Tudo pode acontecer. Com esta expressão tão coloquial fazemos uma afirmação que tem a sua raiz no Novo Testamento. Relembraremos por estes dias as palavras do Anjo na Anunciação: «A Deus nada é impossível.» De facto, tudo pode acontecer porque a Deus nada é impossível.
Sabendo, pela fé, como são verdadeiras estas palavras, vivemos, no entanto, como se assim não fosse. Contamos com o previsível, com o que podemos planear ou fazer acontecer. Esperamos pelos resultados daquilo que preparámos. E, em última análise, achamos que as surpresas são raras e obra do acaso. Até Deus está arrumado na nossa vida numa gaveta devidamente identificada e trancada.
Mas a verdade é que não andamos contentes nem satisfeitos. Pelo contrário: somos cada vez mais propensos a amarguras e lamentações, cepticismos e depressões. Fugindo de nós mesmos e da nossa circunstância, corremos desenfreadamente em busca de uma nova experiência, de uma
Desejamos o quê? De que é que andamos à procura? Por que esperamos? Há palavras que parecem esboçar uma resposta: amor, justiça, verdade, beleza. Claramente ansiamos por estes ideais perdidos. Com o aproximar do fim do ano, repetiremos estas palavras como um chavão vazio, como a nostalgia de qualquer coisa que era tão
E se não fosse mesmo? E se fosse possível reencontrar a beleza em todo o seu esplendor, não desfeada pela acidez da ausência de Deus? E se a verdade fosse mais do que o consenso vago e ambíguo entre todas as opiniões e brilhasse como um farol que ilumina a razão e a leva mais longe? E se a justiça não se limitasse a um ajustar de contas humanas e fosse para cada um a experiência de uma medida larga e generosa que ultrapassa o mérito, valorizando tudo o que é bom e perdoando tudo o que é mau? E se o amor se revelasse na frescura de uma entrega inteira e incondicional, acessível a todos os corações, não deixando ninguém na solidão?
Uma vez, num lugar recôndito e inóspito, no meio de um povo pequeno e dominado pelos poderosos, entre gente pobre e desconhecida, uma Virgem esperou um Filho, com uma certeza límpida de que era Ele quem o Profeta anunciara: «O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; me enviou para anunciar a redenção aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar um ano de graça da parte do Senhor.»
O nascimento deste Menino foi proclamado pelos Anjos no Céu e vieram magos do Oriente para O adorar. Depois de trinta anos de silêncio, quando Se deu a conhecer, foi na vida de todos os que O encontraram uma presença excepcional. «Quem é este?», perguntavam até os próximos, fascinados com o Seu poder, os Seus milagres, a Sua atractividade humana incomparável. Grandes pecadores mudaram de vida; homens sem fé acreditaram; mortos ressuscitaram.
Madalena Fontoura