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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Destaque
Vida
UM PRESENTE DE DEUS
 

Turbilhão de emoções

E se Maria não tivesse aceite?

O que terá sentido Maria quando aceitou ser mãe de Jesus? O que os outros iriam pensar, dizer e fazer?

texto Madalena Fontoura

Um minuto depois ali estava ela sozinha, com os seus quinze anos. Não notava nada de estranho no seu corpo. Tudo parecia tranquilo e igual. Olhando à volta, nada havia no seu quarto que fosse vestígio daquele encontro incrível. À medida que se esbatia a intensidade da emoção, as coisas comuns começavam a impor-se. Dizer aos pais? Não dizer? Dizer ao noivo? Não dizer? Dizer já? Dizer mais tarde? Explicar tudo? Guardar para si alguns pormenores?

Ao mesmo tempo, vinham-lhe todas as ideias em turbilhão: a mudança radical da sua vida, o nada ficar como dantes, a responsabilidade de ser mãe, a missão especialíssima daquele filho. Não conseguia deixar de pensar como seria ele em grande e como seria ser mãe dele, para logo a seguir tremer a pensar se era capaz de lhe dar banho e de o sossegar quando chorasse.

A pouco e pouco começou a crescer aquele desconforto, quase medo, diante dos outros: o que iriam pensar? E dizer? E fazer? E se se voltassem todos contra ela? E se a deixassem sozinha a criá-lo? Como havia de sustentá-lo? E se lhe fizessem mal? Quem havia de o proteger? E a ela?

Queria dormir mas não podia. Tinha aceite. Tinha decidido ter aquele filho. Mas sentia-se pequena e trémula diante da sua própria decisão. Deu por si a pensar como seria mais fácil se fosse tudo um sonho. Poisou a mão na barriga. Aquela criança, tão minúscula que nem a sentia, era já o maior acontecimento da sua vida. E trazia-lhe um misto de dor e alegria que nunca mais a deixaria.

Os meses que se seguiram foram intensos. Que alívio a reacção serena dos pais e do noivo. Sentia-se segura com o apoio deles. Só lhe doía ainda ver aquelas caras de incredulidade, como quem a olha um bocadinho de lado. Mas tentava não pensar nisso. Até porque o mais importante era aquele menino aos saltos dentro dela, como quem tem pressa de sair. Agora que tinha a barriga volumosa e o sentia mexer-se todo irrequieto, queria abraçá-lo e pensava como ele estava ali desde o princípio, mesmo quando não se via, nem se sentia, nem tinha tamanho de gente.

A primeira impressão quando ele nasceu foi a estranheza de o ver fora de si, chorando com a cara toda engelhada e a esticar os braços e as pernas com uma energia incrível. Durante nove meses tinha-se habituado a pensar que ele era só seu. Ainda por cima porque estava com um homem que não era pai dele. Mas agora via-o já cá fora, com uma vida própria, cheia de movimentos, barulhos e cheiros. Que impressão ter de se habituar a que ele não fazia mesmo parte do seu corpo. Era ele mesmo.

Seguiram-se os anos da sua infância. Passaram a correr, tal era a preocupação, as coisas para fazer e o cuidado permanente com ele, a sua saúde, a sua educação, o seu crescimento, as suas companhias. Fazendo uma retrospectiva reparava que havia dias em que pensava que aquele menino era a sua vida. Mas, quando estava mais cansada ou pensativa, assaltava-a uma nostalgia do sossego dos seus quinze anos e perguntava-se o que tinha feito com a sua vida, quando tinha decidido ter o filho.

O tempo mais sossegado mas também mais misterioso foi o dos seus anos de rapaz crescido e homem grande. Ele era único, fazia-lhe imensa companhia. Mas sempre era homem. Não contava com ele para grandes conversas, sobretudo para falar do que sentia quando se lembrava da missão que estava guardada para ele. Ela era uma jovem viúva, como é normal acontecer a quem passa a vida ao lado de um homem mais velho. E agora voltava-lhe aquele arrepio de frio, quando se interrogava sobre o futuro. Algo lhe dizia que aquele rapagão ainda a ia fazer sofrer muito. E ela tremia de se ver outra vez sozinha para enfrentar tudo.

Ao longo de trinta anos, tinha tido vários momentos parecidos com estes. Quando estava assustada com aquela gravidez inesperada e lhe vinha a tentação de desejar que fosse tudo um sonho, o que a salvava era pensar que aquela vida não lhe pertencia. Quando gostava de o sentir dentro de si, como parte do seu corpo, desafiava-a pensar que aquela vida não lhe pertencia. Quando ele nasceu e tremeu de o ver cá fora tão indefeso, viu com os seus olhos que aquela vida não lhe pertencia. Quando se preocupava com o seu crescimento e se sentia pequena para aquela responsabilidade, descansava-a saber que aquela vida não lhe pertencia. E ultimamente, quando não percebia os seus silêncios de homem adulto, respeitava-o porque aquela vida não lhe pertencia.

