Mais que um baile, este é um momento de reunião e convívio entre dezenas de pessoas (entre 60 a 80) que têm a coragem e o ânimo de sair de casa. Até porque, para além da dança, há sempre outros motivos de atracção: «lanche, anedotas, por vezes sardinhada...»
«Vou sobretudo para me distrair, para não ficar em casa», confessa Helena que, apesar dos 82 anos (e de não ter um rim desde os 30) não perde uma oportunidade para "conviver". E quando está cansada e já não lhe apetece dançar, lança mãos à obra na cozinha. «Vou ajudar a fazer os lanches!»
Mas não se pense que, apesar da avançada idade de alguns dos bailarinos, a "pista" fica vazia. «Há sempre gente a dançar», conta Helena. Mais. «Dançam tudo... e aguentam bem!» O baile - por vezes abrilhantado por um conjunto - dura das 14h às 18h, mas pelo meio há momentos de pausa para lanchar ou, simplesmente, para uns minutos de descanso e conversa. «É um grande forró», diz, com uma gargalhada, a octogenária.
Durante anos, foram as colectividades e sociedades recreativas as principais responsáveis pela organização dos chamados bailes populares. Na verdade, estes eram praticamente a única oferta cultural e recreativa e o principal modo de distracção para os mais idosos.
Hoje em dia, é certo, a oferta é mais vasta e diversificada mas, para tristeza de muitos saudosistas, a tradição do movimento associativo e popular tem perdido adeptos. Porém, ainda existe muita carolice e há sempre quem pense que «correr por gosto não cansa».
Licínio Carvalho, 59 anos quase feitos, é um deles. Desde 2007, que é o responsável pela organização dos já famosos Bailes da Ribeira, que decorrem todas as quartas, sextas, sábados, domingos e feriados, entre as 15h e as 19h, no emblemático Mercado da Ribeira, em, Lisboa (que completa 130 anos em 2012).
«Tudo começou pela necessidade de fazer um pouco mais de história», conta, lembrando que «este era um dos principais mercados abastecedores de Lisboa e com a criação do MARL o mercado reduziu a sua actividade». O que aconteceu foi que «o mercado manteve-se no primeiro piso e este segundo piso ficou de luto». Nessa altura, surgiu a Lismarketing, empresa da qual Licínio Carvalho é funcionário, e que actualmente é a entidade responsável por toda a animação, manutenção e actividade "auto‑sustentada" do espaço, com danças populares, artesanato, eventos de gastronomia, entre outros.
A ideia partiu do gestor inicial do Espaço da Ribeira (antiga empresa responsável pelo espaço), Victor Sarmento, com o intuito de dinamizar o espaço. «Quando isto abriu, foi ele que teve várias ideias e procurou sugestões até que contactou uma pessoa, que era dirigente de uma colectividade popular (da Bica) que lhe falou dos bailes. E foi assim que surgiram estes bailes...»
Foi dentro desta necessidade de trazer pessoas a esta zona carismática que surgem então os Bailes da Ribeira, em 2002. E que rapidamente se tornaram num sucesso popular. «Começaram logo por captar uma larga afluência», prossegue, adiantando: «Contamos com cerca de seis a sete mil presenças por mês.» Os meses mais fortes coincidem com alturas festivas, como o Carnaval. «Já realizámos o Baile da Pinha e um concurso de máscaras com bastante participação.»
Na opinião do responsável, a boa captação de pessoas para os bailes prende-se com o facto de «este ser um local privilegiado a nível de acessos». Há muitos que se deslocam de viatura própria mas, na maioria, vêm de transportes públicos: barco, comboio, eléctrico, autocarro, metro... Além disso, existem também boas condições sanitárias para os utentes, bem como um amplo bar de apoio ao salão de baile com vista para uma das artérias mais movimentadas da cidade.
Vem muita gente de Lisboa, mas também dos concelhos limítrofes, como Almada, Seixal, Amadora, Cascais e Vila Franca de Xira. Não
Nos Bailes da Ribeira aceitam-se pessoas a partir dos 16 anos, mas a média de idades ronda os 60 anos «sendo que existem pessoas muito mais velhas, algumas com quase 90 anos!» Vêm dançar e conviver. Os clientes habituais são sobretudo reformados e, na maioria dos casos, vêm duas vezes por semana, repetem sempre... E há mesmo pessoas que vêm quase todos os dias.
