Domingo, 26 de Outubro de 2014
 
   
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«ONU está a começar a reflexão pós-2015»

Sexta-Feira, 13 Abril 2012

Jan Vandemoortele é um dos autores dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), que há 12 anos atrás estipularam metas para que o mundo em 2015 estivesse mais justo e com menos pobreza que na altura. Jan esteve em Lisboa numa palestra organizada pela Fundação Fé e Cooperação (FEC), e falou em exclusivo à Família Cristã sobre os ODM, o que podemos esperar até 2015 e principalmente do que devemos fazer após terminar este prazo.

Família Cristã - Ainda é possível cumprirmos os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio até 2015?
Jan Vandemoortele -
Está a ficar muito difícil, e é praticamente impossível que o consigamos, mas isso não quer dizer que eles não fossem realistas quando foram definidos. São realizáveis porque foram criados no pressuposto de que se continuássemos o ritmo de progresso que tivemos nos anos 80 e 90 eles seriam realizáveis. O que isso significa é que nestes últimos anos tivemos um desenvolvimento menor do que nas décadas anteriores.

FC - O que é que falhou?
J.V. -
Tenho vindo a pensar muito sobre isso. Há muitos fatores. Podemos começar com a discriminação de género, que continua a ser muito grande; A sida apareceu em escala, pois apesar de já existir antes, foi nos anos 90 que ganhou maior preponderância. A doença tornou os objetivos mais difíceis de atingir em campos como a educação e a agricultura; As mudanças climáticas trouxeram padrões climáticos irregulares. Mas para mim há um fator que se destaca: as crescentes desigualdades dentro das sociedades. Há um crescente fosso entre os que têm e os que não têm. E não falo apenas de dinheiro, falo de acesso a cuidados de saúde, educação básica. O que vemos é que o progresso chegou a todos os países, mas se olharmos com atenção para quem beneficiou dele, a história é sempre a mesma: um pequeno grupo de pessoas está a ficar com a maioria dos benefícios desse progresso, e os outros não veem uma mudança tão grande.

FC - Deixamos então de ter diferenças estre países do Norte e do Sul, e passámos a ter essas diferenças dentro de cada país?
J.V. -
É aí que está a acontecer, sejam os países desenvolvidos ou não. Acontece em Portugal, que é um país muito desigual. A Bélgica tem menos diferença, mas está a piorar também. América é o exemplo maior, mas o que é facto é que isto acontece na maioria dos países. Fazem progresso, mas as pessoas que beneficiam desse progresso não são as pessoas que deveriam beneficiar. Falamos dos mais vulneráveis, mais carenciados. Não falamos de mim ou de si, que já temos tudo isso garantido. Mas também não quero ser assim tão pessimista…

FC - Mas é possível fazer as coisas de forma diferente?
J.V. -
Há alguns países que nos mostram que podemos ter progresso rápido e igualitário. Não são muitos, meia-dúzia, talvez, e entre esses países está o Brasil. É ainda um país desigual, mas deu a volta, e nos últimos dez anos, sob a presidência de Lula da Silva, começou a dar a volta à situação. Está a fazer muitos progressos em toda a área, educação, higiene, etc, e são as populações mais carenciadas que estão a ver e a beneficiar com os resultados desse progresso.

FC - Porque é que uns conseguem e outros não?
J.V. -
Se o Brasil e o Bangladesh (outro excelente exemplo) o conseguem fazer, não há razão para que outros não o façam. Mas é como se diz, “o diabo está nos detalhes”. Se estudarem a forma como cada país o conseguiu fazer, todos o conseguiram de formas diferentes. É bom aprendermos estas lições, e levá-las para outros países, mas o erro que cometemos é que quando temos um exemplo válido, assumimos que se pode aplicar em qualquer país da mesma forma. E isso é errado. Porque todo o desenvolvimento é contextual, acontece num determinado país, numa determinada altura e sob determinadas condições, e é levado a cabo por atores e políticas locais. Cada país deve fazê-lo à sua maneira. Devemos aprender as lições, mas temos de ver de que forma as podemos aplicar nos outros países. Cito muitas vezes um poeta espanhol, chamado António Machado, que diz “se faz caminho andando”, e é isso que temos de fazer.

FC - É por isso que agora já sugeriu que cada país deveria definir os seus ODM, a partir de 2015?
J.V. -
Na altura, era evidente para mim que os objetivos globais apenas se aplicavam ao nível global. Nós adaptamos esses objetivos a cada um dos nossos países. No entanto, essa ideia perdeu-se a partir de 2000 e só me apercebi disso anos mais tarde, quando vi que os países estavam a utilizar os objetivos globais à escala nacional. Claro que havia agentes que forçaram para que isto acontecesse, porque tinham interesses instalados que lucravam com essa abordagem. Mas hoje é claro para todos que isso não se pode fazer.

Não discriminar, mas reunir e sensibilizar

jan_vandemoortele_2FC - O que deve acontecer aos países que não cumprirem os ODM?
J.V. -
Os países que não cumprirem os ODM em 2015 não devem ser colocados numa lista à parte, porque os objetivos globais apenas se aplicam ao aspeto global. Não é suposto que Angola, por exemplo, consiga cumprir os ODM, pois eles não foram criados para Angola apenas, foram criados para todos os países em conjunto. Com a história que o país tem, é normal que não consiga cumprir os objetivos todos. Não deveria haver discriminação dos países que não atingiram os ODM. O que deveria haver era a resposta a esta questão: «tendo em conta as suas condicionantes e as suas condições, este país chegou o mais longe que era possível na prossecução dos ODM?» Aí veremos que, por exemplo, África está a cumprir mais do que muitos outros países para o progresso global.