E foi com esta consciência cada vez mais funda e cravada em si que acordou sobressaltada naquela noite de quinta para sexta quando lhe vieram dizer que o filho tinha sido preso. Quis ir a correr ter com ele, mas era perigoso, não a deixaram. Teve de esperar até de manhã. Quando finalmente a vieram buscar as notícias eram as piores: tinha sido condenado à morte e ia ser executado. Como quem caminha sobre vidros partidos, avançou dilacerada. As vozes e os ruídos metálicos cresciam de tom. Abrindo caminho por entre a multidão, conseguiu aproximar-se da rua por onde ele vinha. E viu-o então. Disforme de feridas e pancada, a sucumbir ao peso do madeiro do suplício.

Não deixou escapar nem um gemido, não consentiu numa lágrima, não estremeceu. Entregou-se inteira num olhar onde estava a sua comunhão inteira com a paixão do filho. Ele levantou a cabeça e recebeu aquele olhar. Naquele instante a sua dor foi do tamanho da história do mundo. Mas naquele instante ela soube também que era a sua vida que Lhe pertencia. E tinha vindo ao mundo para dar à luz aquele filho e entregá-Lo para salvação da humanidade.

Defesa da vida

Movimentos ajudam milhares de mães

Em 1998, muitas pessoas se juntaram em movimentos e associações para defender o «não» no referendo ao aborto. Oito anos passados, o que é feito destes movimentos? Alguns criaram casas-abrigo para mães em dificuldades, outros dão apoio na área da sexualidade e planeamento familiar.

texto Cláudia Sebastião

«Nenhuma mulher que tenha ajuda aborta!» Isilda Pegado é presidente da Federação Portuguesa pela Vida. E sabe bem do que fala. Os movimentos de apoio da vida têm ajudado milhares de mulheres e famílias.

Muitas crianças podiam não ter nascido se não tivessem contado com o apoio da Ajuda de Mãe ou do Ponto de Apoio à Vida. Só para citar alguns exemplos.

Em 1998, na altura do referendo ao aborto, apareceram em Portugal cerca de quarenta movimentos e associações em defesa da cultura da vida e juntaram-se a outras que já existiam. Em 2001, foi criada a Federação Portuguesa pela Vida que reúne dezassete instituições e movimentos. Isilda Pegado explica que as associações se dividem em três áreas de actuação. Umas dedicam-se ao «combate das ideias e políticas de divulgação do apoio à família, à defesa da vida, à liberdade de educação, à defesa dos direitos humanos» – é o caso de Juntos pela Vida, Vida Norte, Missão Vida e outras. Há as que prestam «apoio concreto a mulheres e crianças em risco de aborto ou de gravidez, vítimas de violência doméstica e familiar (Ajuda de Berço, ADAV Coimbra, Casa de Santo António, Ajuda de Mãe e outras)». E ainda outras que «se empenham nas áreas de informação sobre a sexualidade, o planeamento familiar, educação aos afectos (Mais

Vida Mais Família, MDV e outras).» Associações que contam com muitos voluntários e voluntárias entre os que dão algum conforto e apoio às mães grávidas.

Evitar o aborto, ajudar as mães

A Ajuda de Mãe foi criada em 1991 e faz atendimento telefónico, tem residências temporárias para mães, promove formação parental e formação profissional para as mães. Esta organização já atendeu mais de 82 mil mulheres pelo número SOS Grávida (808201139); 180 mães e 193 crianças foram acolhidas em residências temporárias; mais de 3500 mulheres foram apoiadas nos gabinetes, 31 receberam ajuda em casa e 71 receberam qualificação profissional. Mas este não é caso único. A Vida Norte, no Porto, foi criada em 1999 e presta apoio psicológico e médico. Mais de 800 pessoas utilizaram os serviços desta associação que também dá formação sobre vida, família, educação e sexualidade. O Ponto de Apoio à Vida (PAV) também tem feito um trabalho notável. Além do apoio psicológico via telefone e pessoal, o PAV tem uma casa que acolhe grávidas em dificuldades. A Casa de Santa Isabel funciona desde 2003 e já recebeu 755 mães. No total, o Ponto de Apoio à Vida já apoiou quase 3600 mulheres.

Isilda considera que o desafio maior no futuro próximo é o «referendo para liberalização do aborto». A federação assume a luta pelo «não» e fará «uma campanha de grande dimensão e empenho que deverá envolver todas as pessoas que defendem a vida e uma visão humanista da sociedade».

