Os pais ficaram apoquentados e tentaram perceber quem era o amigo imaginário da Sandra e porque sentia necessidade de o ter em casa. Numa consulta de rotina, o médico informou-os que não havia motivo para preocupação, que ela acabaria por se esquecer desse amigo invisível. «A minha mãe começou a incutir regras para o amigo imaginário. Eu podia brincar com o meu amigo mas quando estivéssemos a comer ou a fazer tarefas familiares, não o podia trazer. Com isto, aos poucos comecei a deixar de falar com o amigo imaginário», conta.
Uma criança que brinque sozinha, que não tenha irmãos, poderá ter maior tendência a desenvolver os seus amigos imaginários por sentir necessidade de companhia nas suas brincadeiras, mas não é necessariamente uma característica dos filhos únicos. «Provavelmente estas são crianças que se poderão socorrer mais facilmente dos seus amigos imaginários, embora os amigos imaginários também possam existir em crianças com irmãos», constata Cristina Rebordão, pedopsiquiatra da Unidade de Saúde Mental Infantil e Juvenil do Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Importa, antes de mais, perceber quem é este amigo que levanta tantas dúvidas aos pais. «É qualquer figura fantasiada pela criança como forma de representar as suas emoções, as suas ansiedades, as suas lutas internas (entre a criança que se porta bem e a que se porta mal, a que está triste e alegre, a que tem medo e a que não tem) ou simplesmente alguém com quem partilhar a tarefa fundamental de brincar», explica a pedopsiquiatra.
Estes amigos podem adquirir uma série de formas, incluindo humanas ou de animais, muitas vezes invisíveis ou baseados em brinquedos ou desenhos animados. «São geralmente fruto da imaginação e da fantasia, embora a criança saiba e proteja esse mundo privado que deverá ser respeitado pelos adultos», acrescenta a médica.
Geralmente é a partir dos três anos que se criam os amigos imaginários - que acabam por desaparecer de forma natural, tal como quando as crianças perdem o interesse por determinadas brincadeiras ou brinquedos.
Alexandra Chumbo, psicóloga no Estimulopraxis - centro de desenvolvimento infantil - diz que «o amigo imaginário pode aparecer com muita naturalidade numa brincadeira em que a criança sente necessidade de brincar com alguém ou numa situação mais complicada da vida em que, não conseguindo exprimir os seus desejos, as suas vontades, aquilo que lhe vai por dentro, arranja um amigo para
É também possível que em situações que mexem com as rotinas, como a mudança de casa ou o divórcio dos pais, alguns miúdos criem amigos na imaginação. «Nessas alturas, algumas crianças podem arranjar um amigo imaginário para quem transpõem os seus sentimentos, desejos e preocupações. É mais fácil para elas dizerem que o amigo está triste, que o amigo tem saudades do pai, que o amigo gostava de ver o vizinho da frente com quem costumava brincar», afirma a psicóloga.
De acordo com Alexandra Chumbo, os adultos «devem sempre aceitar os amigos imaginários das crianças e, se possível, entrar no mundo da fantasia», porque isso «ajuda-as a sentirem-se acolhidas, protegidas - sentem que acreditam nelas».
«É muito bom que os pais entrem no jogo», continua, «porque através disso conseguem perceber aquilo que se passa com a criança. Ela vai aproveitar o amigo imaginário para lhes dizer muita coisa, se estiverem atentos.»
O brincar, a imaginação, a fantasia, o faz de conta, fazem parte do trabalho da criança, que deve ser levado a sério, assim como os pais levam a sério os seus trabalhos.
É importante que os progenitores respeitem a necessidade de fantasiar dos filhos e preservem, a todo o custo, a necessidade de brincar. Quando os adultos tentam entrar em demasia nesse mundo, podem trazê-lo para a realidade e ameaçar toda a magia. As fantasias precisam de se manter discretas no mundo da fantasia. «É frequente pensar-se que as crianças confundem facilmente a fantasia com a realidade, mas estudos recentes apontam para uma maior capacidade das crianças de distinguirem ambas», revela a pedopsiquiatra.
Por norma, os pais não têm de se preocupar com os amigos criados pela imaginação dos filhos, mas «se a criança só brinca com o amigo imaginário, se se isola do mundo real e não quer sair do mundo da fantasia - são indicativos importantes de que precisa de ajuda terapêutica», alerta Alexandra Chumbo.
Estes amigos podem vir a prolongar-se pela idade escolar, embora possam estar associados a problemas emocionais ou familiares em crianças acima dos sete anos. «Pode haver casos em que as crianças têm amigos imaginários porque se sentem muito sozinhas, em sofrimento ou incapazes de colocarem por palavras algo que as inquieta», frisa Cristina Rebordão.
«Quando uma criança apenas fantasia e se isola nessa fantasia, preferindo geralmente brincar sozinha ou reagindo negativamente quando outras crianças se tentam aproximar dela, quando existirem concomitantemente outros sinais de alerta como irritabilidade fácil, dificuldades do sono, dificuldades alimentares e problemas do comportamento, poderá justificar-se uma avaliação com um psicólogo ou um pedopsiquiatra», aconselha a médica do Hospital de Santa Maria.
No entanto, sublinha-se que a terapia só se coloca em questão se surgirem sintomas a expressar sofrimento na criança ou indicadores de patologia mais grave - o que é raro. O mais frequente é que quem tenha amigos imaginários seja uma criança saudável e normal - igual aos seus pares.
Sílvia Júlio