O fenómeno das hortas urbanas não é uma realidade nova. Nos países do norte da Europa existem já desde a segunda metade do século xix. O país europeu com a maior percentagem de hortas é a Dinamarca, onde esta tradição remonta ao século xviii. Nos EUA tiveram um grande impulso quando a família Obama decidiu criar nas traseiras da Casa Branca uma horta e um pomar. Em poucos meses as hortas caseiras tiveram um considerável aumento nos EUA.
Em Portugal esta realidade tem vindo a ganhar expressão nos últimos anos e, prova disso, é a vontade e esforço de algumas autarquias para conseguir disponibilizar espaços dedicados às hortas em ambiente urbano. «Muitas autarquias estão envolvidas na criação de hortas formalizadas na estrutura verde urbana (Lisboa, Cascais, Coimbra), bem como entidades públicas (LIPOR, Estabelecimento Prisional de Setúbal), associações não governamentais também começam a ter expressão nesta área (AVAAL - Associação para a Valorização Ambiental da Alta de Lisboa)», explica o arquitecto paisagista Jorge Cancela. Podemos encontrar hortas de diferentes tipos: «escolares, comunitárias organizadas, individuais em espaço exterior privado, informais em locais não planeados para essa actividade, municipais ou institucionais», acrescenta.
Certamente já terá reparado em algumas bermas de estrada transformadas em hortas por quem ali viu a forma de um certo regresso às origens, ao contacto com a terra, ou simplesmente uma forma de responder a algumas carências económicas. No entanto, os terrenos que têm vindo a ser ocupados com estas hortas são «muito variados, desde vales e antigas zonas agrícolas onde sempre se praticou agricultura, até zonas marginais da cidade (taludes de vias, zonas expectantes), passando por pequenos jardins urbanos e áreas escolares».
Maria José Fundevila, da Divisão de Estudos e Projectos da Câmara Municipal de Lisboa, Direcção Municipal de Ambiente Urbano no âmbito da equipa constituinte da Comissão de Agricultura Urbana, considera que «actualmente existe uma consciencialização da classe política relativamente à importância e interesse das hortas urbanas, tanto em termos ambientais como sociais e económicos. Estes vectores de importância reconhecidos à agricultura urbana são válidos tanto para os próprios utentes e habitantes das cidades como para os próprios municípios, pois além do bem-estar físico e psíquico dos utentes ser uma mais-valia muito significativa para qualquer órgão administrativo, por todas as razões, a ocupação sustentável dos solos de áreas expectantes, que as autarquias não tenham capacidade para ocupar com outro uso ou mesmo manter, é extraordinariamente importante.»
O projecto Horta à Porta - hortas biológicas da região do Porto, promovido pela LIPOR - Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, conta já com 14 hortas comunitárias para cultivo biológico na área do Grande Porto e tem uma lista de espera com mais de mil pessoas.
Este é um projecto que visa promover a qualidade de vida da população através de boas práticas agrícolas. Esta iniciativa passa não só pela criação de espaços verdes dinâmicos, mas também pela promoção do contacto com a Natureza e de hábitos saudáveis, sem esquecer a redução de resíduos.
O projecto Horta à Porta surgiu em Julho de 2003 devido à necessidade de articular a disponibilidade de várias entidades numa rede que viabilizasse uma estratégia para a região do Grande Porto no domínio da compostagem caseira, na criação de hortas e na promoção da agricultura biológica. O Horta à Porta disponibiliza talhões de no mínimo 25 m2 a particulares interessados em praticar a agricultura biológica e a compostagem. Ao receber o talhão de terreno,
Os produtos são para consumo próprio, é disponibilizada água e um local para armazenar as ferramentas. É ainda disponibilizado um compostor individual. Este projecto, dinamizado pela LIPOR em parceria com as Juntas de Freguesia de Aldoar, São Pedro de Rates, Aver-o-mar e Maia e os municípios de Matosinhos, Póvoa de Varzim, Maia e Porto, conta já com mais de 3,6 hectares de agricultura biológica em contexto urbano. «O nosso objectivo é conseguirmos levar à mudança de comportamentos porque ao conseguirmos transformar uma pessoa ela acaba por passar à sua família, aos netos. Estamos a conseguir atingir o nosso objectivo, permitir às pessoas ter o seu próprio espaço, sensibilizá-las para as temáticas da saúde e do ambiente e promover a da biodiversidade que falta nas cidades. Nestas hortas também se recupera um pouco o espírito de comunidade que se perdeu na cidade. As pessoas trocam produtos entre si», afirma Ana Lopes da Divisão de Valorização Orgânica da LIPOR.
Um pouco por todo o país os projectos de hortas urbanas começam a ser valorizados e a ter o seu espaço. Em Lisboa estão a ser feitos esforços para criar espaços deste tipo e dotar de condições adequadas aqueles que já existem. Exemplos disto são o projecto do Parque Agrícola da Alta de Lisboa (PAAL) e também da Quinta da Granja. Mas nem só Lisboa e Porto estão a "meter as mãos na horta". Em Guimarães, a Câmara disponibilizou um terreno com cerca de 3 hectares e tem sido um sucesso, como o comprovam as inúmeras pessoas em lista de espera para ter o seu talhão. Também em Ponte de Lima começam a ser dados passos neste sentido, tendo a Câmara disponibilizado um terreno com cerca de dois mil metros quadrados. As encostas do Bairro do Ingote, em Coimbra, são outro bom exemplo no âmbito das hortas urbanas.
Para ter um talhão nestas hortas o processo é quase sempre semelhante e passa por ter de se dirigir à sua câmara ou junta de freguesia e inscrever-se. Os especialistas contactados pela FAMÍLIA CRISTÃ aconselham todos os interessados a fazê-lo, mesmo em zonas onde não existam hortas criadas, pois esta é uma forma de as entidades sentirem que há interesse por parte das pessoas e poderá incentivá-las à criação de cada vez mais espaços.
Em tempo de crise, as hortas urbanas são também uma boa resposta, uma vez que permitem aos seus utilizadores produzir os próprios alimentos hortícolas, reduzindo assim a factura do supermercado. Jorge Cancela afirma que «nas alturas de crise as hortas urbanas tendem sempre a aumentar. De facto, se houver tempo disponível e área próxima adequada, uma família pode divertir-se e poupar em simultâneo.»
Para além do factor económico, as hortas urbanas trazem ainda outras vantagens tais como a promoção da qualidade de vida e exercício físico, contacto com a natureza, produção dos próprios alimentos e alimentação saudável. As hortas podem ser uma excelente actividade em família e uma forma de poder dar às crianças o contacto com a terra para que estas saibam de onde vêem os alimentos que consomem. Para muitas pessoas este contacto com a terra é até bastante terapêutico e ajuda a recuperar de depressões e situações de stresse.
Maria José Fundevila acredita que esta é uma realidade «de futuro e de importância crescente na vida das sociedades urbanas e que a partir de agora não haverá retrocesso nesta mentalidade, até porque a consciencialização ecológica e ambiental é algo que está cada vez mais presente na vida de todos e à medida que as gerações urbanas vão ficando mais afastadas do rural em termos de vivência efectiva, será cada vez mais interessante e importante estes espaços nas cidades, aliado aos factores económicos e ambientais».
Vânia Machado