Vou-te contar, Menino Jesus. Cada vez que a minha filha Carolina olha para a cruz, e vê um homem agonizante, com as mãos e os pés em chaga, tem pena dele e diz: «Coitadinho do Jesus, tem dói-dói.» E faz festinhas. Ela ainda não sabe que Jesus é Deus, nem sabe o que Deus é, mas os mistérios da Santíssima Trindade também nunca foram a maneira mais fácil de aceder ao sagrado. Infelizmente, porque ela é pequenina e tu só és menino em Dezembro, a Carolina não te conhece sem carnes rasgadas (embora eu te imagine com um ou outro joelho esfolado, de tanto correres pelos campos e rolar na erva). Ela não sabe quem tu és, Menino Jesus, e por isso ainda levanta a cabeça para te ver, sem saber que tu já foste um dia da altura dela.
Este Natal vou contar-lhe. Vou contar-lhe como nos conta Caeiro n’O Guardador de Rebanhos – que tu fugiste do céu porque eras «nosso de mais para fingir de segunda pessoa da Trindade», que és «uma criança bonita de riso e natural», que «limpa o nariz no braço direito» e que «chapinha nas poças de água». Vou contar-lhe que para mim tu cheiras a musgo, desde os tempos em que eu, ainda criança, ia com o meu avô para as estradas velhas da serra de São Mamede arrancar almofadas de verde às pedras antigas. Vou contar-lhe que te escondes durante onze meses do ano entre
Tudo isto és tu para mim, Menino Jesus. Por isso tem graça quando dizem que não nasceste no ano em que nasceste, que Belém não fica em Belém, que as datas e os quilómetros não batem certo – como se uma criança de poucos anos estivesse interessada
João Miguel Tavares