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Revista Família Cristã
Julho 2010
Dossiê
Amália
A voz interior
 

Em linguagem do vinil, podemos dizer que Amália não tinha lado A nem lado B. Os dois estavam entrecruzados numa mistura quase indecifrável. Talvez por isso muitos se lembrem dela como sendo especial. E inolvidável.

Quando se pergunta àqueles que privaram com Amália durante décadas como ela era por dentro, a resposta é precedida por silêncios. Quase que procuram nas memórias algo que nunca chegaram a conhecer e a entender inteiramente. Era uma pessoa controversa e talvez isso tenha sido o mais fascinante na artista, sublinha Vítor Pavão dos Santos: «Tanto podia ser muito humilde como muito orgulhosa. Podia ser muito alegre e muito triste. Ela própria dizia que tinha uma natureza triste mas não podia ver ninguém triste ao pé dela - contava uma anedota, uma graça ou uma história», lembra o biógrafo de Amália.

David Ferreira, responsável pela colectânea Coração Independente, editada em 2009 para assinalar os dez anos da morte da artista, recorda o humor de Amália: «Ela tinha repentismos muitas vezes de cair da cadeira a rir», mas sublinha o pendor misto da mulher ora festiva ora trágica. «As duas Amálias são verdadeiras. Quem queira falar de uma Amália em detrimento da outra não está a dar o retrato completo. A Amália dos "Caracóis" que canta coisas alegres de folclore é tão verdadeira como a Amália do "Povo que lavas no rio" ou do "Cansaço".» O registo intermédio não cabia numa mulher de extremos.

A artista era uma mulher só que combatia a solidão com muita gente à volta. A casa amarela na Rua de S. Bento, transformada em Casa-Museu Amália Rodrigues, mais parecia «a estação do Rossio» com gente a entrar e a sair. Estrela Carvas foi colaboradora de Amália e é ela que hoje abre as portas da casa aos visitantes. Diz ter lidado com ela quarenta anos e presenciou episódios que ajudam a conhecer a dona da voz que levou o nome de Portugal mais longe.

A curiosidade pela mulher que escreveu e cantou «Foi por vontade de Deus /Que eu vivo nesta ansiedade/Que todos os ais são meus/Que é toda minha a saudade/Foi por vontade de Deus» leva-nos a explorar o lado espiritual.

Quando Estrela conheceu Amália, lembra-se das tentativas da artista para ir à missa, «mas assim que ela entrava na Igreja, o púlpito deixava de ser na frente; toda a gente se virava para trás e ela fazia sinal para todos se virarem para a frente».

Na Bélgica, na Holanda, na Dinamarca, em Israel, no Japão, ou onde quer que ela cantasse, no fim do espectáculo, conta Estrela, «íamos pôr as flores a Nossa Senhora». Recorda-se de um momento especial vivido no Brasil, em 1972, quando Amália foi cantar ao Canecão. À saída, a caminho do Copacabana Palace, onde estavam instaladas, Amália reparou num nicho com uma Nossa Senhora e comoveu-se diante da imagem «triste e abandonada». A artista levou flores, ajoelhou-se e rezou ali. Fazia isso sempre que por lá passava. No ano seguinte quando lá voltou, aquele que era um simples nicho já se tinha tornado num local de adoração popular. Muitas flores, muitas velas e um gradeamento a proteger a santa. «Foi Amália que deu vida àquele nicho», afirma Estrela que conta que Amália ficou «tristíssima» quando viu a vedação. «Diversas vezes saltei o gradeamento, a Amália atirava-me as flores e eu ia lá pô-las», lembra, acrescentando que, não raras vezes, a artista a chamava de «macaco».

Outro momento que guarda na memória foi passado no Guincho. Amália, «a grande vedeta dos palcos mundiais», e as amigas foram tomar chá ao ar livre, levaram a cafeteira e fizeram uma fogueira para aquecer a água. Na cesta estava também o pão e o queijo. Qualquer ocasião servia de pretexto para Amália colher flores, «todo o bicho careta de flores que visse no chão, apanhava». A loucura pelas flores era tal que perdia a noção de tudo. Amália viu, do outro lado da estrada, um nicho com outra santa e correu desenfreadamente para lhe entregar os chorões que tinha apanhado. Ia sendo atropelada. Valeu-lhe uma queda antes que fosse apanhada pelo carro. Estrela perguntou com humor a Amália: «Sabe, por que é que você caiu? Foi Nossa Senhora que a empurrou, porque - com tanta flor que tem em casa - ia dar-lhe dois miseráveis chorões. A Nossa Senhora não achou graça nenhuma.» No dia seguinte, Amália foi com Estrela a uma florista comprar um ramo de flores e voltaram ao Guincho, «pelo sim, pelo não, com medo que Nossa Senhora a empurrasse outra vez», graceja.

A devoção de Amália pela Nossa Senhora do Carmo é conhecida. A artista não entrava no palco sem rezar a oração que a avó lhe ensinou - que acreditava ser o mesmo que ir à missa - e sem levar, pendurado ao pescoço, «os seus santinhos». Numa vez, em Paris, Estrela deu-se conta de que os santinhos tinham ficado esquecidos no Mónaco e Amália ia cantar nessa noite no Olympia. Foi fretado um helicóptero para os ir buscar a Monte Carlo. O biógrafo lembra que se Amália «cantasse pior, dizia que era a Nossa Senhora do Carmo que tinha cantado

mal».