FC - E se não tiver atingido?
J.V. -
Se não atingirem, então têm de ser chamados à responsabilidade dentro da comunidade internacional. Mas não podemos impor sanções, como a Comissão Europeia está a fazer nos nossos próprios países agora com a crise. O que temos é de ir até esses países com os ODM e sensibilizar os atores locais para que façam um trabalho melhor a partir dali.

FC - Mas se formos estabelecer objetivos específicos para cada país a seguir a 2015, vamos aumentar essa responsabilização…
J.V. -
Sim, é verdade. É por isso que eu sugiro que se crie uma equipa de trabalho independente, global, que não existiu até agora, que possa ir aos países e garantir que os objetivos estão a ser concluídos. Têm de ser pessoas com credibilidade, com moral (acho que o Lula da Silva podia ser uma delas), que possam questionar os líderes mundiais e possam dar o crédito onde é merecido, como no Brasil e no Bangladesh, e apontar o dedo onde tem de ser apontado. Neste momento não temos isso, porque o Secretário-Geral da ONU é uma figura muito política para ter este espaço de manobra.

FC - Sugeriu também a criação de um grupo de reflexão para preparar o pós-2015. Há novidades?
J.V. -
A boa notícia é que internamente a ONU está a criar esse grupo e a começar um caminho de reflexão. No final deste ano, o secretário-geral vai criar um grupo de trabalho, com pessoas nomeadas por ele de vários pontos do globo, e eles vão fazer esse trabalho de reflexão. Espero que o Lula da Silva esteja lá.

FC - Lula é uma referência para si?
J.V. -
Sim, sem dúvida. Ele tem a credibilidade necessária aos olhos dos outros líderes, e tem trabalho comprovado no campo nessa área. Portanto, quando ele for apontar dedos e desafiar líderes mundiais, as suas palavras serão bem acolhidas, porque vai ser considerado um comentário sério. Se pegássemos noutros líderes, como Mobutu, e os puséssemos a fazer esse trabalho, ninguém os iria levar a sério. E se não tivermos um líder desse calibre, e com disponibilidade de tempo para levar a cabo essa tarefa, como por exemplo Kofi Annan, que era outra boa hipótese, esse trabalho não se fará…

Igreja conhece o terreno, e por isso tem credibilidade

jan_vandemoortele_3FC - Como avalia o trabalho feito pela Igreja na prossecução dos ODM?
J.V. -
Acho que o trabalho da Igreja tem sido fantástico. Voltei agora ao meu país, a Bélgica, e fiquei espantado por ver de que forma os ODM têm sido usados para informar e mobilizar as pessoas nos países do Norte em relação às questões do desenvolvimento, e muito desse trabalho foi feito pela Igreja. Apenas posso falar pelo meu país, mas as Igrejas, os bispos, as ONGD, estão a dar um bom exemplo de como podemos usar os ODM para nosso proveito. E é graças a este trabalho que quando pensamos no período pós 2015, as pessoas querem algo semelhante, para continuarem esse trabalho.

FC - Em muitos países, a Igreja é a aliada preferida no que toca a projetos de desenvolvimento…
J.V. -
A Igreja tem a credibilidade de estar no terreno, em ação. Não dá opiniões vagas, ditas no ar, são apoiadas na certeza de quem conhece o terreno, e isso é algo de muito importante.

FC - Pode a vontade de muitos fazer frente a interesses corporativos, corrupção, e a vontade dos poucos que controlam o poder?
J.V. -
Eu espero honestamente que sim. E os movimentos que temos tido, dos Indignados, do Occupy Wall Street, etc, são a prova de que a vontade de muitos pode mudar algo, e todos têm de a ouvir. A questão é como transformar a voz de muitos num movimento, e há condições que têm de ser cumpridas para que se torne num movimento poderoso.

FC - O problema é que quando se transforma num movimento, vão ser outra vez apenas alguns a falar…
J.V. -
Sim, tem razão, mas nós precisamos disso. O ser humano precisa de olhar para líderes, precisa de ter as coisas estruturadas. Se não houver liderança forte, esvazia-se, e os poderes instalados vão dar uma boa gargalhada e continuar a fazer o mesmo. É esse período de transição que interessa, e este período está a acabar, porque esses movimentos que surgiram estão a perder outra vez força. As pessoas apenas se mobilizam para determinados eventos, e depois precisam de ver resultados. Se não virem resultados, desanimam e desistem, porque têm outras coisas para fazer. E na próxima vez vai ser ainda mais difícil reorganizar as pessoas, porque elas vão dizer «já o fizemos, e não resultou».

FC - Ideias como Economia Social e Comércio Justo podem ajudar a minimizar as diferenças e a aumentar a probabilidade de se atingirem os ODM?
J.V. -
Sem dúvida nenhuma! O Comércio Justo é uma história de sucesso na Europa, com vários países a registarem crescimento nessa área. É como dizia, isso é algo de tangível, que se vê, as pessoas estão dispostas a fazer esse sacrifício, porque compreendem o resultado, conseguem medi-lo. E com esses movimentos de indignados é difícil ver os resultados práticos. Com estas coisas, temos de retirar as ilações, e se esses movimentos se puderem ligar a coisas práticas

Entrevista por Ricardo Perna
Publicado em Actualidade

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