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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Igreja
Padre José Bortolini
«AUSÊNCIA DA BÍBLIA NA ESCOLA EMPOBRECE O ENSINO»
 

O Padre José Bortolini, famoso biblista brasileiro, sacerdote paulista, esteve em Portugal a pregar dois retiros à Família Paulista. Há 25 anos que se dedica ao estudo da Bíblia. Já publicou mais de quarenta livros e foi o responsável pela tradução e notas de alguns livros do Novo Testamento da Bíblia da Paulus Editora, no Brasil.

FAMÍLIA CRISTÃ – Quando começou o seu interesse pela Bíblia?

Pe. José Bortolini – Começou na infância, e devo-o ao meu pai. Quando chovia, ele costumava reunir os filhos mais novos, e lia histórias da Bíblia num livro intitulado História Sagrada. Lia com certa dificuldade, mas tinha verdadeira paixão pela Palavra de Deus. Aos treze anos eu já havia lido a Bíblia inteira, e alguns anos depois adquiri o título de Mestre em Sagrada Escritura. Mas o meu pai continuou a ser meu professor. Certa ocasião, ensinou-me a humildade. Ele falava de Lamec e das suas duas esposas. Lembrava-se da primeira, Ada, e perguntou-me como se chamava a outra. «Não me recordo, pai», respondi-lhe. Depois de alguns segundos, acrescentou: «A segunda chamava-se Sela.» E tinha razão.

FC – Porque é que a Bíblia é um livro sagrado e não apenas um livro de História?

P.J.B. – A Bíblia não é propriamente um livro de História no sentido que hoje damos à História. Ela narra a história de um povo, Israel, fazendo uma leitura dos acontecimentos à luz da fé. Nesse sentido, a Bíblia é a história de dois aliados, Deus e o seu povo. Um não existe sem o outro, e juntos constroem uma história de fé. É engano supor que Deus cochichava aos ouvidos das pessoas o que elas deviam escrever. Deus revelava-se na trama da história humana. Foi isso que os escritores bíblicos descobriram e mais tarde relataram por escrito. Um exemplo tirado do passado pode ajudar a entender. A Bíblia é como um tear tocado a quatro mãos, as de Deus e as do seu povo. Do tear sai um único pano, a história narrada pela Sagrada Escritura. Por isso ela não é simplesmente palavra humana, mas também Palavra de Deus. Não é simples história profana, mas história sagrada.

FC – A Dei Verbum afirma que «os livros completos do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque escritos sob inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor» (Cap. III, n.º 11). A exegese e a arqueologia continuam a descobrir aspectos novos dos textos sagrados. A Bíblia é um livro incompleto, Deus enganou-se ou os «autores» estavam distraídos?

P.J.B. – A Bíblia revela a parceria de Deus e Israel na construção da História. Sem a participação do povo não haveria nem Bíblia nem História.

Todavia, Deus não atropela o ser humano nem lhe faz violência, mas respeita os seus limites. Daí os condicionamentos culturais e históricos que encontramos na Sagrada Escritura. Deus e o homem caminham juntos. Mesmo podendo dar passadas muito mais longas do que as nossas, o Senhor respeita os nossos limites ou condicionamentos, revelando-se aos poucos, sem pressa, sem dar passadas maiores do que as nossas. É a paciência histórica que Deus teve para com Israel e tem para connosco. Deus é o professor, a humanidade é o aluno. O conhecimento que o professor possui não é transmitido todo de uma só vez, mas aos poucos, com paciência e carinho, de modo que o aluno cresce à medida que aprende, e Deus revela-se à medida que ensina.

FC – Porque é que os cristãos conhecem e lêem pouco a Bíblia?

P.J.B. – Houve um tempo – sobretudo para os católicos – em que a Bíblia era um ilustre desconhecido, «coisa de protestantes», dizia-se. Ou, então, «coisa de padres e monges». Estes rezavam o Breviário, os 150 Salmos. O povo, por motivos diversos, foi induzido a rezar 150 Ave-Marias, o Rosário. E a Bíblia deixou de fazer parte do alimento quotidiano do católico leigo. Graças a Deus, o Vaticano II despertou-nos, e a Bíblia está a voltar para as mãos do povo, de onde nunca deveria ter saído. Percebo que há um crescente interesse do povo pela Sagrada Escritura, e isso é muito bom. Contudo, não se devem menosprezar as reais dificuldades para isso: a Bíblia é fruto de uma cultura, geografia, antropologia, visão do mundo, etc., diferentes das nossas, e isso pode desestimular alguns à leitura. Certas leituras da Bíblia também são desestimulantes, pois transformam-na num livro de regras, de ameaças e de medo, sobretudo quando deparamos com textos apocalípticos. A leitura fundamentalista é outro entrave. É preciso libertar a Bíblia dessas amarras, para transformá-la no livro da vida para todos. Em tempos de igrejas vazias como o nosso, a esperança reside na Palavra de Deus, que é viva e eficaz, apta a transformar a nossa vida. Para tanto, é necessário ter a coragem de transformá-la em alimento quotidiano, é preciso ter dela fome e sede, como dizia o profeta Amós.

FC – Pensa que pela sua importância histórica, cultural, religiosa e civilizacional a Bíblia deveria ser um dos «manuais escolares»?

P.J.B. – A Bíblia pode ser lida de diversos ângulos, alguns extremamente importantes, outros menos. Há grupos que se reúnem para ler e estudar a Sagrada Escritura do ponto de vista literário, nas suas línguas originais. Evidentemente este não é um enfoque dos mais importantes. Outros lêem-na como principal fonte da História de Israel e, de certo modo, de todo o antigo Médio Oriente. Outros apreciam-na como fonte inesgotável de espiritualidade ou como subsídio de História das Religiões. E assim por diante. Eu sou da opinião de que a ausência da Bíblia na escola só empobrece o ensino. Deveria ser parte da grade curricular. Hoje fala-se de interdisciplinaridade do ensino. Pois bem, a Bíblia não poderia estar fora disso. Outro campo em que ela vai ocupando sempre mais espaço é o da catequese (que não deve ser confundida com ensino religioso). Sem Bíblia, a catequese empobrece terrivelmente.

FC – Que pode dizer a Bíblia sobre os problemas da sociedade actual: terrorismo, miséria, consumismo, individualismo, etc.?

P.J.B. – Não se trata de fazer como alguns fundamentalistas, que transformam a Bíblia num livro de receitas e de regras prontas. Para essas pessoas, tudo «está escrito», e isso é muito perigoso, pois a Sagrada Escritura é também um livro culturalmente condicionado. Em vez de tê-la como acervo de regras, é preferível vê-la como proposta, como caminho que conduz à Nova Jerusalém do Apocalipse, ou seja, caminho que conduz a um mundo plenamente fraterno e justo, com vida para todos. O Deus da Bíblia e a própria Bíblia não podem ser dissociados da vida. Jesus disse isso claramente: veio para que todos a tenham em abundância. E a maior aspiração do ser humano é justamente a vida, na liberdade e fraternidade. Outro pormenor importante: a Bíblia é um livro eminentemente colectivo, um livro da comunidade e para a comunidade, pois trata-se da história de um povo. O seu eixo central é a Aliança, feita com um povo no Antigo Testamento, e com a humanidade inteira no Novo Testamento, através de Jesus. Posso ler a Bíblia individualmente, mas o proveito é maior quando a lemos em comunidade, em clima de fé, iluminados pelo Espírito Santo.

 

José Carlos Nunes