Amália costumava dizer que acreditava em Deus «sem esperança no céu nem medo do inferno». Uma frase que parece «quase uma negação da fé; ela tinha a noção de que há qualquer coisa que não se controla nem se entende completamente - mas nunca chega a reflectir ao ponto de organizar esse universo transcendente de uma forma que lhe dê garantia de salvação», é assim que interpreta David Ferreira aquelas palavras.

Vítor Pavão dos Santos explica que «mesmo que o céu não existisse, ela continuava a acreditar», mas não por «interesse ou para ser recompensada». Diz também que a crença de Amália terá passado por várias fases. Recorda-se de ouvir a poetisa Natália Correia perguntar: «Desde quando é que a Amália está tão beata?» A irmã, Celeste Rodrigues, que se assume como laica, afirma que «de muito nova, [Amália] não era assim tão crente como depois. O medo de andar de avião e essas coisas todas fizeram dela uma mulher mais crente.»

Leonilde Henriques - mais conhecida por Lili -, colaboradora de Amália desde 1986 até ao derradeiro dia, 6 de Outubro de 1999, diz que «quando havia discussão sobre fé e Igreja, quando perguntavam "se há Deus, por que é que acontece isto?", ela dizia: "Acabou, não quero mais conversa. Não quero que me tragam Deus cá para baixo como uma coisinha. Eu acredito em Deus como um mistério."» O biógrafo reforça que, «quando começavam [a falar de] coisas muito complicadas, a dar explicações, a trazer Deus até ela - ela não gostava».

Lili diz que até na fé Amália era especial, «aliás, como em tudo». Esta colaboradora organizava almoços - em rigor, seriam mais lanches porque Amália gostava de acordar tarde - com os chamados Amalianos, um grupo de admiradores, «gente simples», com quem a artista chegou a ir a Fátima de autocarro e assistia a missas.

Amália era uma pessoa generosa. Lili lembra-se de um homem, em Cantanhede, que subia uma encosta com a enxada às costas e Amália quis dar-lhe boleia. No fim deu-lhe dinheiro. O homem não a reconheceu e ela também não lhe disse quem era. Numa outra situação, em França, também deu boleia a um homem que levava um colchão às costas. Estrela também se lembra de Amália ter dado dinheiro a um homem «muito sujo com barba por fazer» à noite em Santa Apolónia. Ele, pensando que Amália era uma prostituta, refilou: «Sua maluca, sua porca, a esta hora da noite tenha juízo, vá mas é para casa.» Ela achou a situação muito divertida, pediu-lhe para ter calma e com a mão fechada passa-lhe uma nota de cinco mil escudos. Não raras vezes apareciam pessoas na casa amarela para lhe pedir dinheiro para os remédios. Dizia para irem aviar os medicamentos à farmácia que depois pagaria. O mesmo se passava no oculista. Terá pago óculos a pessoas que não tinham dinheiro para os comprar.

Defeitos, a artista também os tinha - como qualquer pessoa. As duas colaboradoras de Amália, em épocas diferentes, dizem quase o mesmo por palavras diferentes: «Amália não tinha defeitos - tinha coisitas, para aquilo que se vê hoje em dia...» Mas ambas acabam por dizer que ela, por vezes, era injusta: «Ao proteger uma pessoa, estava a ser injusta com outra sem ter culpa nenhuma.» O biógrafo conta que ela «tinha uma má relação com dinheiro; deixava passar as coisas». Quando Vítor Pavão dos Santos lhe perguntava quais os artistas de quem ela gostava, «punha sempre defeitos nos outros; achava que o Alfredo Marceneiro e a Hermínia Silva cantavam bem mas não iam muito longe».

Longe foi a voz de Amália que levou a língua portuguesa pelos quatro cantos do mundo. Era uma mulher que precisava de se alimentar dos palcos «como de pão para a boca». Mas foi também isso, segundo o biógrafo, que «a tornou solitária e às vezes um bocado amarga quando pensava no 25 de Abril - parecia que toda a gente se tinha voltado contra ela». Quem a conheceu diz que quando ela cantava ou apanhava flores no campo tinha momentos de felicidade. Lili recorda que, quando iam pelas veredas e alguém pisava uma flor, logo Amália chamava a atenção: «Olhe o que está fazer, não gosta de flores?» A artista gostava de ir fazendo raminhos pelo caminho para levar para casa e oferecer a Nossa Senhora ou ao Menino Jesus. Um dia, uns amigos apanharam-lhe tílias nas Amoreiras e ela até bateu palmas quando as viu: «Parecia uma criança encantada», enfatiza Lili.

Nos versos deixados por Amália, as palavras flores e campo foram escritas muitas vezes. Talvez por isso a irmã nos tenha dito que «Amália era uma mulher simples, tímida, maravilhosa, com uma sensibilidade muito grande - isso nem toda a gente percebeu», embora também fosse «teimosa e fatalista».

Com tudo isto que foi escrito e o que ficou por escrever, Amália faz lembrar o «contentamento descontente» de Camões ou o «triste e alegre» de Pessoa. É portuguesa, com certeza.

 

Sílvia Júlio