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Revista Família Cristã
Fevereiro 2010
Nacional
Arquivos da Igreja
Tabernáculos da nossa memória
 
A Igreja Católica portuguesa possui um vasto espólio patrimonial. Dentro desse espólio, a área dos arquivos é a face menos visível, quando comparada com o património arquitectónico ou bibliográfico, mas é a chave para entender e conhecer a história do nosso país, da nossa igreja e dos nossos antepassados. «Os arquivos da Igreja são os testemunhos e as sobrevivências documentais que se foram acumulando ao longo da história, que é muito longa e que herdámos. São registos de casamentos, baptizados e óbitos, juntamente com descrições das populações, dos seus hábitos e costumes. É uma coisa tão global quanto toda a acção da Igreja no nosso país o foi durante séculos, logo é algo que acompanha de muito perto o que é a nossa identidade nacional, a própria história do nosso país», explica-nos Sandra Costa Saldanha, directora do Secretariado dos Bens Culturais da Conferência Episcopal Portuguesa. Os documentos são tantos que uma linha recta de Lisboa a Valença, na fronteira a norte com Espanha, não chegaria para os dispor. «É sempre difícil fazer estas estimativas, mas calculamos que haja cerca de 500 km de documentos nos arquivos das várias dioceses e paróquias do país», afirma Sandra Saldanha.

Além dos dados diocesanos e paroquiais, as congregações religiosas e as confrarias reúnem um espólio particular bastante valioso, algum na posse do Estado. «Houve dois momentos históricos em que o Estado incorporou arquivos da Igreja no seu espólio. Em 1834, com a expulsão das ordens religiosas de Portugal, e em 1911, 1912, depois da Primeira República. O Estado aproveitou essas ocasiões para chamar a si o controlo dos documentos que diziam respeito à história do próprio país, de uma forma coerciva, claro», explica-nos Pedro Penteado, especialista ligado ao grupo de estudo de arquivística religiosa da Universidade Católica. «Hoje em dia, o Estado deixou esta faceta incorporacionista e prefere trabalhar em parceria, criando uma rede que permita disponibilizar ao público toda a informação contida nos seus arquivos e nos arquivos das instituições que queiram aderir a essa rede», diz.

Apesar da disponibilização ao público ser também o objectivo final dos arquivos da Igreja, Sandra Saldanha não imagina que essa seja uma realidade a curto prazo. «Neste momento não temos uma noção concreta da realidade dos arquivos, em termos de quantidade e mesmo de conteúdos», afirma a directora, que estabelece como prioridade a inventariação do que existe. «A noção da monumentalidade dos arquivos está traçada e estamos conscientes dela. Mas a realidade é muito precária na maioria das dioceses e paróquias. Não existem instrumentos que nos permitam ter noção da quantidade e do conteúdo destes documentos, controlar as existências, fazer um simples inventário, índice, etc. Quando existem, são muitos precárias, não permitem actualizações, já que são exemplares únicos, feitos à mão com uma grande dose de boa vontade de alguém e pouco mais», aponta Sandra Saldanha.

No Mosteiro de São Vicente de Fora, a sacristia é uma das salas mais belas. Quem a visita não sabe, no entanto, que é por cima do seu tecto que estão guardados os mais antigos arquivos do patriarcado de Lisboa. Quando entramos na sala, o cenário sugere um qualquer episódio da famosa série de televisão Ficheiros Secretos, onde, em intermináveis filas de armários com prateleiras, se perfilavam todos os casos por resolver. Aqui não falamos de casos por resolver, mas de histórias por contar. «Estamos a terminar o processo de recenseamento prévio de todo o acervo documental, mas não temos um conhecimento específico sobre o conteúdo temático de toda a documentação. Esse conhecimento iria atrasar em muito o trabalho de inventariação e tratamento», afirma Ricardo Aniceto, responsável pelo arquivo do patriarcado de Lisboa. No entanto, não é por falta de investigação que ficará por conhecer o conteúdo dos documentos. «Temos uma média de quatro investigadores semanais a fazer trabalhos de

pesquisa essencialmente para teses», diz o responsável.

