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Revista Família Cristã
Março 2010
Dossiê
Violência conjugal
Uma colher entre marido e mulher
 
O nome pouco importa. A história de vida desta mulher sofrida, de quarenta anos, é escrita com palavras de vergonha e humilhação. Durante o namoro já sofria abusos por parte do homem que dizia amar. Entretanto, engravidou e depois casou. Os maus-tratos eram intercalados com momentos - raros - de alegria. A seguir a estes períodos chamados de lua-de-mel, voltavam os momentos tensos e as agressões. Depois ele pedia perdão e o ciclo voltava a repetir-se nos dias, nas semanas e nos anos seguintes. Mais tarde, nasceu outro filho. Seguiram-se outros episódios que mais parecem de uma série de terceira categoria: espancamentos, entradas no hospital e queixas na polícia. Ele volta a pedir mais uma oportunidade e depois outra. Regressa à violência física e psicológica uma e outra vez. O marido insiste em atribuir-lhe amantes e chamar-lhe nomes. Os filhos de quinze e seis anos assistem a tudo. O rapaz toma o partido do pai, a rapariga o da mãe. Ambos são sujeitos a uma sucessão de episódios violentos.

A mulher disse "basta" aos pontapés que tem levado e procurou ajuda. Um dia destes foi a casa buscar o que lhe pertencia com escolta policial. Voltou para junto dos pais com a filha mais nova. Mas a violência ainda não acabou. O homem furou-lhe os pneus do carro e não pára de enviar mensagens para o telemóvel dela, intimidando-a com ameaças e ofensas. Mais: o filho mais velho reproduz o que ouve do pai. Também ele chama nomes à mãe e diz-lhe coisas como: «O que merecias era que te espetassem uma faca nas costas.» A realidade ultrapassa a ficção. Histórias destas continuam a ser relatadas por vítimas de violência doméstica.

Na última década, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) tem recebido mais denúncias, porém «são uma pontinha do icebergue», constata Maria Rodrigues Vacas, assessora técnica da instituição. Segundo os dados de 2009 da APAV, divulgados no mês passado, 88% das 6682 vítimas de violência doméstica são mulheres [ver gráfico]. Maus-tratos físicos, psíquicos, ameaças e casos de violação fazem parte do rol de queixas.

As mulheres que procuram esta associação são, em regra, «pessoas assustadas, confusas, inseguras, com perturbações do sono, muitas vezes sob ameaça». Socialmente, «muitas vezes, as vítimas encontram-se numa situação instável, sem emprego, sem habitação, sem um novo projecto de vida...»

A APAV tem duas casas-abrigo, onde as vítimas são acolhidas e ajudadas a encontrar um novo caminho para as suas vidas.

A associação Chão dos Meninos trabalha com as crianças vítimas de maus-tratos infantis e suas famílias. A violência conjugal e as situações de mau-trato infantil cruzam-se muitas vezes. «A intervenção que desenvolvemos obriga-nos a olhar para a violência conjugal não só do ponto de vista do casal, mas também do ponto de vista dos filhos», esclarecem as técnicas Dora Pereira e Elsa Machado, uma psicóloga, outra assistente social.

Seja rica ou pobre, numa família onde exista violência conjugal há duas características do funcionamento familiar que saltam à vista: a forma como os membros da família comunicam e as diferenças de poder entre os mesmos. «Quando existe violência as pessoas deixaram (ou nunca conseguiram fazê-lo) de conseguir comunicar acerca da relação, dos seus sentimentos, ideias, expectativas. A que acresce o facto de a visão daquele que agride ser imposta, fazendo com que todo o funcionamento do casal reflicta o poder desse elemento e deixe de ser um percurso verdadeiramente partilhado e construído a dois», constatam as técnicas.

Estas especialistas, que são também terapeutas familiares, consideram que o casal necessita de um espaço onde possa (re)aprender a comunicar e a reequilibrar a relação. Alertam, no entanto, que «a cessação da violência não implementa automaticamente novas formas de relação». Há a necessidade de um acompanhamento onde ambos possam reflectir e exercitar conjuntamente uma comunicação não violenta. «O acompanhamento individual pode ser igualmente importante em alguns casos, quer para o casal, quer para as crianças, mas em nosso entender não deve ser dispensado um acompanhamento conjunto nas situações em que o casal ainda mantenha um projecto de vida comum, pois é nesse contexto que a "teia" relacional é mais claramente abordada.»