A clientela é maioritariamente a população da camada sénior que, «por várias razões, ficou só». A solidão é, de facto, um dos problemas que afecta os idosos e uma das principais razões que os traz aqui, reconhece Licínio Carvalho. Além disso, nota ainda, esta actividade «é um contributo para a saúde, sobretudo a nível de problemas cardiovasculares» pois «a dança, é um óptimo exercício físico, as pessoas queimam calorias».
Para lá dos benefícios do exercício, o baile é sobretudo importante por proporcionar momentos de encontro entre as pessoas. «É muito positivo: fazem-se amigos, encontram-se namorados... Tem coisas giras. Há pessoas que até trazem o bolo e comemoram aqui o seu aniversário durante o baile!»
Foi precisamente isto que atraiu o casal António Santos, 69 anos, lisboeta reformado da PT, e Carminda Pais, minhota de 68 anos residente em Caxias, reformada da Unibetão, ele divorciado, ela viúva. A solidão trouxe-os aqui. Namoram há cinco anos e foi na Ribeira que se conheceram. «Foi amor à primeira vista», realçam. Primeiro vinham sozinhos e agora, sempre juntos, quase não perdem uma matiné. Para António, «o baile foi um vício até aos 33 anos, depois interrompi e só depois, aos 66 é que recomecei... aqui». Quanto a Carminda, anteriormente «frequentava os bailes do restaurante Mónaco», que entretanto já não existem. «Fazemos amigos e vimos aqui também por causa disso», reconhece ainda.
Quem também não perde um "bailinho", na Ribeira ou noutros locais, é Isaías Gomes da Rosa, 74 anos bem conservados, embora com o infortúnio de uma cegueira parcial causada por um atropelamento. Reformado há 24 anos da Central de Correios de Lisboa, Isaías vem de Vialonga sempre sozinho, apenas acompanhado pela sua bengala que o guia pelas ruas da cidade e que parece ainda manejar com pouca destreza. Mas isso não o faz esmorecer. A esposa fica em casa, «não gosta de dançar» e este senhor bem-disposto e elegante percorre as "capelinhas" à procura de distracção: num mesmo dia, é capaz de viajar (de transportes) do Centro de Dia da Cruz-Quebrada ou do restaurante Caravela, em Algés, até à Ribeira. Aqui, devido à sua invalidez, entra sem pagar... e na esperança de arranjar um par para a dança (o que quase sempre acontece, assegura). Caso não surja essa oportunidade, dança sozinho ou, simplesmente, fica a ouvir a música e apreciar o ambiente.
Carla Cardoso, animadora sociocultural da Área de Idosos da Liga dos Amigos da Terceira Idade (LATI), sedeada no concelho de Setúbal, reconhece a importância deste tipo de eventos junto destas pessoas. «Eles adoram! E mesmo quando não conseguem dançar, batem palmas.»
Os bailes acontecem nas instalações do Centro de Dia da Liga (quando está bom tempo na rua, caso contrário no refeitório) e são «muito frequentados» (só no Centro de Dia existem 85 idosos), quase sempre tendo por pretexto um qualquer acontecimento festivo. Seja o Carnaval, os Santos Populares ou um simples aniversário. «Sempre que um dos nossos idosos faz anos, temos baile», o que faz com que «quase todos os meses haja festa», conta Carla Cardoso.
Por vezes, outros bailes acontecem no concelho de Setúbal (cerca de 16% da população do concelho é constituída por idosos), promovidos pela Câmara, pela Cáritas ou pela associação Envelhecer. «Somos convidados a ir, mas por vezes é difícil porque, para muitos, temos de ser nós a transportá-los», diz a animadora. Dificuldades à parte, a verdade é que estes momentos de convívio são sempre aguardados com grande expectativa. «Vivem à espera disto; quando acaba um baile começam logo a perguntar quando é que há outro.»Ana Botto