D. Carlos Azevedo

«O que nos interessa é que os valores da vida possam ser cultivados sempre»

texto Imelda Monteiro

fotos Paulo Lopes

É o rosto da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) nos meios de comunicação social. D. Carlos Azevedo, porta-voz da CEP, apela aos cristãos para que participem na campanha pelo «não» ao referendo. Afirma que os argumentos do «sim» são débeis e que as leis devem ser pedagógicas. Para o porta-voz da CEP não é por se legislar sobre uma matéria que ela passa a ser boa.

FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – O aborto voltou à ordem do dia. A Igreja Católica quer «esclarecer as consciências» em relação ao referendo. De que forma a Igreja vai intervir na campanha?

D. CARLOS AZEVEDO (D.C.A) – Primeiro temos de distinguir o «esclarecer consciências» de uma campanha. A dimensão de esclarecer as consciências é um trabalho permanente das comunidades cristãs. É procurar que as pessoas tenham um quadro mental que lhes permita analisar cada situação da vida e poder fazer uma opção a partir de um sistema de valores onde o cristianismo aparece como nuclear. Uma campanha tem o seu quê de político e estratégico. Aí serão os cristãos, os leigos, aqueles que estão envolvidos nessas dimensões, a mobilizar as pessoas para que possam ter decisões que condigam com aquilo que são as exigências da moral cristã.

FC – E aí a igreja pede que os leigos entrem na campanha?

D.C.A. – Exactamente. Mas todos temos de procurar esclarecer as consciências porque estamos convencidos de que as razões do «sim» são débeis. São razões económicas, psicológicas, sociais. São tudo dimensões de atenuantes para uma atitude que as pessoas tomam, mas não são argumento para retirar a dimensão criminosa de matar um ser humano. As únicas razões válidas para dizer «sim» seriam: «Eu não respeito a vida, a vida do outro ser humano incomoda-me e eu liquido-a.» É coerente. Pode haver quem pense assim! Ou então dizer: «Até às dez semanas não é bem um ser humano.» Cientificamente isso não se pode provar.

FC – As pessoas que defendem o «sim» até às dez semanas recusam a existência de vida humana antes disso?

D.C.A. – É a única razão válida. Seria a única razão válida. Mas é logo desmontada. Então às dez semanas e um dia já há pessoa e um dia antes não há?! As pessoas vêem que estabelecer uma data é puramente arbitrário. Não tem nenhuma razão científica. Tudo o resto são razões atenuantes.

FC – Há também aqueles que querem despenalizar o aborto para não se mandar mulheres para a cadeia.

D.C.A. – Há mais de vinte anos que não há nenhuma mulher presa por causa do aborto. É um argumento que não tem consistência alguma. Daí que se trata, digamos, de uma liberalização e não de uma despenalização.

FC – Como é que a Igreja acolhe as mulheres que abortam. São criminosas?

D.C.A. – Não. Podem ser pecadoras. Podem num determinado momento ter feito a opção que não era a melhor para elas. Não tiveram coragem. Não tiveram condições. Tiveram todos esses dramas. Mas acolhe-as com misericórdia. E a prova está em que a Igreja tem instituições para acolher mulheres que abortam e se sentem psicologicamente mal. É aí que se distingue o tal «esclarecimento das consciências», a opção por uma cultura da vida e uma campanha. Agora vai começar uma campanha. Mas essa campanha é uma coisa episódica. A nós não nos interessa muito a vitória do «sim» ou do «não». O que nos interessa é que os valores da vida possam ser cultivados sempre. Porque quem tiver consciência de que não fará uma opção dessas na vida não fará. Não é por causa de haver uma lei que faz. Mas as leis têm todas uma dimensão pedagógica na medida em que eu estou limitado por uma lei que me diz: «Isto não deves fazer.» É mais um elemento para eu não fazer.

FC – O Estado tem assim competência para legislar mas não para dizer se uma lei é boa ou má?

D.C.A. – O que foi dito pelo presidente da CEP no discurso de abertura da última assembleia plenária é que o Estado não tem legitimidade para considerar boa uma coisa que é má. O facto de legislar e descriminalizar sobre uma matéria não significa que essa matéria passe a ser boa. O matar um ser inocente é sempre matar um ser inocente. A lei tem uma função pedagógica. Não se trata de não perceber os dramas que as pessoas vivem mas trata-se de exigir a um Estado que seja respeitador da dignidade do ser humano. Há um ser humano, segundo a nossa perspectiva, desde a concepção. É uma coerência. As pessoas dizem: «A Igreja podia ser mais tolerante.» Não pode e não vai mudar em tempo algum sobre isto. Não é uma questão de ser retrógrada ou progressista. Trata-se de uma coerência fundamental.

 

Madalena Fontoura, Cláudia Sebastião, Imelda Monteiro