O trabalho desenvolvido por Dora Pereira e Elsa Machado leva-as a afirmarem que «é

possível restaurar uma relação violenta». É, no entanto - esclarecem -, um processo moroso e complexo que depende de muitos factores, nomeadamente da verdadeira motivação para a mudança, das características do agressor e da vítima, da duração das agressões, da duração da relação, da história pessoal de cada um, entre outros.

«É possível restaurar uma relação quando ambos quiserem continuar a relação e quando a vítima não se sentir intimidada pelo parceiro para poder participar activamente na terapia de casal. Ou seja, quando não houver nenhuma violência ou ameaça actual de violência e nenhum perigo para a vítima», frisam.

A história de vida do João, trinta e oito anos, arquitecto, e da Maria, trinta e dois, desempregada, é um caso, onde a intervenção foi bem sucedida. Um episódio de violência física desencadeou uma decisão judicial que os conduziu ao processo de terapia familiar. João, numa primeira fase, dizia que «aquele dia» não voltaria a acontecer. Mariana Galésio, educadora social e terapeuta familiar no Chão dos Meninos, revela que no discurso deste homem se percebia culpa, mas também uma necessidade de desvalorizar o que parecia ser um episódio isolado.

O casal tinha catorze anos de relação e o desejo de a manter. «O processo de terapia, construído com o casal, teve na sua base esta decisão de manterem a relação e a sua disponibilidade para a mudança. De facto, João e Maria assumiram consigo mesmos e com os terapeutas um compromisso para a mudança, para a construção de um novo padrão de relação», conta a terapeuta familiar.

O João e a Maria descobriram que, afinal, a violência não tinha sido apenas «aquele dia». Ao olharem para trás, perceberam que tinham deixado de comunicar e de cuidar um do outro. As acusações mútuas sobre as falhas e erros de cada um enviesaram o sentido da relação, as fragilidades originavam discussões. Os dois filhos que nasceram da relação ocuparam um espaço que deixou de ser apenas do casal. A rotina fez cair no esquecimento a intimidade. A infidelidade de João originara a discussão «daquele dia».

O processo de violência começara muito antes «daquele dia». «João desvalorizava já há algum tempo o papel de Maria como mãe e como profissional. Maria, fragilizada pelo desemprego, dependente economicamente do marido, deixou de acreditar em si mesma, e a pouco e pouco passou a acreditar que não sabia ser mãe, nem mulher. Gradualmente construiu-se uma relação de poder assimétrica. João assumia o papel de pai, de profissional bem sucedido, cuja mulher se constituía como mais um peso, ao invés da companheira que esperava. No processo de terapia (re)descobriram o casal e o seu espaço, a comunicação e a relação», sublinha Mariana Galésio.

É porque também existem histórias com final feliz que as terapeutas Dora Pereira e Elsa Machado deixam um alerta às famílias: «Que procurem ajuda especializada e não fiquem à espera que as coisas melhorem por si só. Que a procurem cedo, aos primeiros sinais de que algo não vai bem, e não apenas quando a situação for tão grave que possa ser tarde demais para evitar consequências irreversíveis.» Porém, nem sempre é possível ter um final igual à da história de João e Maria. «Quando a violência é contínua ou severa, a terapia de casal não é indicada», referem. Nestes casos, acrescentam as técnicas, existem outras formas de intervenção com agressores: «Programas específicos para agressores conjugais, acompanhamento psicológico; os agressores com problemas psiquiátricos associados requerem uma intervenção articulada com os serviços de saúde mental; os agressores com problemas associados ao alcoolismo ou toxicodependência, requerem uma intervenção ao nível do autocontrole mas também um acompanhamento médico especializado em termos dos comportamentos aditivos.»

Maria Rodrigues Vacas lembra a importância de as pessoas recusarem ser vítimas, «interiorizando a negação da violência como modo de vida e paradigma da relação; fazendo frente ao medo; sabendo escolher o caminho da dignidade face à ambiguidade dos seus sentimentos e de complexas dependências». A responsável da APAV avisa: «Não deixem que o silêncio seja um segundo inimigo.»

 

Sílvia Júlio