Família Cristã - Porque é que surge esta candidatura?
Pe. Arsénio Isidoro - Ela surge como resposta ao descontentamento de muitas instituições que se confrontam com dificuldades e se foram reunindo, envolvendo-se num clima de partilha e reflexão. Eu próprio fui envolvido nesse dinamismo de partilha, de reflexão sobre soluções, e só o facto de nos juntarmos aponta uma solução, e surgiu o que é próprio de quem se junta e se entusiasma uns aos outros, que foi uma ideia de movimento, o Movimento Juntos pela Solidariedade Solidária, e não apenas por uma bandeira de solidariedade que se esgota naquilo que não é. Esta solidariedade solidária fui apanhado por ela e, por insistência dos colegas com quem reunia, apontado como um líder, uma pessoa que podia assumir este lugar de serviço como presidente da direcção à CNIS. Ela é fruto de uma desmotivação e um desnorte que sentimos, e são muitas letras d que reclama uma letra de esperança, de uma via mais forte, mais atuante, mais visível.
FC - Desmotivação e descontentamento porquê?
P.A.I. - Porque nos sentimos abandonados em relação à atuação da CNIS, que vive muito à volta de si própria. A CNIS surgiu para que os pequeninos tivessem uma voz, uma voz forte, atuante, visível e que defendesse os nossos direitos. Neste momento sentimos que a confederação não respeita os seus próprios princípios. Vive muito à volta de si própria, e esgotou o poder efetivo das uniões distritais. Um exemplo tão simples é o desta votação: porque é que temos todos de ir a Fátima votar? Podíamos votar na união distrital, que é um órgão intermédio. Ligar as instituições diretamente à CNIS é um erro, pois perdemos essa noção de proximidade, essa possibilidade de estar mais atentos porque é ao nosso lado. As uniões foram despidas desse poder efetivo, não têm meios para auxiliar as instituições de facto.
FC - Espera bastante participação na votação?
P.A.I. - Não, porque o único local de votação nacional é em Fátima e este ano nem sequer há um congresso, com um tema ou debate para apresentação do programa. É só votar e vir embora, das 11h às 15h, e isso vai afastar um bocado as pessoas que poderiam ir votar. Foi uma decisão da direção, não faço ideia porquê.
FC - A CNIS fala por todas as instituições?
P.A.I. - Sim, deveria, porque somos 250 mil trabalhadores, 5,6% do PIB, portanto temos números grandes que nos permitem uma voz forte. Mas nós não nos sentimos fortes, pois não sentimos uma solidariedade solidária, mas solitária. E assim não sentimos uma voz forte.
FC - Exprimiu algum desacordo com o acordo conseguido com o Governo?
P.A.I. - Eu não sou desfavorável a este acordo, aliás fomos a única confederação que teve aumento de verbas. O problema não é o protocolo em si, mas o que perdemos de benefícios e isenções fiscais. Outra coisa é que nós pagamos o aumento da eletricidade e tudo o resto. Só o aumento de vencimento de uma educadora com 3 anos cobre o aumento que recebemos no acordo, portanto pode ver o quão insignificante ele se torna. Nós tínhamos uma TSU a 19%, e vamos passar para 21%. Portanto, não é o acordo que está mal, são todas as isenções e benefícios fiscais de que fomos lapidados. Nós não faturamos IVA, e neste momento uma empresa tem mais benefícios que nós.
FC - Vocês acham que a CNIS poderia ter tudo uma voz mais ativa no processo?
P.A.I. - Nós temos que ter força. Se não somos defendidos, não temos outra saída que não seja sermos subservientes do Estado, e isso não pode acontecer, temos de ser vistos como parceiros. O Estado não pode olhar-nos de cima para baixo, tem de sentar-se ao nosso lado e falar em pé de igualdade, porque a parceria e a cooperação não tem a ver com subserviência. Não podemos apenas ser prestadores de serviços a baixos preços, temos de ser, e somos, mais. O legado dos que nos trouxeram até aqui leva-nos a acreditar que é possível esse diálogo com o Estado. Há que provocar no Estado e na sociedade um novo conceito de solidariedade, desembocando num novo modelo social, que este está esgotado, não nos serve e não é adequado a este tempo. Temos de repensar o modelo social de futuro, a longo prazo, e não apenas respeitando a legislação de curto prazo. Senão, cada vez que muda a ideologia no governo, mudamos a atuação.
FC - O problema é que a curto prazo há quem seja afetado...
