Família Cristã - Estamos em pleno Ano Sacerdotal. Como olha para a actual crise de vocações? O que está ao alcance da Igreja poder fazer?
Cardeal José Saraiva Martins - A origem das vocações é muito clara: a família. A crise das vocações provém, em parte, da crise da família, porque antes, quando as famílias eram famílias unidas que davam uma educação cristã aos filhos, a vocação surgia quase espontaneamente nos filhos, neles ou nelas, para o sacerdócio ou para a vida consagrada. Mas se hoje há uma grande crise da família, não se dá uma educação cristã aos filhos, é quase um milagre surgirem vocações no seio da família. Por isso, a crise das vocações tem antes de mais e sobretudo, eu diria, uma razão social. É a crise da família que leva à crise das vocações sacerdotais. Porque um rapaz ou uma rapariga cujos pais vivem separados, divorciados, etc., etc., certamente não vive no ambiente mais propício para que surja uma vocação. A vocação é um dom de Deus, naturalmente, mas Deus serve-se também do ambiente social em que vivem as famílias.
F.C. - A solução para o problema passa só pela família ou há alguma coisa que esteja ao alcance da Igreja para chamar a si mais vocações?
C.J.S.M. - Certamente a Igreja tem um trabalho imenso que é o de educar a juventude sobre certos valores, por exemplo, os párocos ao nível da paróquia, os bispos mais ao nível da diocese; falar mais da vocação aos jovens, incutir nos jovens o amor à vocação sacerdotal, explicar aos jovens o que é ser padre hoje; fazer-lhes ver a sublimidade desta vocação; a vocação de sacerdote nas suas várias dimensões, na dimensão eclesial e na dimensão, digamos, social. Porque o padre não é só para a Igreja é também para a sociedade. Um sacerdote hoje devia ao nível da paróquia, se é pároco, instruir os jovens sobre esses problemas, porque muitos jovens não sabem o que é que quer dizer ser padre, não nos iludamos. Porque é que os párocos não dedicam algumas reuniões da semana com os jovens para explicar esta
F.C. - Aproveitando o que estava a dizer, quais os desafios do sacerdócio nos dias de hoje?
C.J.S.M. - O sacerdote hoje tem de ter uma consciência muito clara de que não é uma pessoa só de sacristia. Antes o padre era visto apenas para estar na igreja, receber os fiéis, celebrar a Missa, confessar. O padre hoje tem uma missão social extremamente importante, global. A beleza do sacerdócio é vê-lo neste contexto mais amplo; não é só celebrar os sacramentos. O padre hoje tem uma missão única e mais urgente do que nunca, porque hoje os homens precisam de alguém que os oriente e se o padre não se preocupa em dar esta orientação às pessoas em geral, então chega-se a esta desorientação completa que há hoje em tantos jovens e nos fiéis. Outro papel do padre é explicar bem a natureza da Igreja, o que é, como comportar-se em certas circunstâncias da vida social, convidar os jovens e fiéis a intervirem na sociedade como cristãos e como crentes e incitá-los a ter coragem e entusiasmo em professar a sua fé no contexto em que vivem e trabalham. Hoje põem-se tantos problemas, de ordem ética, de ordem moral; os fiéis têm uma missão única, mas tem de ser o padre a orientá-los e a convencê-los a exprimirem a sua fé. O padre tem de educar os fiéis para que estes saibam como comportar-se em circunstâncias delicadas da sociedade. Muitas vezes os fiéis queixam-se de que não têm orientações a respeito deste ou daquele problema.
F.C. - Acha que este Ano Sacerdotal pode ter um contributo para dar a conhecer a Igreja e a sua mensagem?
C.J.S.M. - Certamente. Hoje deve ter-se em conta que o padre não pode, nem que queira, exercer a sua missão sem os leigos. Não é como noutros tempos; hoje os fiéis são absolutamente indispensáveis ao padre para poder ser padre no dia de hoje, para poder exercer a sua missão de maneira eficaz; sem os leigos seria totalmente impossível, porque os leigos podem entrar onde não pode entrar o padre.
Rita Bruno