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Revista Família Cristã
Agosto 2010
Dossiê
Beata Teresa de Calcutá
O lápis de Deus na Terra
 
Teresa de Calcutá foi responsável por uma transformação na forma como a humanidade olha para os pobres. Ela esteve entre os mais pobres dos pobres e deixou-nos um legado imprescindível, que se mantém actual e premente nos dias de hoje.

«Um portento de humanidade.» Foi assim que o Pe. Manuel Santos José descreveu a figura de Madre Teresa de Calcutá no livro que a PAULUS editou sobre a figura da beata. Tal descrição pode parecer estranha, se nos lembrarmos do corpo franzino que vivia por baixo daquele manto sari azul e branco. No entanto, todas as descrições da figura da beata Teresa são colocadas nestes termos. Todas as pessoas que privaram com ela testemunhavam a sua força interior, e nem a divulgação das suas cartas, onde é descrita a escuridão espiritual em que Teresa de Calcutá viveu durante muitos anos, parece abalar essa convicção, conforme poderemos ler na entrevista ao postulador da canonização da beata Teresa, o Pe. Brian Kolodiejchuck, nas páginas seguintes.

Decorria o ano de 1910 quando Ganxhe Bojaxhiu, nome de baptismo de Madre Teresa, nasceu, na cidade de Skopje, capital da Macedónia, que foi durante muito tempo território albanês. Ainda pequena, começou a demonstrar um gosto pela religião, com especial incidência nos relatos dos missionários, que passava horas a ler. «Não tinha ainda completado 12 anos quando senti o desejo de ser missionária», havia de revelar anos mais tarde. Assim, foi com grande alegria que a mãe a viu partir para a congregação mariana das Filhas de Maria, onde permaneceu até aos 38 anos, agora com o nome de Teresa. «Dá-lhe [a Jesus] a mão, e vai sozinha com Ele. Segue em frente, porque, se olhares para trás, voltas para trás», disse-lhe a mãe Drana no momento da despedida. O desejo missionário levou-a até à Índia, onde ficou no Convento do Loreto.

Teresa de Bojaxhiu esteve na congregação durante cerca de 30 anos, exercendo funções de professora, entre outras. Um dia, durante uma viagem de comboio para Darjeeling, cidade indiana, sentiu um chamamento. «Em 1946, numa viagem de comboio para Darjeeling, onde ia fazer o meu retiro, senti um chamamento. Nunca é fácil dormir nos comboios mas tentar fazê-lo numa viagem na Índia é impossível. Tudo range e há um penetrante odor de sujidade pelo amontoado de homens e animais. Tudo viaja naquele transporte: pessoas, cestos e galinhas cacarejando... Aos meus 36 anos e naquele trem percebi no interior um chamamento: que renunciasse a tudo e seguisse Cristo nos subúrbios, a fim de servi-l'O entre os mais pobres dos pobres. Compreendi que Deus desejava isso de mim...!», revela a Madre Teresa nos seus escritos. Sentida esta vontade, Teresa falou com o seu director espiritual logo durante esse retiro, e este pediu-lhe que reflectisse bem na sua opção, que não tomasse decisões precipitadas.

O início da congregação das Missionárias da Caridade não foi tão rápido como Madre Teresa parecia desejar. O arcebispo Périer, responsável pela diocese em que Teresa se encontrava, colocou muitas questões a todo o processo e não quis avançar de imediato. Madre Teresa não desistiu e cerca de dois anos depois do "chamamento", em Janeiro de 1948, viu autorizada pelo arcebispo a formação da nova congregação. Pediu

a exclusão da congregação a que pertencia e dedicou-se à criação da nova congregação, que foi aprovada e reconhecida pela Santa Sé a 7 de Outubro de 1950, pela pena do Papa Pio XII, numa altura em que a congregação já contava com centenas de membros espalhados por todo o mundo.

Pouco tempo depois, todo o mundo já ouvira falar da pequena freira que vivia com os pobres, e muitos foram os que se juntaram a ela, doando dinheiro ou a própria vida para a causa, como são prova as muitas noviças que não tardaram a juntar-se a Madre Teresa nos bairros de lata da Índia e do resto do mundo, para onde a congregação começou a crescer.

A atribuição do Nobel da Paz à «santa das sarjetas», em 1979, tornou-se mais uma oportunidade de o mundo testemunhar a força e a convicção desta pequena freira. Recebeu a condecoração mas pediu que cancelassem o banquete da cerimónia. «O dinheiro deste repasto serve para alimentar 15 mil famintos», disse na altura. E foi esta pessoa, pequena no tamanho mas grande no espírito, que se deslocou a Portugal para uma visita em 1982. Antes, o então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, tinha-lhe escrito a pedir que fundasse uma casa em Setúbal, para dar resposta aos pobres da diocese. Quando chegou e encontrou as irmãs "fechadas" num apartamento, exigiu ao bispo de Setúbal que lhe arranjasse uma casa para as irmãs receberem os pobres. «Ou nos arranja uma casa depressa ou vamos começar a levar os pobres para a casa episcopal», conta D. Manuel Martins (ver artigo mais à frente). A casa foi arranjada e hoje as Missionárias da Caridade têm casas em Lisboa, Setúbal e Faro (ver caixa).

D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, recorda o breve encontro que teve com a fundadora das Missionárias da Caridade, em 1980. «Conheci Madre Teresa no Sínodo dedicado à Família. Enquanto estudava em Roma, estive ao serviço da mesa da presidência do Sínodo. Madre Teresa era perita nessa assembleia. Quando fez a sua intervenção na Aula Sinodal escutava-a com toda a atenção. Ao ponto de D. António Marcelino, que estava a representar Portugal, se meter comigo: "Estavas com mais atenção à Madre Teresa do que ao Papa!", recorda D. Carlos, que aponta um pequeno momento de encontro entre os dois que lhe ficou gravado na memória. «Num intervalo da sessão, pediu-me ajuda para encontrar um bispo. Olhámo-nos olhos nos olhos.

Impressionou-me aquela criatura tão pequena e frágil, simples e desprendida mostrar uma energia interior tão coerente e interpelante. Ainda hoje me faz bem recordar esta proximidade», afirma.

Teresa de Calcutá morreu em Setembro de 1997, após uma paragem cardíaca. A sua morte correu o mundo, e de todos os cantos vinham referências positivas à sua vida e ao seu exemplo de abnegação aos pobres e entrega a Deus. Se fosse viva, faria a 26 de Agosto 100 anos. Mas o seu espírito continua bem vivo e a data será por certo utilizada por todos para recordarem a «pequena esposa de Jesus», a «santa das sarjetas», a mulher que mudou a forma de olharmos para os pobres, que deu o exemplo máximo de entrega num mundo que se debate hoje com a crise de valores e o relativismo das acções dos homens, que bem podem aprender com o seu exemplo.

 

Ricardo Perna