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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Comentário
CARTA ABERTA AO MENINO JESUS
 

Vou-te contar, Menino Jesus. Cada vez que a minha filha Carolina olha para a cruz, e vê um homem agonizante, com as mãos e os pés em chaga, tem pena dele e diz: «Coitadinho do Jesus, tem dói-dói.» E faz festinhas. Ela ainda não sabe que Jesus é Deus, nem sabe o que Deus é, mas os mistérios da Santíssima Trindade também nunca foram a maneira mais fácil de aceder ao sagrado. Infelizmente, porque ela é pequenina e tu só és menino em Dezembro, a Carolina não te conhece sem carnes rasgadas (embora eu te imagine com um ou outro joelho esfolado, de tanto correres pelos campos e rolar na erva). Ela não sabe quem tu és, Menino Jesus, e por isso ainda levanta a cabeça para te ver, sem saber que tu já foste um dia da altura dela.

Este Natal vou contar-lhe. Vou contar-lhe como nos conta Caeiro n’O Guardador de Rebanhos – que tu fugiste do céu porque eras «nosso de mais para fingir de segunda pessoa da Trindade», que és «uma criança bonita de riso e natural», que «limpa o nariz no braço direito» e que «chapinha nas poças de água». Vou contar-lhe que para mim tu cheiras a musgo, desde os tempos em que eu, ainda criança, ia com o meu avô para as estradas velhas da serra de São Mamede arrancar almofadas de verde às pedras antigas. Vou contar-lhe que te escondes durante onze meses do ano entre

bolas vermelhas e enfeites dourados, deixando o mundo ao crucificado para surgires alegre quando o frio chega e ocupares o topo do presépio. Nas encostas de musgo, onde a minha mãe colocava pequenos espelhos a imitar água e farinha a fazer de neve, ovelhas trepavam até ti e ao longe os três Reis Magos de porcelana, cujas dimensões não coincidiam com as restantes personagens, aproximavam-se para prestar homenagem a um bebé recém-nascido.

Tudo isto és tu para mim, Menino Jesus. Por isso tem graça quando dizem que não nasceste no ano em que nasceste, que Belém não fica em Belém, que as datas e os quilómetros não batem certo – como se uma criança de poucos anos estivesse interessada em matemática. O que eles não percebem, Menino Jesus, é que nenhuma outra religião em nenhum outro lugar do mundo tem um Deus feito criança, um Deus sem barbas longas que cresceu no ventre de uma mulher, um Deus connosco. É essa face – a tua face – que me conforta: um menino divino sem dogmática e que ainda não sabe ler o catecismo, que corre livre pelo mundo distribuindo a inocência e o amor. O que eles não percebem, Menino Jesus, é que seja pela mão de Deus seja pela dos homens, tu nasceste sob a luz de uma grande estrela. Mesmo que não existisses, a tua criação, só por si, já seria um milagre. O mais belo milagre deste tempo a que se chama Natal.

 

João Miguel Tavares