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Revista Família Cristã
Fevereiro 2010
Dossiê
Língua portuguesa
Uma história de invasões
 
Saudade. Quantas vezes já dissemos, orgulhosamente, que esta é uma palavra só nossa, portuguesa. Que não há em nenhuma outra língua uma forma de resumir, com sete letras apenas e numa só palavra, um sentimento tão grande, imenso, que raras são as pessoas que não sentem. Saudade. A nossa palavra, a palavra única, que é portuguesa. Mas que voltas deu a Língua Portuguesa para chegar a tão exclusiva palavra? Por que aventuras passou a Língua Portuguesa para se ter tornado uma das mais bonitas do mundo, mas também uma das mais difíceis, segundo dizem? A viagem é longa, mas merece ser relembrada.

A história da Língua Portuguesa está intimamente ligada aos acontecimentos históricos que ocorreram na Península Ibérica, desde a altura da invasão dos Romanos no solo peninsular, no século iii a. C. Chegados à Península, os Romanos dominaram todos os quadrantes da sociedade, acima de tudo o político-militar, mas também o cultural, nomeadamente no que respeita à língua. De uma forma absoluta, a civilização latina foi-se impondo com a construção de estradas e de templos, com o desenvolvimento do comércio e do serviço de correios e, claro, com a abertura de escolas. Em tudo, a sua língua, o Latim - que propriamente dito teve origem na região de Lácio, na actual Itália - tornou-se indispensável e obrigatório. Mas como é fácil de entender, o Latim dos soldados romanos não era o mesmo dos escritores da época, que falavam e escreviam o Latim clássico. Antes, era um Latim apenas falado pelo povo, coloquial, vivo, sujeito a alterações frequentes, a que se chamou Latim vulgar.

Já o povo peninsular estava totalmente romanizado, quando, no século v da era cristã, volta a ser invadido, desta feita pelos povos bárbaros-germânicos, gente essencialmente guerreira e de pouca cultura. Por essa razão, e apesar de terem saído vencedores frente aos Romanos, acabaram por adoptar a civilização e a língua latinas, já enraizadas. No entanto, com a queda do Império Romano, as escolas foram fechadas e a nobreza desancada, o que fez com que se perdessem os elementos unificadores da língua. O Latim ficava livre para se modificar.

Nova invasão, novo dialecto

As invasões não pararam por aqui. Chegados ao século vii, foi a vez dos árabes, vindos no Norte de África, invadirem a Península. Povo mais culto, tentou impor a sua língua oficial, principalmente no sul da Península. No entanto, os habitantes, sentindo as enormes oposições de raça, de língua e de religião que os separavam dos novos conquistadores, não aceitaram a sua civilização e continuaram a falar o "romance", o Latim vulgar mas já contaminado por outras e diversas bases.

No entanto, o forte domínio mouro no sul fez com que fosse lá que algumas povoações acabassem por receber directamente e sem opção a influência árabe, formando uma espécie de comunidades mistas, denominadas de "moçárabes". Porém, o processo de romanização tinha sido tão intenso que, mesmo depois de sete séculos de ocupação, o povo árabe

deixou poucas marcas na língua. A maioria dos vocábulos que o nosso idioma absorveu dessa época, caracteriza-se pelo prefixo "al", que corresponde ao artigo definido árabe. Álgebra, algibeira, álcool, alcatifa ou alcachofra são alguns exemplos que perduram até hoje.

A conquista de um país e de uma língua

O processo de expulsão do povo árabe da Península foi longo e penoso. Nos finais do século xi, sob a bandeira de D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, muitos fidalgos foram em auxílio do monarca para libertar o reino da presença árabe. Entre eles, destacou-se D. Henrique, conde de Borgonha, que, pelos serviços à coroa e à causa cristã, recebeu em casamento a filha do rei, D. Teresa, e, por dote, o governo do Condado Portucalense, um pequeno território situado na costa ocidental da Península, entre os rios Douro e Minho.

D. Afonso Henriques, filho do conde D. Henrique, continuou a luta contra os mouros, pretendendo transformar o reino de Leão e Castela num estado independente. De entre os inúmeros combates, ganhou particular importância a batalha de Ourique, em 1139, quer pela vitória alcançada sobre os árabes, quer também pelo facto de os soldados, antes de se iniciar o combate, terem aclamado D. Afonso Henriques como rei de Portugal. No entanto, só em 1143 seria reconhecida a independência do Condado Portucalense e D. Afonso Henriques proclamado rei. E daqui nasceria Portugal.

Nessa região onde foi fundada a monarquia portuguesa falava-se um dialecto denominado galaico-português, expressão linguística comum à Galiza e a Portugal. Mas, à medida que Portugal alargava os seus domínios para Sul, ia absorvendo os "falares" que aí existiam e, consequentemente, foi-se diferenciando do galego, até se constituírem como línguas independentes: o galego acabou por ser absorvido pelo povo castelhano, e o português, continuando a sua evolução, tornou-se a língua de uma nação, oficializada em 1385, durante a dinastia de Avis.

O desbravar dos descobrimentos

Chegado a este ponto da história da língua portuguesa, o que se seguiu foram tempos de expansão. Entre os séculos xiv e xvi, com a construção do Império Português de ultramar, a Língua Portuguesa começou a estar presente em várias regiões da Ásia, África e América, sofrendo influências locais e que se mantêm ainda hoje na língua actual.

Nos séculos xix e xx, o vocabulário português recebeu novas influências. Surgiram termos de origem greco-latina para designar os avanços tecnológicos da época, como automóvel e televisão, e termos técnicos em inglês, em áreas como as ciências médicas e a informática, como por exemplo, check-up e software. Mas nada se perde e tudo se acrescenta. Afinal, o mundo lusófono, que fala português, é avaliado, hoje, entre 170 e 210 milhões de pessoas. É a oitava língua mais falada do planeta e a língua oficial em sete países: Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. E é a única detentora da palavra Saudade.

 

Ana Maria Dias