A vida corre-nos depressa entre os dedos e queremos atingir as nossas metas, deixar a nossa marca antes de voltarmos ao pó. Urge viver, diz-se! Será que nesta filosofia de vida há espaço para parar, há espaço para o silêncio? De que forma é que o silêncio serve os nossos propósitos? Para saber a resposta é preciso parar, calar e escutar.
Também sobre nós teve de se fazer silêncio para podermos escrever este texto. Mas como é que vamos falar de silêncio? – pensámos. Pior, como vamos descrever a sua importância, dar pistas para a sua «educação»? Um rol de ruídos instalou-se e chegámos a algumas conclusões: também nós ainda não tínhamos parado para perceber que se pode falar de silêncio, também nós ainda não tínhamos parado para perceber a importância de estarmos e fazermos silêncio, mais, para perceber a importância de mostrar como se pode fazer silêncio.
Descobrimos que o silêncio pode ser verdadeiramente ensurdecedor e incómodo, afinal de contas ele também comunica.
A primeira verdade ruidosa: é mais fácil saber estar em silêncio do que saber fazer silêncio. É verdade que ficar ou estar em silêncio é o primeiro patamar para fazermos silêncio, mas é o mais básico, aquele que é mais físico, circunstancial. Estar em silêncio é um acto, fazer silêncio dentro de nós é um estado de espírito, uma elevação. Mas é preciso ir mais fundo, é preciso conseguirmos falar connosco, para os cristãos é preciso conseguir falar com Deus para chegar ao patamar do verdadeiro silêncio, aquele em que nos descobrimos a nós e a Deus, ao outro e ao mundo. Agora sim, é mais difícil, é mais doloroso; é preciso um silêncio mais abstracto, é preciso deixar que todos os pensamentos que nos assaltam de enxurrada quando estamos em meditação se calem para podermos ficar em paz e ouvir. Segunda verdade ruidosa: a vida corre depressa e não temos tempo para estar connosco; quando descobrimos que afinal precisamos de nos conhecer outra vez percebemos que o difícil, mais do que voltarmos a estar connosco e conhecermo-nos, é conseguirmos encontrar-nos e saber onde estamos no meio de tanto barulho. É difícil, mas não é impossível…
As várias faces do silêncio
Numa definição simples, o silêncio é a ausência da palavra, de barulhos, de sons; «quase se diria que o silêncio é o equivalente ao vazio ou ao nada», explica Juan Ambrosio, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Estamos a falar do primeiro patamar. Mas se nos quisermos referir ao silêncio que pretendemos retratar aqui, aquele que nos leva para dentro de nós, então esse «é um silêncio de quem se concentra na vida, na relação com os outros e na relação com Deus e nessa concentração faz silêncio, não para se distrair, não para ficar reduzido ao nada e ao vazio, mas para se vazar de muita coisa que o ocupa, como se entrasse no nuclear», contrapõe. Este é o silêncio da reflexão, da meditação, da contemplação, da descoberta. São efectivamente necessários momentos de silêncio, no entanto, explica o teólogo, o silêncio não é apenas «a ausência da palavra». A comunicação verbal pode estar imbuída de silêncio, aquele que foi reflectido e ponderado antes de ser expresso. As palavras que não são inúteis, que não se dizem só por dizer, contêm um silêncio prévio, na opinião deste teólogo. Para nos aproximarmos do mistério de Deus, afirma, «há três fases: uma primeira de silêncio, de concentração. Depois, outra de diálogo com Ele. Escuto a sua voz nas mais variadas circunstâncias da vida, no interior do meu coração, nas palavras dos meus amigos. A terceira fase é novamente de silêncio contemplativo, de gratidão, de saborear e agradecer a nossa vida». Esta explicação é clara e cheia de sentido para um cristão, mas mesmo para os não-crentes ela adequa-se – em vez de aproximação ao mistério de Deus, dir-se-ia, ao mistério do homem. ![]()
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É preciso ter atenção para não cairmos no extremo de pensar que só através do silêncio chegamos a Deus ou a nós. Todas as vivências do ser humano são importantes, simplesmente o silêncio é o mais esquecido, mas nem ele é verdadeiramente silêncio sem as outras formas de comunicação. Juan Ambrosio exemplifica: «Não há descoberta do eu sem diálogo com o outro. Eu tenho acesso ao meu eu verdadeiro na relação com os outros. Quando é que eu como bebé tive consciência de que me chamava assim? Só porque os outros me chamavam assim. É nesta relação com os outros que vai crescendo a minha identidade pessoal.» O silêncio não deve ser vivido no vazio, mas sim como motor de mudança da nossa vida e da nossa relação com os outros em que estamos atentos ao próximo, às suas necessidades.
Rita Bruno