a ética do «trabalho bem feito» que, disse o economista, «aprende-se facilmente em família». É, de facto, em família que se aprende a cultura da gratuidade, compreendida não tanto como sacrifício ou como trabalho gratuito, quanto como dom.

A mentalidade do incentivo a todo custo, portanto, acaba por arruinar a melhor parte dos trabalhadores, «comprando» o seu coração e sua alma e «secando» a força de trabalho.

Na conclusão do seu discurso, o professor Bruni ofereceu várias propostas a fim de «re-humanizar» a relação economia-família: proibir as publicidades dirigidas às crianças, dirigindo-as como alvo para os pais, e proibir também qualquer publicidade de máquinas caça-níqueis e outros jogos de azar, todos substancialmente prejudiciais às relações familiares.

Publicado em Actualidade

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