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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Diálogo com o Padre
Problemas sociais
O MERCADO GLOBAL
 

Um leitor afirma que «sobre a moral social, nem sempre a voz da Igreja é clara e forte». Pergunta ao Pe. Borga se a Igreja pode ser neutra quando a lógica mercantilista está acima de qualquer outro valor.

Senhor Pe. Borga,

Sou um cristão que atravessa um momento de crise em relação à confiança que tenho na Igreja. Fico contente por ver que o magistério católico não se desvia do caminho do Evangelho, mesmo quando as decisões a tomar são difíceis e impopulares. Mas fico triste quando constato que o mesmo zelo não é vivido sobre todas as realidades: o que é claro e incisivo na ética da vida, na família e na sexualidade, na moral social já é mais incerto.

A voz forte de João Paulo II e de Bento XVI, com repetidos apelos à cristandade e à humanidade, para cuidarem dos pobres, depois perde-se na retórica da diplomacia e na ética da neutralidade para não ofender outras realidade. Pergunto-me onde é que a neutralidade aparece como virtude evangélica? Creio que a tradição cristã sempre teve a neutralidade em descrédito a partir do momento em que Pilatos lavou as mãos para não se meter no assunto!

As grandes empresas procuram os lugares com matérias-primas e mão-de-obra mais baratas, explorando os países e a sua população, na certeza consciente de que quando encontrarem outro local mais barato para a produção vão deixando desempregados e problemas sociais cada vez maiores.

Pode ser-se neutro num mundo assim? Podemos calar-nos perante injustiças tão graves que acontecem em escala menor no posso país e que vemos todos os dias?

Percebo que a ética profissional desaconselha que os padres denunciem nomes de pessoas ou empresas que exploram os outros. Mas a mesma ética obriga que se denuncie e condene veementemente o pecado social com clareza e vigor. E a meu ver é precisamente isso que não acontece. Muitos cristãos simples e humildes não percebem para onde nos leva esta lógica mercantilista.

Paulo Girão

Caríssimo Paulo, que felicidade em recebermos a sua carta! Tanto pelo «ponto de ordem» que fez para a nossa reflexão como pela forma como expôs, tão claramente, as razões dessa sua crise que, saudavelmente e para seu crescimento, está a atravessar. Obrigado e parabéns. Sem neutralidades morais que no cristianismo, em boa verdade, nem existem nem aproveitaria a ninguém a sua existência, devemos comprometer-nos, vitalmente, com o rumo que a história dos homens deve trilhar. O cristão, por eleição e missão divina, é chamado e responde para trabalhar no serviço do Reino (Paz, Amor e Justiça) escolhendo a pessoa concreta na sua fragilidade e pobreza. Numa linguagem viva e eficaz, tal como a Palavra de Deus que escuta e acolhe, os cristãos, em Igreja, anunciam o mundo novo revestidos da autoridade que vem «do Alto» envolta em misericórdia e compaixão. Isto concretiza-se, na sua melhor expressão, no testemunho pessoal de vida.

O episódio evangélico lembrado pelo Paulo, é bem certo que nos mostra Pilatos a lavar as mãos para exprimir, mais do que «neutralidade», algo bem mais trágico: procurava desresponsabilizar-se do destino de alguém que ele sabia estar inocente e que, estando em suas mãos, não teve a coragem de defender daquela injustiça

face a uma multidão manipulada, a quem quis, somente, agradar. Esse gesto fá-lo ainda mais culpado. Mas o evangelista também registou aí, da parte de Jesus, a firmeza unida ao silêncio que, também ele, nada teve de neutralidade face ao seu destino. Paradoxalmente, esse silêncio «gritou», como mais nenhum outro grito humano, a verdade e a fidelidade de Jesus à sua missão. Fiel até ao fim! Quem anunciou e viveu em paz e amor verdadeiro encontra-se ali sozinho, perante o ódio dos seus adversários (embora muito religiosos!) e abandonado pelos seus que lhe haviam prometido precisamente o inverso, nas mãos de um cobarde. Nesse contexto, o silêncio de Jesus ampliou ainda mais a verdade da sua vida. Tudo estava dito e escutado pelos ouvidos dos que souberam escutar. Faltava mostrar aos olhos de quem soube erguer o seu olhar e ver Aquele que, suspenso na Cruz, se oferece em Amor.

Em boa verdade, caro Paulo, não falta hoje à Igreja grande quantidade e boa qualidade de doutrina para suscitar numerosos e fantásticos testemunhos de vida em santidade, nem sempre conhecidos e divulgados. Por regra são discretos. Outros, até, silenciados! Tal como ao tempo de Jesus, continuamos a precisar de ter olhos e ouvidos de discípulos: atentos e despertos! Há um volumoso serviço da Igreja à pessoa humana edificando a «nova civilização do Amo». O mundo, quando o (re)conhece, toma-o como um feliz milagre. A santidade de imensos consagrados, juntamente com políticos e filósofos, artistas e economistas, gente excepcional porque movida pela fé em Cristo, é algo notável e acessível ao vulgar cidadão do mundo. Mas até dentro da própria Igreja se conhece, com sorte, apenas um punhado deles. Quantos desconhecem quem na comunidade, concretamente, acolhe, ali, o abandonado ou maltratado, num testemunho vivo dessa Caridade que vem de Deus! São serviços de apoio e auxílio concreto e profético à pessoa carente, ou trabalhos de educação e formação para suscitar uma nova cidadania. «O bem não faz barulho» e a Igreja de Jesus, na medida em que Lhe é fiel, assemelha-se ao Mestre. Podendo ser incompreendida será sempre bem-aventurada!

Cada comunidade cristã existe para instruir e se entusiasmar, capacitando-se para acreditar no Amor. O Paulo pertence e é co-responsável, segundo a sua condição, pela sua comunidade para que ela seja uma boa e bonita expressão do contributo e justeza das suas convicções.

Em síntese, mais do que faltar definição ou clareza por parte do Magistério da Igreja, o que existe é, infelizmente, uma enorme indiferença e surdez de um grande número dos que, embora possam até frequentar os lugares de culto, deveriam ter mais ouvidos para escutar a voz de Deus na Igreja. É preciso trabalharmos mais e melhor!

Enfrente essa crise pessoal tirando dela o que de melhor ela lhe proporciona: no seu viver concreto, procure ser um bom exemplo daquilo que espera ver mais generalizado entre os fiéis da Igreja. Proclame nas suas palavras e sobretudo no seu modo de viver que o ser humano vale pelo que realmente ama e é amado e não pelo que alcança ou possui. Olhe o presente pelo prisma do seu destino e não tanto pelo seu passado ou pelas actuais circunstâncias. Leia-se, no seu coração e nos seus olhos, o valor da Vida!

É verdade que a sexualidade humana é um capítulo nuclear do nosso viver pessoal que precisa muito de ser evangelizada. Só uma feliz convivência entre as pessoas, fiel e responsável, edifica a «nova civilização do Amor», oposta à civilização doente de solidão, de medo e de morte, em que a pessoa é apenas vista e tida como indivíduo, um número ou uma «coisa» que interessa, ou não, na medida em que serve interesses mesquinhos que só a desumanizam.

Só a santidade dá voz e crédito à fé que a Igreja proclama e comunica e o mundo precisa, urgentemente, dela!

 

Pe. José Luís Borga