P.A.I. - Mas neste momento há IPSS que estão falência técnica, e isso não pode acontecer. Eu gosto de dizer que uma IPSS sustentável é uma IPSS justificável. Se assim não fosse, já muitas tinham ido à falência, porque é insustentável convivermos com uma economia que nos atrofia, e nem permite que façamos o bem bem feito. A ideia de lucro social, por exemplo, tem de avançar. Nós não podemos ter lucro, porque somos uma instituição sem fins lucrativos. Isto significa que não podemos ter pequenos negócios que nos dariam alguma receita que poderíamos aplicar em fins sociais. E isso inviabiliza um outro dinamismo que não desresponsabiliza o Estado pela utilização do dinheiros dos nossos impostos, mas poderia dar outros meios às instituições. Tem de haver a criatividade de ousar repensar a solidariedade de forma unida, porque assim somos capazes de rentabilizar pequenas economias de escala. No outro dia, precisei de comprar 50 mil luvas, que me saíam a um preço. Mas eu juntei mais instituições e comprámos 500 mil, o que nos permitiu negociar um preço muito mais vantajoso. São estas economias de escala que podem ser rentabilizadas.
FC - E a CNIS poderia fazê-lo também?
P.A.I. - Isso é um perigo, pois se o fizéssemos a nível nacional quem iria ficar com o pacote seriam os grandes grupos e as grandes multinacionais. Não, eu defendo o fomentar a economia local.
FC - Mas isso é um equilíbrio difícil, conseguir o melhor preço e fomentar a economia local...
P.A.I. - Sim, pode ser, mas nós conseguimos preços muito baixos se fizermos uma negociação local juntando as instituições da zona.
FC - Ter 2700 instituições inscritas, mas apenas 600 votantes, também afeta a capacidade da CNIS poder ter uma voz forte...
P.A.I. - Mau grado o exemplo, quando vamos à cara do touro precisamos de ter um apoio por trás, ou a pancada que levamos é maior. Talvez tenha sido isso o que nos conduziu até aqui. Eu não tenho nada contra as pessoas que compõem a atual direção, acho que fizeram sempre o seu melhor. O que eu acho é que esta ideia de movimento juntos pela solidariedade solidária nos congrega mais, e é mais fácil enfrentar o touro se tiver gente por trás a apoiar. Portanto, defendo uma CNIS que seja descomprometida com todos os partidos políticos.
FC - A atual não é descomprometida?
P.A.I. - Temos assistido a uma junção conveniente seja com o governo de Sócrates, seja com este governo que está em função. Uma proximidade tão grande que quase não é nada, e isso, sem que nós nos apercebamos, vai roubando os nossos direitos e a nossa capacidade de lutarmos por eles. Fazemos uma vénia sem reclamar, e é complicado.
FC - O que é que a nova direção da CNIS precisa de fazer no imediato?
P.A.I. - Precisa de congregar as uniões distritais, precisa de estar próximo delas, e aproximar as uniões das instituições de base. Essa aproximação tem de ser feita de forma rápida e eficaz, e uma aproximação que implique cumplicidade, para que saibamos as reais necessidades, e depois a urgência é a geração de pequenos equipa de resgate e ajuda no campo da sustentabilidade, com a criação de um fundo de resgate. Não podemos continuar a ouvir falar de 50 milhões de euros que não existem, ou que não temos, ou que se temos ninguém sabe onde estão. Foram prometidos pelo Governo, mas a verdade é que nós não aguentamos muito mais, a corda está muito esticada.
FC - Até que ponto pode a CNIS intervir nas instituições que possam não estar a gerir os dinheiros da melhor forma?
P.A.I. - Poder pode, mas esta intervenção será sempre feita a partir das uniões distritais, numa lógica de ajuda a solidariedade. Por isso, é preciso dotar as uniões distritais dos meios para se fazer esse trabalho, essa é uma das primeiras medidas.
FC - Mas haverá poder para interceder junto das instituições?
P.A.I. - Neste momento a questão não é essa, a CNIS não é patrão das instituições, é um organismo de ajuda.
FC - Mas se vai gerir o fundo de resgate, tem de fazer essa avaliação...
P.A.I. - Essa gestão tem de ser feita pelas uniões distritais, não pela CNIS a nível nacional. Nós podemos contar claramente com uma auditoria interna que ajude, mas nunca numa onda de fiscalização, mas sim numa de pessoa de bem que está para servir e quer ajudar a instituição a dar o salto e a ganhar esperança.
FC - Mas não é fácil entrar em instituições que funcionam com o registo das "capelinhas"...
P.A.I. - Sim, é verdade, mas por isso o espírito de solidariedade solidária tem um grande peso mesmo entre nós. Quando eu falo em promover pequenas economias de escala, ou concertar formações porque há instituições que têm pessoal certificado e podem dar formação juntas... há grandes instituições que podem ajudar na proximidade outras mais pequenas, mas é preciso o incentivo e o abrirmo-nos ao outro. Mas neste momento o caminho é este e não pode ser outro. Perante a crise, o único caminho de saída é a união, e a união faz a força, como costumamos dizer, e aqui também. A partilha dos nossos saberes, das nossas competências e bens é que nos pode ajudar a superar esta dificuldade maior. Sem ela, eu morro. Sem uma conjugação de energias e sinergias entre as instituições, quem ficar sozinho está condenado à morte. Mas isso não depende da CNIS.