Entre os vários corredores de documentos, é possível percorrer toda a história da nossa nação, desde o seu nascimento até aos dias de hoje. Mas afinal, que tipo de documentos podemos encontrar aqui? «Primeiro que tudo, existem extractos dos registos paroquiais: casamentos, baptizados, óbitos e sumários matrimoniais, que são utilizados pelo historiadores para reconstruírem árvores genealógicas, por exemplo.» Depois, existe outro tipo de documentos, que são fonte privilegiada de história religiosa, muito importantes para traçar a história dos tempos idos. «Hoje em dia são os bispos quem faz as visitas pastorais. Antigamente, essas visitas eram deixadas ao cargo de "fiscais", se assim lhes podemos chamar, que se deslocavam até às paróquias para averiguarem a forma como as populações viviam. Estes relatos, que podem ser rocambolescos e de devassa da vida privada dos paroquianos, permitem também fazer um retrato muito rigoroso da forma como as populações viviam e de como a sociedade estava organizada, sendo portanto de imenso valor para os investigadores que nos visitam», conta.

Viajamos para Braga, fustigados pela chuva e pelo vento, para encontrar o Cónego José Luis Melo, responsável pelos arquivos da arquidiocese. Subimos ao terceiro piso da faculdade de teologia de Braga e cerramos os casacos para nos resguardarmos do frio que emana das paredes vazias do antigo edifício. Aqui o trabalho iniciou-se em 2007, e a grande prioridade tem sido o tratamento dos arquivos da Cúria. «A prioridade é tratar os arquivos da Cúria e disponibilizá-los ao público. Só depois nos ocuparemos das paróquias», esclarece o Cón. Melo. O trabalho de limpeza, identificação, informatização e arrumação está nas mãos de cinco profissionais a tempo inteiro. «Os documentos são limpos, etiquetados e colocados na base de dados, que está em consonância com o Arquivo Distrital de Braga que tem o material que foi retirado à Igreja na República e no liberalismo», explica o responsável pelos arquivos, que não mostra preocupação com o local onde estão. «O fundamental é que haja acesso à informação, não interessa quem é o proprietário», defende.

Para o responsável pelos arquivos, não é apenas a vertente histórica que torna este trabalho importante. «Os arquivos testemunham a vida das nossas comunidades cristãs. Paulo VI dizia que os arquivos eram tabernáculos da memória. Eu digo que são pegadas da passagem de Deus pela história dos homens. É uma vertente pastoral e evangelizadora que não pode ser deixada de lado», considera o Cón. Melo, enquanto passamos revista às salas que albergam a documentação já tratada. Tudo é pensado ao pormenor aqui, até o futuro destes arquivos. «Os espaços de arrumação foram pensados para receberem os arquivos que agora fazem parte do arquivo intermédio e corrente da diocese. Mais tarde serão incorporados no arquivo histórico e já está previsto o espaço para os receber», mostra o cónego.

O futuro passa então, segundo a directora do Secretariado dos Bens Culturais, por três etapas. «Precisamos de saber o que há, saber o que fazer com o que há e depois optimizar o que há, disponibilizando-o a toda a comunidade», defende. Para isso, é preciso um grande investimento financeiro em técnicos qualificados e locais de conservação adequados. «A Igreja não pode suportar estes custos sozinha, e portanto o que acontece são parcerias com outras entidades, estatais ou não, e universidades», diz Sandra Saldanha.
Mas será que há assim tanto por conhecer ainda? «Há muito por descobrir sobre a nossa história, e os arquivos da Igreja são altamente cobiçados pelos historiadores, porque há a perfeita consciência das surpresas e dos mistérios que estes arquivos podem ajudar a desvendar. O conhecimento profundo dos arquivos da Igreja poderia mudar o rumo daquilo que é o nosso conhecimento sobre a história do nosso país, não só social, mas também das artes e da cultura no geral», conclui.

 

Ricardo Perna