PESQUISAR
Revista Família Cristã
Março 2010
Educação
Tudo sobre os jovens
Um estudo para reflectir…
 
 Os "lugares-comuns" sobre os mais variados temas são um facto. A "geração rasca" de há uns anos é exemplo disso mesmo; era "rasca" porque assim se difundiu; para muitos dos que nela estavam incluídos (e que hoje são jornalistas da FAMÍLIA CRISTÃ) era apenas um adjectivo depreciativo que não espelhava absolutamente nada do que pensavam ou faziam. Para a geração de jovens de hoje também existem alguns rótulos e prova disso são os estudos que chegam a público com alguns resultados que parecem contradizê-los, ou não... Se estivermos conscientes e informados, seremos pais e educadores mais preparados para ajudar os nossos jovens a percorrer o melhor caminho. Como órgão de comunicação social cristão que somos e com a ajuda de um dos responsáveis pelo estudo na interpretação dos resultados, deixamos algumas questões que consideramos pertinentes para reflexão.

Importa, antes de mais, esclarecer que o estudo All About Teens não teve como principal objectivo estudar os jovens de um ponto de vista meramente sociológico. «Este estudo que se chama All About Teens e apanha a franja dos catorze aos dezanove anos surgiu de necessidades comerciais. Esta empresa tem clientes que procuram conhecer os seus consumidores nos diferentes ciclos de vida.» O esclarecimento é prestado por Carlos Liz, sócio-fundador da APEME.

Foram feitas quinhentas entrevistas a jovens de ambos os sexos do Porto e de Lisboa, com idades entre os catorze e os dezanove anos, a maioria a estudar na escola pública, no ensino secundário.

Os principais resultados do estudo apontam para a importância primordial da família, para a massificação saudável das tecnologias, para uma confiança no que diz respeito ao futuro de cada um, mas um pessimismo geral no que diz respeito ao país e ao mundo. E, no pólo do desinteresse total, a religião. [ver caixa]

A primeira marca destes resultados é a da autoconsciência e autoconfiança. Estamos perante uma geração consciente da situação que a rodeia e daquilo que a espera. «Eu diria que uma das principais conclusões do estudo é a de que estamos perante uma juventude que terá percebido que o melhor que tem a fazer é sobretudo acreditar em si mesma, visto que à sua volta não encontrará muitas fontes inspiradoras. Muito do quadro institucional habitual não parece estar compatível com aquilo que é a maneira de ver desta gente que, ou por desconfiança, ou por não entender totalmente muitos dos discursos dominantes, sente esta necessidade de acreditar em si», afirma o fundador da APEME.

Outra das principais conclusões do estudo é a de que, ao contrário do que possamos ser levados a crer quando se apregoa que a família está em crise, o aspecto de maior importância, tanto no presente como no futuro para estes jovens é a família. Só é preciso ter atenção ao facto de que neste estudo não se propõe nenhum modelo de família, portanto, não se pode falar da importância da família como a conhecemos tradicionalmente. «Esta noção de que na agenda dos jovens portugueses está a noção de não viverem sozinhos, de terem projectos comuns, é uma das conclusões do trabalho interessantes. Quando se diz que se quer ter uma família quer-se dizer que vale a pena procurar outras pessoas com quem partilhar o destino», continua o investigador.

Outro aspecto que se pode concluir neste estudo é que os jovens de hoje em dia estão

cientes da crise económica, financeira e do desemprego e estão a desenvolver hábitos de poupança. «Há uma certa predisposição para a poupança e nós já vimos isso noutros estudos para a banca. Parece, nesta geração, estar clara a ideia de que o dinheiro tem valor e de que é preciso dinheiro para viver. Portanto, nós não estamos perante uma juventude imediatista, estamos perante uma juventude que pensa no futuro.» Talvez por isso, uma das grandes preocupações desta geração seja a de ter um emprego. Estes factores levam a que estejamos perante jovens maduros, mas com um amadurecimento imposto pela conjuntura, uma espécie de "adultos à força".

Os mitos. «Os miúdos só querem saber da fama. Os jovens são preguiçosos e não querem trabalhar. Isto é uma selva em que cada um só quer saber de si. Estamos perante uma sociedade de consumistas. A família está em crise. Os jovens não lêem e só querem saber das novas tecnologias.» Estes são alguns dos "lugares-comuns" que muitas vezes ouvimos e pronunciamos. O que este estudo revelou é que não passam disso mesmo: os jovens não querem saber da fama para nada e não valorizam a popularidade na escola; os jovens não vivem sem pensar nas consequências; os jovens consideram muito importante começar já hoje a trabalhar para construir o seu futuro, querem ter os seus cursos e anseiam por um emprego; os jovens querem uma família e preocupam-se com o meio ambiente, com a insegurança, com a pobreza, com a pedofilia. Os jovens revelam-se muito conscientes quanto à poupança e quanto à publicidade. Os jovens lêem, não só livros, mas também jornais. Os jovens gostam de ouvir música, viajar, ir à praia e navegar na Internet.

Carlos Liz ajuda a explicar a queda destes mitos. No caso da fama, as crescentes redes sociais e a liberdade que os jovens têm para se expressarem e relacionarem podem explicar a queda da necessidade dos "quinze minutos de fama". «Eles todos os dias têm a fama de que precisam», afiança. Sobre o facto de não valorizarem o tempo livre para o ócio, uma plena consciência da conjuntura da sociedade actual parece ser a explicação mais directa. «De facto, nós não estamos perante uma geração que quer descartar-se do trabalho, estamos perante uma geração que tendo plena consciência da dificuldade de ter trabalho, percebe, queira ou não queria, que tem de fazer alguma coisa por isso.» No que diz respeito à utilização das tecnologias, esta geração cresceu com um sem número de possibilidades à sua disposição e, de uma fase inicial de descoberta e desconhecimento, está gradualmente a apropriar-se delas. «A Internet está saudavelmente a ganhar o lugar que tem de ganhar. E esta gente nova é muito pragmática, não tem problemas nenhuns em pôr as coisas nos seus lugares, sem mitos», constata.

A mesma lógica de pragmatismo e de saber utilizar os recursos à disposição parece aplicar-se ao consumo. «Esta geração já nasce com a sociedade de consumo montada, isto é, tem muitas coisas para comprar, tem bons sítios para comprar, tem meios de pagamento para comprar, tem publicidade para ver em sítios muito variados para ajudar a decidir e, desse ponto de vista, são jovens que tem perante o consumo uma atitude não de "boca aberta", de espanto, mas uma atitude muito pragmática.»

 

Rita Bruno